Tráfico de crianças na China é tão rentável quanto narcotráfico

Andreas Lorenz

Em Pequim

O tráfico humano, incluindo o roubo e a venda de crianças, é um fenômeno generalizado na China. A polícia vê-se quase impotente para conter esta atividade, e a corrupção facilita o negócio. Pais desesperados unem-se aos policiais para procurarem os seus filhos e filhas desaparecidos. Mas esses esforços geralmente não surtem resultados.

Guo Gangtang vende brotos secos de abóbora no shopping center Yiwu City, em Pequim. As caixas amarelas do produto estão impressas com personagens históricos, fadas ou aforismos – imagens que a sua mulher encontrou na Internet.

Os negócios não estão indo particularmente bem, em parte porque o seu quiosque fica espremido em um canto nos fundos do shopping center, onde o aluguel é mais barato. Guo raramente ganha mais do que 1.000 yuans (cerca de 120 euros, US$ 149, R$ 277) por mês.

Por piedade, o dono do quiosque recentemente abriu mão do aluguel. O destino não tem tratado Guo muito bem. O seu filho foi roubado 13 anos atrás, e desde então ele é motivado por um único desejo: encontrar o filho desaparecido.

Em todas as ocasiões que Guo, que tem entre 40 e 50 anos de idade, consegue economizar dinheiro suficiente, ele coloca duas bandeiras no banco traseiro da sua motocicleta e circula pelo interior do país. As bandeiras trazem a fotografia de um garotinho, o seu filho Xinzhen.

O dia em que o mundo desabou para Guo e a sua mulher começou como qualquer outro. Ele morava em uma pequena cidade costeira na província de Shandong, onde trabalhava como motorista, transportando materiais de construção em um trator. A data era 21 de setembro de 1997. O seu filho Xinzhen, que tinha dois anos e meio de idade, brincava com uma garota da vizinhança em frente à porta da casa quando uma mulher se aproximou das crianças. A mulher, uma desconhecida, bateu na face do garoto com um pedaço de pano, segundo as testemunhas disseram mais tarde. A seguir, ela virou-se vagarosamente em direção à rua, que ficava a cerca de cem metros de distância.

“Eu senti imediatamente que algo havia acontecido com Xinzhen”

O garotinho deve tê-la seguido. Foi como se ele tivesse desaparecido por encanto. “Quando eu voltei para casa, havia uma multidão em frente à minha casa”, conta Guo. “Eu imediatamente suspeitei que algo havia acontecido com Xinzhen”.

Guo correu até o posto policial. Vizinhos o ajudaram a procurar o garoto. Ele e a mulher gastaram bastante dinheiro nas semanas seguintes. Eles colocaram cartazes em postes de luz, imprimiram panfletos e pagaram a auxiliares o equivalente a cerca de um euro por dia para que estes procurassem a criança nas cidades vizinhas.

Logo Guo começou a procurar o menino em locais mais distantes. “Eu fui a todas as províncias, exceto o Tibete, Taiwan, Qinghai e a Mongólia Interior”, diz ele. Jornais e estações de televisão investigaram a história e noticiaram a tragédia vivida por Guo.

O roubo de crianças é um problema comum na República Popular da China, o que explica por que avós e pais buscam os filhos nas escolas em todo o país. Eles estão determinados a não facilitar a ação dos traficantes humanos.

Este é uma das facetas tristes da China moderna. Os especialistas acreditam que entre 30 mil e 60 mil bebês, crianças e adolescentes desaparecem todos os anos. Eles são sequestrados e a seguir vendidos, e muitas vezes acabam trabalhando como escravos em fábricas e olarias, ou até mesmo em bordéis.

“Eles me perguntaram se eu tinha alguma criança para vender”

Ao se deslocarem até onde se encontra o comprador, os traficantes humanos frequentemente sedam as crianças sequestradas para impedir que estas gritem. Às vezes elas não sobrevivem a este tratamento, conforme se pode perceber a partir dos relatos periódicos da mídia a respeito de crianças mortas encontradas em ônibus e trens.

Em 30 de novembro de 2008, 11 anos após o desaparecimento de Xinzhen, Baotong, de dois anos de idade, brincava em uma rua em frente ao prédio dos seus pais, na cidade litorânea de Lianyungang. O pai dele, Li Shouquan, fazia calçados esportivos em uma pequena fábrica e os vendia no corredor do seu edifício.

Naquele dia havia muitos clientes no pátio. Um homem que vinha espreitando a criança desapercebido perto da parede subitamente agarrou o menino e foi embora, deixando atrás de si apenas algumas guimbas de cigarro sob uma pequena árvore.

Li suspeitou que o seu filho estivesse em algum lugar na vizinha província de Shandong. “Existe um mercado de crianças na cidade de Tanshan”, disse a ele um policial. Quando Li começou a procurar o menino em uma das cidades próximas, moradores o confundiram com um traficante humano. “Eles me perguntaram se eu tinha alguma criança para vender e quanto eu desejaria receber por ela”, conta Li. “Para elas, o tráfico humano não é uma atividade criminosa, mas sim algo que faz parte da tradição da China”.

“Ter filhos em vez de criar porcos”

Os meninos são particularmente importantes nas vilas. Nas áreas rurais existe uma tradição antiga de os filhos do sexo masculino e as noras cuidarem dos pais idosos.

Mas os compradores de crianças roubadas podem ser encontrados também em cidades como Pequim ou Xangai. Muitos chineses desejam desesperadamente um bebê, mas são incapazes de conceber uma criança. Os processos de adoção são complicados, e as crianças que são atualmente entregues aos orfanatos são, em sua maioria, portadoras de deficiências.

A política de um só filho adotada por Pequim não impede o negócio. Ao contrário, famílias que já possuem um filho às vezes compram um outro menino ou menina. Esse é um negócio lucrativo para os sequestradores, que podem cobrar até quatro mil euros por um menino e geralmente a metade deste preço por uma menina. Eles chegam às vezes a oferecer negócios especiais a clientes que tem menos recursos, vendendo bebês por até 80 euros.

A polícia criou uma força especial para combater o sequestro de crianças e mulheres, e a unidade desbarata grupos de tráfico humano todos os anos. Mas, segundo estatísticas oficiais, em 2009 a polícia só conseguiu recuperar 3.400 crianças das mãos de traficantes e compradores. Em muitos locais, uma criança só é oficialmente considerada desaparecida após 24 horas. A essa altura, os sequestradores geralmente já estão longe.

“Ninguém faz nenhuma pergunta”

Pais desesperados protestam repetidamente contra a passividade da polícia. Um desses protestos foi realizado em Dongguan, uma cidade de migrantes no sul do país, onde cerca de mil crianças desapareceram de 2008 a 2009. A polícia local registrou apenas 200 vítimas nos seus arquivos. Os policiais rejeitaram os demais casos, alegando que não havia prova da ocorrência de crimes.

As chances de localização de uma criança sequestrada são mínimas. Clãs familiares frequentemente controlam tudo o que ocorre nas aldeias, e “eles têm a mentalidade de ladrões”, diz o sapateiro Li. Autoridades locais fazem parte do sistema, incluindo representantes de organizações de mulheres, líderes partidários e policiais locais. “Todo mundo sabe quando uma criança nova chegou de repente à vila”, explica Li, “mas ninguém faz nenhuma pergunta”.

Além disso, há a corrupção, um problema fundamental da China, sem o qual o tráfico humano em tal escala não seria possível. Quando as coisas são feitas segundo as regras oficiais, toda criança precisa ser registrada junto às autoridades relevantes, algo que não deveria ser possível sem a apresentação de uma certidão de nascimento ou outros documentos. Mas com os contatos certos e uma propina polpuda para as autoridades, esse obstáculo pode ser facilmente superado.

Não se trata apenas de quadrilhas inescrupulosas envolvidas com o tráfico humano, conforme seria de se esperar, mas às vezes dos próprios pais. Alguns camponeses são tão pobres que não têm capacidade ou disposição para alimentar mais uma boca, de forma que preferem vender os recém-nascidos. Outros veem o processo de dar a luz a crianças adicionais e vendê-las como um fonte de renda – e uma atividade mais lucrativa do que o trabalho árduo na lavoura. Existe um ditado entre os agricultores da província de Yunnan, no sudoeste do país: “Se você quiser ganhar dinheiro, tenha filhos em vez de criar porcos”.

“A oportunidade se apresentou”

Em Lushan, 300 quilômetros a oeste de Lianyungang, Wang está sentado em um sofá revestido de couro sintético. Ele é um homem atraente, que trabalha como professor de matemática do ensino médio. Ele atualmente está designado para trabalhar na escola de uma vila nas montanhas. Wang e a sua mulher, que também é professora, admitem que compraram um filho.

O professor não deseja fornecer o seu nome real à reportagem. A sua família, que está reunida à sua volta, vê jornalistas com suspeição. No entanto, segundo a lei chinesa, aquilo que Wang fez não se constitui em crime. Apenas quem vende pessoas pode ser indiciado por crime.

Entretanto, o caso prejudica a sua reputação, já que, como educador, era de se esperar que ele servisse como um modelo para a sociedade. Wang decide falar. Ele deseja demonstrar que também é uma vítima. “Depois que tivemos o nosso filho, queríamos uma segunda criança”, explica ele. “Nós adoramos crianças. E quando a oportunidade se apresentou, nós a aproveitamos”.

A oportunidade surgiu no Hospital Popular, do outro lado da rua principal. Um parente ouviu dizer que uma mãe desejava vender o seu filho recém-nascido, porque era muito pobre para sustentar a criança. Na hora combinada, Wang encontrou-se com um homem na escada do hospital. Wang acreditava que o homem era o pai da criança. O homem estava segurando o bebê nos braços. “Nós lhe demos mais de 10 mil yuans (cerca de 1.200 euros, ou R$ 2.800)”, conta Wang.

O bebê, uma menina, era pequeno e debilitado, mas os novos pais usaram leite em pó para ajudá-lo a ganhar peso. “Houve momentos em que achamos que o bebê não sobreviveria”, conta a mãe do professor.

“Ela não me reconhece mais”

Na mesa de café há um álbum de fotografias da festa do primeiro aniversário do bebê. Ela dá a impressão de ser uma garotinha feliz, usando um pequeno chapéu com o desenho de um sol em uma foto e óculos escuros em outra. Há ainda uma outra foto na qual ela está segurando um telefone celular.

Mas a felicidade recém-encontrada da família durou pouco. Um dia, autoridades bateram à sua porta. Eram policiais ferroviários da província de Guizhou, no sudoeste do país. Alguns dias antes, eles perceberam que havia dois homens suspeitos viajando com três crianças pequenas em um trem para Pequim. Um deles confessou ter vendido um bebê para Wang, o professor. A mulher do traficantes de bebês aparentemente trabalhava como enfermeira no Hospital Lushan e foi ela que montou o esquema.

A polícia ferroviária levou o bebê do casal Wang para um orfanato em Guizhou. Como não existem informações sobre a identidade e o paradeiro da mãe biológica da garota, ela está morando no orfanato desde setembro passado.

O professor afirma que a situação é escandalosa, e diz que gostaria de ficar com a criança até que os pais reais fossem encontrados. “Eu certa vez visitei a menina no orfanato. Foi terrível. Ela não me reconheceu mais. Ela havia regredido, e atualmente não fala mais”.

A maioria das crianças raptadas que são encontradas – ou que acabam encontrando os pais verdadeiros – sofrem com problemas similares aos da filha comprada por Wang. Raramente a polícia consegue encontrar os pais reais. No ano passado, quando a polícia publicou fotos de 60 crianças resgatadas em um website, apenas sete dos seus pais se apresentaram.

Enquanto isso, mais de 230 laboratórios em todo o país têm analisado o DNA de pais e de crianças recuperadas. O governo paga pelo exame, que custa cerca de 200 euros (R$ 466). Mais de 20 mil amostras já foram coletadas – o que é muito pouco para que se consiga efetivamente refazer famílias em um país tão grande.

Como resultado, muita gente jamais fica sabendo que as pessoas que as criaram não são os seus pais biológicos. A fim de aumentar a probabilidade de que mães e pais encontrem os seus filhos, grupos privados criaram agora websites que possibilitam aos pais procurar os filhos desaparecidos.

Jogando cartas com as fotos dos desaparecidos

O som de Kenny G tocando o clássico de Frank Sinatra “I Did it My Way” no clarinete emerge dos autofalantes da principal estação de trem de Chongqing, uma cidade às margens do Rio Yangtzé, na China Central. Uma dúzia de pessoas, em sua maioria jovens, segura uma faixa para que os viajantes a vejam. Nela, está escrito: “Campanha Conjunta de Voluntários de Chongqing para Encontrar Membros de Famílias”.

Shen Hao, 41, um especialista em computação da província de Anhui, deu início à campanha. Nove anos atrás, ele decidiu dedicar-se à busca dos desaparecidos, ao ler no jornal a história de três garotas que desapareceram. Desde então, Hao viaja pelas grandes cidades da China, distribuindo cartas de baralho com fotos dos desaparecidos aos indivíduos que cruzam o seu caminho.

A carta da dama de copas, por exemplo, mostra Wang Yafeng, nascida em 20 de abril de 1987 na Mongólia Interior. Ela está desaparecida desde 7 de outubro de 2008.

Segundo os diminutos caracteres chineses na carta, ela tem um “nariz grande” e “uma cicatriz no dedo indicador da mão direita” e “fala chinês sem sotaques de dialetos”.

O nove de espadas traz a imagem desfocada de um jovem que nasceu “por volta de 1984”. Ele está procurando os seus pais biológicos. “Sequestrado entre maio e setembro de 1990”, diz ele. Ele se descreve como sendo uma criança com “olhos grandes e nariz pequeno”, e observa que atualmente tem 1,76 metro de altura e calça sapatos tamanho 41.

Ele escreveu que, até onde é capaz de se recordar, veio de uma cidade, que talvez fique na província de Hunan, ou possivelmente em Chongqing. “Havia mercados nos dois lados da rua. Os meus pais usavam uniformes”. Ele se lembra de que desconhecidos o levaram de ônibus para a província litorânea de Fujian.

As cartas também fornecem pistas a respeito de como fazer com que os traficantes encontrem mais dificuldades em roubar crianças. Uma das recomendações é “sempre manter as crianças à vista”. Uma outra é tatuar as crianças, de maneira que elas mais tarde possam ser mais facilmente identificadas.

“Cerca de 800 pessoas foram capazes de encontrar os seus familiares com o auxílio do nosso website e das cartas”, afirma com orgulho o ativista Shen. Ele já imprimiu 16 mil dessas cartas de baralho. Shen usa um capuz verde e têm os cabelos eriçados. Uma mulher que acabou de se aproximar dele diz que o seu filho de 13 anos de idade desapareceu há vários dias. A menos que o garoto reapareça rapidamente, ele fará parte do próximo baralho de Shen.

“Eu não o obrigaria a retornar para nós”

Shen, que não recebe nenhum auxílio financeiro do governo, paga os custos da campanha com os seus próprios recursos, contribuições das famílias e doações de companhias. A China oficial desconfia de organizações sem fins lucrativos como a dele. Entretanto, o governo lhe fornece assistentes durante as suas viagens pelo país. “O sequestro de crianças é um problema de âmbito mundial. Esse é um negócio extremamente rentável, como o tráfico de drogas”, afirma Shen.

Estamos no início de maio, e Guo, o vendedor de brotos de abóbora, pilota a sua motocicleta vermelha “Haojue” ao longo da Rodovia 106, na província de Hubei, dirigindo-se para Wuhan, uma grande cidade às margens do Rio Yangtzé. O seu capacete prateado, a calças jeans, o tênis de tecido e as joelheiras trazem uma camada da poeira levantada por caminhões, e o seu queixo está coberto por uma barba por fazer. Ele percorreu 4.000 quilômetros nas últimas duas semanas. “Eu quero ir a cidades nas quais ainda não estive”, explica Wuhan.

Quando ele para para descansar em um pequeno restaurante de beira de estrada, alguns moradores locais observam as bandeiras na sua motocicleta. “O meu filho foi sequestrado”, explica Guo. Quando ele encontra pessoas que passaram pela mesma situação, Guo fala a elas da sua experiência. “Existe um website da polícia, e vocês podem fazer um exame de DNA”, diz ele.

Recentemente, ele viu uma fotografia de um menino de rua maltrapilho em um jornal. O garoto parecia com o seu filho. Ele rumou rapidamente para a cidade, mas o garoto não era o seu filho. Guo e a sua mulher têm atualmente dois filhos, de 12 e três anos de idade.

E se ele encontrar Xinzhen depois de todos estes anos, possivelmente integrado a uma família? “Eu não o obrigaria a retornar para nós”, diz Guo. “Eu só gostaria de saber se ele está bem”.

Tradutor: UOL

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