Merkel "negligenciou" sua responsabilidade na crise do euro, diz Joschka Fischer

  • Ariel Schalit/AP

    Ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Joschka Fischer

    Ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Joschka Fischer

O ex-ministro de Exterior da Alemanha Joschka Fischer fez duras críticas à forma como a chanceler Angela Merkel lidou com a crise do euro até agora. Numa entrevista à “Spiegel”, o ex-líder do Partido Verde diz que Merkel “negligenciou” sua responsabilidade e envergonhou o país.

Spiegel: Sr. Fischer, (a chanceler alemã) Angela Merkel é uma grande defensora da Europa?

Joschka Fischer: Angela Merkel teve seu encontro com a história nas últimas semanas. Mas diferente do (ex-chanceler) Helmut Kohl depois de 9 de novembro de 1989 e do (ex-chanceler) Gerhard Schröder depois de 11 de setembro de 2001, ela praticamente atrapalhou tudo.

Spiegel: Ela ajudou a montar o pacote de resgate mais ambicioso da história europeia.

Fischer: Sim, o pacote de resgate para o euro é a coisa certa a fazer, mas ele deveria ter sido feito em fevereiro. Naquele momento, já estava claro que a Grécia era simplesmente um gatilho para os especuladores lançarem um ataque contra o euro com todas as forças. A Europa poderia ter agido muito mais cedo se não fosse pela chanceler. E agora a maior parte da ação foi tomada pelo (presidente francês Nicolas) Sarkozy e (o primeiro ministro italiano Silvio) Berlusconi, e não pelo nosso governo. O papel da chanceler nisso foi simplesmente concordar com o plano.

Spiegel: Mas isso importa? O principal é que o plano de resgate foi feito.

Fischer: Certamente importa. A Alemanha está mais isolada do que nunca na UE, mas nós ainda ainda carregamos a pior parte do fardo financeiro enquanto o presidente francês é celebrado por isso. Isso é que é atitude de estadista de primeira classe! Não me lembro de nada tão constrangedor quanto isso desde 1949.

Spiegel: Você não está exagerando um pouco?

Fischer: Nem um pouco. De acordo com a mídia, a chanceler não sabia o que encontraria quando viajou para Bruxelas para um encontro de cúpula com os outros líderes do grupo europeu. Isso é inacreditável, se for verdade.

Spiegel: Como Merkel deveria ter reagido?

Fischer: A chanceler deveria ter apresentado sua própria proposta para resgatar o euro, em coordenação com a França. Temos essa responsabilidade enquanto potência econômica mais forte da Europa. A UE não pode resolver seus problemas a longo prazo se a Alemanha se esconder. Estamos pagando um preço alto por nossa resistência. Somos vistos com suspeita em todo o Mediterrâneo, e vistos como vilões na Grécia. Isso é extremamente deplorável, considerando o que nosso país fez pela Europa até agora.

Spiegel: Merkel falhou como política europeia?

Fischer: A chanceler ainda tem uma segunda chance. No seu discurso durante a entrega do Prêmio Carlos Magno ela disse que se o euro falhar, todo o projeto europeu falhará. Isso é verdade. Agora ela precisa agir de acordo. Só a retórica não é mais suficiente.

Spiegel: A UE já existia antes do euro. Por que ela deveria terminar caso a moeda comum não sobreviva?

Fischer: Não se trata apenas da moeda, mas do projeto europeu propriamente dito. Trata-se da questão de se a Europa é forte o suficiente e se tem uma vontade comum de defender seu projeto contra os ataques externos, nesse caso, dos especuladores. A unidade e a determinação são a chave. Infelizmente, nosso país reagiu de uma forma totalmente diferente desde que começou a crise da Grécia.

Spiegel: Como é possível que um país pequeno como a Grécia possa afundar a UE numa crise existencial?

Fischer: Desde o começo, não se tratava apenas da Grécia. Os mercados fizeram com que a Europa fosse brutalmente confrontada com a realidade. Todas as nossas belas ilusões – incluindo as minhas -, e o nosso auto-engano foram varridos. A escolha hoje é entre a verdadeira integração e a dissolução.

Spiegel: De quais ilusões você está falando?

Fischer: Sempre disseram que não podíamos mais falar nos Estados Unidos da Europa. Disseram que o euro só poderia funcionar com base nos critérios de Maastricht, sem uma maior integração política. Os mercados simplesmente deixaram claro para nós que não funciona dessa forma. É por isso que precisamos dar um passo corajoso à frente.

Spigel: E em que direção esse passo deve ser dado?

Fischer: Agora que temos 750 bilhões de euros garantidos, a união monetária se transformou numa comunidade de solidariedade. É isso que precisa ser implementado agora, o que significa basicamente mais integração, e não menos.

Spiegel: Uma comunidade de solidariedade significa que a Alemanha precisa pagar pelos erros dos outros?

Fischer: Que nonsense! A União Europeia foi uma “transfer union” desde o início. O mercado comum e o mercado agrário eram e ainda são as principais garantias de transferência para a Alemanha e a França! E a Alemanha foi a que mais se beneficiou até agora. Sem o euro, muitos países teriam desvalorizado sua moeda. Nós, como nação exportadora que depende principalmente da Europa, teríamos que pagar o preço, porque nossos produtos teriam ficado mais caros. Agora temos que compensar um pouco por isso. Não há outra forma.

Spiegel: A solidariedade significa responder por aqueles países que, assim como a Grécia, mentiram para a comunidade?

Fischer: A solidariedade é uma rua de mão dupla. Isso significa que, no futuro, um país do grupo europeu não poderá permitir que seus trabalhadores se aposentem com 67 anos enquanto outro permite que o façam com 55 anos. Também não poderá acontecer que alguns países acumulem débito ao bel prazer, enquanto outros economizam. Há vários países que precisam se tornar mais competitivos. Sabemos agora que o euro não pode funcionar sem tudo isso.

Spiegel: Em outras palavras, a Europa tem de se tornar mais como a Alemanha.

Fischer: Não, mais competitiva. Em termos de política social, impostos e política econômica, os membros da UE precisam coordenar suas atividades de forma mais eficaz, tornando-se mais integrados.

Spiegel: Por que você não começou a coordenar a política econômica e financeira da UE mais de perto quanto estava no poder?

Fischer: A Alemanha estava numa posição econômica extremamente difícil na época. Tivemos que compensar por nossa falha de modernização nos anos 90. Eventualmente tivemos a coragem de produzir a Agenda 2010 (nota do editor: um pacote de cortes impopulares nos benefícios sociais e reformas no mercado de trabalho feitas entre 2003 e 2004 pelo governo da coalizão de centro-esquerda liderado por Gerhard Schröder e Joschka Fischer). Era a coisa certa a fazer, mas acabou levando ao final do nosso governo.

Spiegel: Você deu um mau exemplo. Durante o seu governo de centro-esquerda, a Alemanha foi um dos primeiros países a violar o critério de estabilidade.

Fischer: Ficou claro que o critério de Maastricht só funcionava quando a economia estava bem. Nós violamos o critério porque tínhamos que pagar pelas consequências econômicas da reunificação alemã. Foi um desafio econômico e social que não foi levado suficientemente a sério nos anos 90.

Spiegel: Você está dizendo que a culpa não foi sua, mas do critério?

Fischer: É claro que cometemos erros, mas qualquer outro governo alemão teria feito o mesmo naquela época. Não ficamos simplesmente sentados de braços cruzados. Nós fizemos reformas dolorosas que eram inevitáveis, e com todas as consequências conhecidas.

Spiegel: Como evitar que a Grécia precise de ajuda de novo daqui a dez anos?

Fischer: O país está fazendo um grande esforço atualmente, e precisa de ajuda para andar com as próprias pernas. Isso também é do nosso interesse e da Europa! Mas mesmo daqui a dez anos, os gregos não serão os alemães e os alemães não serão os gregos. Não precisamos de um programa de reeducação, mas precisamos, por exemplo, de controles financeiros mais eficientes. A proposta da Comissão (Europeia) de revisar os orçamentos nacionais em Bruxelas faz sentido.

Spiegel: Decisões cruciais dos últimos 20 anos foram tomadas contra a vontade da maioria da população: a introdução do euro, a expansão para o leste, e agora o pacote de ajuda. A Europa não precisa de uma maioria interna?

Fischer: Esta é uma questão-chave. Mas onde estaríamos hoje sem todas essas decisões? Acho que muitos políticos não estão preparados para desafiar verdadeiramente a Europa e, ao fazer isso, lutar pelas maiorias. Está na hora de colocar um fim ao costume, de Bruxelas, de tomar decisões dentro do grupo de chefes de Estado e depois responsabilizar “a UE” por essas decisões nos próprios países.

Spiegel: O que exatamente melhoraria a reputação da Europa?

Fischer: É preciso explicar para a população qual é a razão de ser da Europa. E é preciso estar preparado para liderar e transformar as minorias em maiorias. Nunca escondi minhas convicções europeias. Assumi uma atitude de ofensiva na mídia, nas praças de mercado e nas campanhas eleitorais, tanto no nível nacional quanto no regional.

Spiegel: Mas a maioria dos políticos alemães estão comprometidos com a Europa.

Fischer: Apenas até o ponto em que ela é algo muito abstrato. Mas temos que dar as pessoas o crédito suficiente para lidar com as verdades inconvenientes. Ninguém explica porque o euro é importante para a Alemanha e o que o seu fracasso significaria. E ninguém explica por que a Alemanha sempre pagou – porque acontece que ela é quem mais ganha na Europa. É preciso explicar as coisas, começando pelo início. E para fazer isso é necessário estar preparado para assumir um risco político.

Spiegel: Seu sucessor, Guido Westerwelle, tem permanecido quase invisível durante a crise do euro. Os ministros de exterior não têm mais peso na Europa desde o Tratado de Lisboa?

Fischer: O ministro de exterior ainda é responsável pela Europa.

Spiegel: Em outras palavras, Westerwelle podia ter feito mais?

Fischer: Não vou comentar sobre meu sucessor. Mas você também lê os jornais.

Spiegel: Mais uma vez, quão severamente o papel do ministro de exterior foi reduzido?

Fischer: Se você têm energia e vontade política, se você é profundamente apaixonado pela Europa e desenvolve ideias, ninguém, mesmo hoje, será capaz de evitar que você se envolva.

Spiegel: Gostaríamos de consultá-lo como especialista em inícios falsos.

Fischer: Coisa que eu não sou.

Spiegel: Quando você olha para os primeiros meses do novo governo federal, você se lembra do começo de sua própria coalizão de centro-esquerda no passado?

Fischer: Nem um pouco.

Spiegel: Mas no seu caso, tudo também estava caótico no começo.

Fischer: Sei como é quando você entra no governo. Você mal acredita. Você sente que finalmente conseguiu! E então aparecem aqueles antecessores morosos de rosto cinza, arrastando-se para fora de seus escritórios, completamente exaustos. Governar parece fácil no começo, até que os primeiros problemas aparecem. No nosso caso, as coisas aconteceram muito rápido, porque estávamos lidando com a ameaça da guerra em Kosovo para começar. Você deve observar como os governos são no frescor de sua juventude, e como eles se parecem dois anos depois. Eu experienciei tudo isso. Nesse sentido, entendo parte do que está acontecendo com a coalizão.

Spiegel: Então você é um especialista, no fim das contas.

Fischer: Espere um pouco. Acho que o harakiri do FDP não tem precedentes. Sem ação inimiga e sem pressão da oposição, eles estão se afundando em todas as espadas ao redor. Devo dizer que fico de queixo caído. Não consigo entender porque eles fazem isso.

Spiegel: Que conselho você daria para seus colegas liberais agora?

Fischer: Ah, já estou esperando o dia em que a coalizão decidir reintroduzir a taxa de impostos total para o setor hoteleiro. Isso provavelmente terá que fazer parte do pacote de austeridade. O FDP não entendeu que o mundo mudou radicalmente na crise financeira. Do contrário jamais teria tomado uma decisão assim. E de outra forma ele não teria se apegado aos seus planos para cortar impostos de forma tão teimosa.

Spiegel: E que conselho você tem para seu próprio partido? Os Verdes devem se aproximar do CDU, ou eles devem entrar numa nova aliança com o SPD e o Partido de Esquerda?

Fischer: Você terá de perguntar para os responsáveis de hoje. Percebi quão graves são as dificuldades internas do Partido de Esquerda. Eles não querem terminar como os Verdes, mas gostariam de fazer parte do governo. Eles também querem um pedaço do bolo. Isso não vai funcionar.

Spiegel: Percebemos uma coisa interessante. Os Verdes estão se saindo melhor sem Joschka Fischer. Eles estão atingindo atualmente sensacionais 16% ou 17% nas pesquisas. Como você explica isso?

Fischer: É fácil. O velho finalmente foi embora. Este é o efeito benéfico da aposentadoria.

Spiegel: Sr. Fischer, muito obrigado por esta entrevista.

Tradutor: Eloise De Vylder

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