Jamaica procura se recuperar da crise enquanto a caçada humana continua

Jens Glüsing,

Em Kingston (Jamaica)

A guerra civil chegou a Kingston, a capital da Jamaica, na semana passada, enquanto a política tentava prender o suposto chefe do tráfico de drogas Christopher “Dudus” Coke. A capital jamaicana está retornando lentamente ao normal, mas ainda há famílias procurando os corpos dos seus entes queridos – e Coke ainda está foragido.

Indivíduos que gostam de armas apreciam a eficácia notável do fuzil Grizzly Big Boar. As tropas dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque elogiam a sua precisão e os aficionados admiram o poder de penetração desta arma de calibre 12,7 milímetros. Uma arma de fogo destas pode ser adquirida por mais de US$ 8.000 (6.500 euros, R$ 14,7 mil) nas ruas de Nova York. Ela é especialmente popular entre atiradores de precisão e franco-atiradores – e entre os chefes do narcotráfico que travam uma guerra particular contra o governo, como é o caso do jamaicano Christopher “Dudus” Coke, 41.

Guerra entre traficantes e policiais faz vítimas na Jamaica

Há semanas circulam boatos de que o criminoso mais procurado da ilha caribenha porta uma desta armas de alto desempenho. Soldados que caçam o bandido encontraram uma caixa vazia de “um fuzil de precisão de grosso calibre”, anunciou nesta semana o vice-comissário de polícia Glenmore Hinds. Em meio às cerca de 7.000 munições que as forças de segurança teriam apreendido após vários dias de tiroteios nas favelas, haveria várias do lendário calibre 12,7 milímetros.

Mas as autoridades policiais podem ter exagerado um pouco. Na realidade, o arsenal apreendido pelas forças de segurança foi bastante modesto. Durante a maior operação militar e policial da história da Jamaica, as autoridades haviam apreendido até o fim de semana “sete fuzis, seis armas curtas (revólveres ou pistolas) e alguns artefatos explosivos de fabricação caseira”, afirma Hinds. Mais de 2.000 policiais e militares das forças armadas vasculharam os bairros pobres de Kingston, a capital da Jamaica, na semana passada. Pelo menos 73 civis e três membros das forças de segurança morreram nos tiroteios entre as tropas do governo e os bandidos, e cerca de 700 suspeitos foram presos. O governo declarou estado de emergência, e as atividades comerciais na capital ficaram paralisadas.

No entanto, o fugitivo ainda se encontra foragido – e a sangrenta caçada humana deixou atrás de si uma capital cujos habitantes indignados ameaçam estremecer a estabilidade política da ilha.

“Os soldados o balearam pelas costas”

As ruas estão literalmente cobertas de caixas amassadas de frutas, pedaços de madeira e folhas de compensado – os restos de barricadas erguidas pelos moradores das favelas em uma tentativa de conter o avanço das tropas. A fumaça sobe de um carro incendiado. “Nós temos que agradecer ao primeiro-ministro por este caos”, diz uma mulher que se identifica como “Carey”. Ela sorri de forma irônica na direção de um grupo de soldados que almoçam em marmitas de papel. “Nós também estamos famintos, mas sem trabalho, não temos dinheiro”.

Um amigo dela diz que um dos membros da quadrilha de Coke se escondeu em uma árvore: “Os soldados o balearam pelas costas. Primeiro o fuzil dele caiu da árvore. A seguir, ele despencou lá de cima”.

Patera Henry, uma jovem professora, teria sido morta quando caminhava para a igreja: “Um soldado a matou com um tiro”, diz uma mulher que a conhecia, e que não quis que o seu nome fosse publicado por temer a ação da polícia. Ela tirou uma fotografia da mulher morta com o seu telefone celular cor-de-rosa – a foto mostra uma jovem usando uma camiseta preta e uma saia verde, em uma poça de sangue. Atrás delas é possível ver um soldado pronto para disparar o seu fuzil.

“O corpo dela desapareceu”, diz a amiga de Patera. “os soldados queimaram ou enterraram muitos mortos”. É praticamente impossível verificar se tais alegações são verídicas: várias das 73 vítimas civis foram enterradas sem que os seus corpos fossem submetidos a uma autópsia. Um grupo de mulheres de expressão sombria monta guarda em frente ao necrotério do Hospital Público de Kingston e repele todos os visitantes: “Ninguém entra sem a permissão do primeiro-ministro”.

Parte de uma velha família criminosa

Já no verão passado o governo dos Estados Unidos exigiu a extradição do bandido. Coke é um criminoso procurado nos Estados Unidos devido à prática de tráfico de drogas e de armas. Autoridades norte-americanas dizem que o homem da Jamaica é um dos criminosos mais perigosos do mundo.

O chefe do narcotráfico é oriundo de um velho clã criminoso jamaicano bem estabelecido no país. O seu pai, Lester, era um importante “don”, conforme são chamados com respeito os chefes do crime organizado na ilha. Pouco antes da sua planejada extradição para os Estados Unidos, ele morreu em um incêndio misterioso na sua cela na prisão. Dois irmãos de Coke foram assassinados.

Os dons são os verdadeiros governantes da Jamaica. Eles controlam as “fortalezas” - conforme são chamadas as favelas assoladas pelo crime. A ilha do Caribe tem sido especialmente afetada pelo declínio econômico da região, e a incidência do crime disparou nos bairros pobres. A Jamaica é um centro importante de tráfico de drogas e armas, e os dons controlam uma grande parcela desse comércio ilícito internacional.

Muitos deles mantém vínculos estreitos com o mundo político. A maioria das facções criminosas foi criada quando os principais partidos contrataram grupos de pistoleiros nas décadas de setenta e oitenta para intimidarem os seus rivais durante as eleições parlamentares. O ex-primeiro-ministro Edward Seaga chegou até a comparecer ao funeral de Lester Coke. Christopher Coke deu continuidade à tradição da família: ele apoiou o primeiro-ministro Bruce Golding, o sucessor de Seaga como líder do conservador Partido Trabalhista.

Reduto em Kingston

O reduto de Coke fica no distrito pobre de Tivoli Gardens, na zona oeste de Kingston, onde o astro do reggae Bob Marley já morou. A área faz parte do reduto eleitoral do primeiro-ministro. Coke forneceu a Golding votos dos moradores da favela, e em troca o político permitiu que o narcotraficante não tivesse os seus negócios perturbados.

O bandido estabeleceu um Estado dentro do Estado em Tivoli Gardens. Ele pagava as despesas escolares e medicamentos dos moradores, mediava brigas familiares e punia ladrões. Ao mesmo tempo, ele construiu um arsenal impressionante: no vizinho Haiti, ele trocava maconha por pistolas e fuzis.

À sombra do primeiro-ministro, que – na melhor das hipóteses – não se importava com quem comprava votos para ele, Coke cresceu para tornar-se “o homem mais poderoso da Jamaica”, segundo um ex-ministro. O bandido demonstrou ser um empresário inteligente. Ele não ostentava o seu poder com dinheiro e mulheres, conforme é comum nesta área, e raramente permitia que tirassem fotos suas em festas. Coke fundou duas companhias legais e o primeiro-ministro garantiu que uma delas – a empresa de consultoria Incomparable Enterprise – recebesse contratos milionários do governo. Em Tivoli Gardens os moradores em breve passaram a chamá-lo de “presidente”. Ninguém ousava desafiar a sua autoridade.

A simbiose entre o criminoso e o governo cresceu, conforme geralmente acontece no país – até que Washington exigiu a extradição do chefe do narcotráfico. Golding postergou a decisão por muito tempo. Primeiro ele reclamou de que autoridades dos Estados Unidos teriam grampeado ilegalmente telefones dos seus compatriotas. Enquanto isso, ele sabotou os esforços de uma firma de advocacia contratada pelo governo Obama para negociar a extradição. Foi só quando os norte-americanos ameaçaram impor sanções à ilha que o primeiro-ministro abandonou o don. A decisão de abandonar Coke provocou o banho de sangue.

Guerrilha urbana

No decorrer dos últimos meses, Coke mobilizou os seus apoiadores e lhes forneceu armas. Primeiro, algumas centenas de mulheres fizeram uma manifestação de apoio ao narcotraficante, usando camisetas com a mensagem impressa: “Jesus morreu por nós; nós morreremos por Dudus”. Os seus simpatizantes ergueram a seguir barricadas com veículos depredados – e quando as forças armadas marcharam em direção a Tivoli Gardens, as unidades militares foram recebidas por uma chuva de balas.

A maioria dos soldados jamaicanos é jovem e inexperiente. Eles estavam despreparados para uma guerrilha urbana nas favelas. “Eles mataram pessoas inocentes”, sussurra Carey, a testemunha, e a seguir ela desaparece. Vários soldados fortemente armados faziam patrulha atrás dela.

Pouco depois, ela estava com algumas amigas em uma esquina próxima ao Coronation Market, o maior mercado da capital jamaicana. Normalmente, as mulheres vendem frutas e verduras aqui, mas as bancas do mercado estão desertas desde que teve início a batalha pela captura de Dudus. O Coronation Market fica nas imediações de Tivoli Gardens – os soldados bloquearam todas as entradas para a favela.

Na quarta-feira passada, trabalhadores da Cruz Vermelha tiveram permissão para retornar ao distrito da cidade pela primeira vez, onde distribuíram comida e água aos moradores. São principalmente as mulheres e as crianças que estão traumatizadas após os vários dias de tiroteios, explica Jaslin Salmon, diretora da Cruz Vermelha Jamaicana.

A busca continua

A situação está voltando lentamente ao normal no centro da capital. Os primeiros estabelecimentos comerciais reabriram na King Street, os ônibus voltaram a circular e as escolas recomeçaram a funcionar na última segunda-feira.

Agora o governo ampliou a sua busca pelo narcotraficante para outros distritos da cidade, e houve notícias das primeiras trocas de tiros nas áreas residenciais afluentes da cidade. Como medida de precaução, o estado de emergência foi prorrogado por mais um mês. “A caçada humana continua”, afirma Glenmore Hinds, o vice-comissário de polícia.

Não obstante, conforme o próprio Hinds admitiu mais tarde meio sem graça, ele não pode afirmar com certeza sequer se o bandido ainda se encontra na Jamaica. “Afinal de contas, ele possui contatos em todo o mundo”.

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos