Crise atinge o turismo da Grécia e aumenta cancelamentos

Manfred Ertel

  • Folha Imagem

O setor do turismo na Grécia, que poderia contribuir para a recuperação do país, está em crise. Centenas de hotéis estão à venda, e o número de visitantes caiu drasticamente. O governo, sem dinheiro, dificilmente está em posição de ajudar.

A temporada começou tarde este ano. É maio, o sol brilha no céu da Grécia, e Dimitris Fassoulakis está em pé em uma das sacadas vazias de seu hotel no costa sul de Creta. O saguão e o restaurante estão vazios, e não há ninguém na piscina. “Escolha um lugar”, diz o gerente, abrindo os braços.

O conjunto de chalés Valley Village, de Fassoulakis, que fica nos arredores verdejantes do antigo refúgio hippie de Matala, tem 70 quartos e mais de 200 camas, sendo que apenas oito estão ocupadas no momento. A temporada de férias em Creta normalmente começa no início de abril, às vezes até mesmo no fim de março. Mas este ano ele acabou de abrir as portas, com 50 dos 210 dias da temporada já transcorridos antes mesmo de ela ter começado.

“Ter um hotel não é mais um bom negócio”, diz Fassoulakis. Ele está com 41 anos, seu pai Manolis construiu o complexo e seus dois irmãos também estão envolvidos no negócio. Se não fosse assim, ele já o teria vendido há muito tempo. Foi só no ano passado que Fassoulakis começou a reformar o conjunto, contratou arquitetos e conseguiu permissão para construir. Mas agora ele não tem mais dinheiro para continuar, e os empréstimos não são mais aprovados. “Como podemos continuar?”, pergunta. A alta temporada não promete muito, tampouco, com apenas 50% dos quartos reservados até agora – no meio do período de férias de verão.

“Você pode ver e ouvir a crise”, diz outro hoteleiro. “Normalmente há muita atividade e barulho na rua nessa hora do dia”. Em vez disso, hoje é possível ouvir os pássaros cantando. É verão na Grécia, e os turistas estão longe.

Aumento dos cancelamentos

As reservas caíram em média 30% em todo o país desde o verão passado, e especialistas esperam um grande número de cancelamentos. A Associação de Empresas Turísticas da Grécia (Sete) informou que, nas primeiras 24 horas depois da greve geral no começo de maio, mais de 5.800 reservas foram canceladas em 28 hotéis de Atenas. De acordo com os cálculos da Sete, pelo menos 300 mil alemães desistirão de fazer suas viagens habituais para a Grécia este ano.

Dezenas de conferências e eventos importantes foram cancelados nas duas maiores cidades do país, Atenas e Tessalônica, assim como em Creta e na região de resorts de Chalkidiki, no norte do país. Depois dos protestos na capital, alguns países, como a Romênia, lançaram alertas de viagem para Atenas.

Mais de 400 hotéis estão oficialmente à venda: 81 nas ilhas Jônicas, 48 em Rodes, 50 em Cíclades e 44 em Creta. O atlas das férias na Grécia, com nomes como Paros, Naxos, Andros, Milos, Santorini, Corfu e Kos, parece mais uma grande liquidação. O Kathimerini, jornal diário de Atenas, estima o valor de todas as propriedades atualmente no mercado em mais de 5 bilhões de euros (R$ 11,3 bilhões). Elas também incluem hotéis de luxo, nomes que foram escondidos do público.

Dependência do turismo

Marcada pelas greves gerais, protestos em massa, incêndios em bancos e mortes, a Grécia não se parece mais com um paraíso de verão há semanas, pelo menos não nas notícias. Os próprios gregos têm menos dinheiro para gastar em viagens, enquanto os turistas tem outras opções.

E também há os casos correntes de corrupção, trapaça e fraude, como a imensa dívida tributária do ator e cantor pop Tolis Voskopoulos. Usando alguns truques e fraudes, ele conseguiu evitar pagar 5,5 milhões de euros (R$ 12,3 milhões) em impostos atrasados por 17 anos. Até a semana passada, a mulher do cantor era vice-ministra de turismo do governo do primeiro-ministro George Papandreou. Ela renunciou por causa de seu marido.

Um em cada cinco empregos dependem diretamente ou indiretamente do turismo, assim como depende – ou pelo menos dependia – 18% do PIB do país. Cerca de 850 mil pessoas trabalham no setor turístico da Grécia.

Metade cheio o metade vazio?

“O turismo é nossa indústria pesada”, diz o gerente de hotel Andreas Metaxas. “É um setor-chave da economia assim como a agricultura e o transporte marítimo.” O último também está sofrendo como resultado da crise global.

Metaxas, 49, está sentado no jardim de seu hotel cinco estrelas, com 285 quartos próximo a Heraklion, em Creta. “Metade do nosso hotel foi reservado – está metade cheio, e não metade vazio”, diz ele. A distinção é importante para ele, porque “os cancelamentos parecem um sinal de alarme eterno, que diz: Não visite a Grécia sob nenhuma circunstância.”

Como vice-presidente da associação grega de hotéis, Metaxas conhece os problemas de seu setor, e diferente de outras pessoas, ele também fala sobre eles. Ele fala sobre os controladores de voo que vivem interrompendo o tráfego aéreo. Ou sobre o sindicato dos marinheiros, que entrou em greve em 1º de maio e interrompeu todo o tráfego de balsas das ilhas gregas, e que, no final de abril, recusou-se a permitir que cerca de mil passageiros de um navio de cruzeiro voltassem para sua luxuosa embarcação no porto de Pireu.

Metaxas investiu 2,5 milhões de euros (R$ 5,7 milhões) em seu complexo no inverno passado e 5 milhões de euros (11,3 milhões) durante o inverno anterior – em novos banheiros, uma piscina, mais paisagismo e melhores opções de recreação. “É preciso dinheiro para garantir a qualidade e a variedade dos serviços. Ao mesmo tempo, é preciso cortar custos e reduzir preços para manter os clientes antigos e ganhar novos”, diz ele. “Isso chega a ser mágica.”

Polindo a imagem da Grécia

Ele sabe que as duas coisas são incompatíveis, e que a crise ainda está longe de seu pico em Creta. Isso significa um desastre para a ilha, que deriva 43% do total de seus ganhos do turismo.

Agora o setor está esperando a assistência do governo, que está em dificuldades, assim como novas ideias da organização de turismo do governo, EOT, que montou sua própria equipe para lidar com a crise. Uma campanha para melhorar a imagem no exterior poderia ajudar, apresentando imagens de um outro lado da Grécia, mais hospitaleiro, o berço da dança sirtaki e do tzatziki.

Mesmo esta campanha exige um investimento, o que poderia ser um problema. A EOT já deve cerca de 100 milhões de euros (R$ 227,8 milhões) para organizações da mídia grega e estrangeira por campanhas publicitárias anteriores.

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos