Crise das Coreias deixa a China sem saber o que fazer

Andreas Lorenz e Wieland Wagner

  • Dmitry Astakhov/EFE

    Presidente da China, Hu Jintao, junto de suas dúvidas

    Presidente da China, Hu Jintao, junto de suas dúvidas

As duas Coreias estão num perigoso impasse por conta do afundamento de um navio de guerra sul-coreano pelo norte. Devido à suspeita da existência de armas nucleares na Coreia do Norte, qualquer conflito pode rapidamente ficar muito pior. A crise apresenta um difícil dilema à China, principal aliada da Coreia do Norte e importante parceira comercial da Coreia do Sul.

O presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, 68, escolheu o museu Memorial de Guerra da Coreia como cenário para o seu discurso de sangue, suor e lágrimas. O memorial, um túmulo enorme próximo ao Ministério da Defesa em Seul, capital sulcoreana, está cheio de relíquias da Guerra da Coreias, entre o sul e o norte, um conflito sangrento que deixou 4 milhões de mortos entre 1950 e 1953.

Outra curiosidade poderá em breve ser exposta no museu: partes do naufrágio do Cheonan, um navio de guerra sulcoreano que foi partido ao meio e afundou depois de uma explosão em 26 de março no Mar Amarelo.

Mas como a peça macabra ainda não está disponível, Lee posicionou-se diante de duas fileiras de bustos de soldados heróicos para deixar claro para seu povo e para o mundo que uma nova era começou, uma era perigosa, mas também uma era em que os sul-coreanos não estarão mais dispostos a aceitar as coisas sem revidar. Lee atribuiu as mortes dos 46 marinheiros à bordo do Cheonan a um ataque de torpedo pela Coreia do Norte e anunciou que seu país suspenderia quase totalmente o comércio com seus agressores. Ele também disse que o governo irá pressionar as Nações Unidas para impor sanções contra Pyongyang, e observou que desta vez o regime da Coreia do Norte terá um “preço a pagar” pelo ataque mortal.

Chega de chantagem
A mensagem foi clara: o ataque de torpedo do norte, que normalmente seria visto como uma declaração de guerra, foi no mínimo uma provocação a mais. O sul, disse Lee, não pretende mais se mostrar impotente em relação aos ataques do norte, nem continuará a se submeter à perpétua chantagem do regime e de seu “Querido Líder” Kim Jong-il, que se considera infalível e semelhante a um deus. Se o conservador Lee fizer o que promete, todos os pequenos incidentes no Mar Amarelo ao longo da fronteira marítima entre os dois países, que não é reconhecida pelo norte, todos os gestos militares de ameaça e de testes de novos mísseis terão consequências no futuro.

A política conciliatória do “Sol Brilhante” em relação ao norte, que foi adotada pelos antecessores de Lee, Kim Dae-jung e Roh Moo-hyun chegou ao fim. Ela ajudou a proteger o regime stalinista da dinastia de Kim de um colapso incontrolável.

Mas para os norte-coreanos, apenas o anúncio de que a paciência da Coreia do Sul está terminando já constituiu uma “declaração de guerra”. A resposta veio rápido, quando Pyongyang ameaçou atirar nos alto-falantes gigantes que Lee pretendia instalar na fronteira entre os dois países. Pela primeira vez desde 2004, Seul planeja fazer propaganda falando sobre as bênçãos da democracia e do capitalismo, transmitindo-a por alto-falantes por vários quilômetros adentro do domínio dos Kim, entretendo os norte-coreanos com horas e horas de notícias sobre os crimes mais recentes de seu Querido Líder.

Em troca, Pyongyang anunciou que pretendia restringir o comércio com o sul e que consideraria fechar Kaesong, um enclave capitalista próximo à fronteira, onde cerca de 40 mil súditos do ditador Kim Jong-il fabricam calçados, roupas e outros bens de consumo baratos para as companhias sul-coreanas. Entretanto, na segunda-feira, a Coreia do Norte disse, numa mensagem entregue pelos empresários sul-coreanos, que queria manter Kaesong funcionando.

O mundo prende a respiração
As tensões chegaram ao seu maior nível em anos. No final da semana passada, Pyongyang cortou importantes “linhas quentes” com o sul, canais de comunicação criados para prevenir conflitos armados. Seul logo aumentou o nível de alerta para suas tropas e seus navios de guerra começaram a manobrar no Mar Amarelo, onde praticaram a caça a submarinos norte-coreanos e testaram bombas anti-submarino.

Mais uma vez, os coreanos fizeram com que o mundo inteiro prendesse a respiração. Os mercados financeiros globais tiveram uma visão ainda mais nervosa do Oriente longínquo, e os preços das ações caíram nas bolsas de Tóquio até Cingapura, e o won sul-coreano chegou à sua menor cotação em relação ao dólar nos últimos oito meses.

Em nenhum outro lugar da Terra os interesses conflitantes de três grandes potências – os Estados Unidos, a China e a Rússia – assim como os de gigantes econômicos como o Japão e a Coreia do Sul, colidem tão drasticamente quanto no paralelo 38 [que separa as duas Coreias]. O que torna a situação tão imprevisível é que, desde que Kim Jong-il ordenou outro teste nuclear há um ano, o medo agora é que seu Exército possua armas nucleares e possa usá-las. Além disso, Seul, uma cidade com 20 mil habitantes, fica dentro da área de alcance da artilharia norte-coreana. Um único tiro poderia detonar uma catástrofe interminável.

Na semana passada, as grandes potências observavam impotentes o aumento das tensões entre Pyongyang e Seul. “O norte e o sul estão avançando um contra o outro como dois trens no mesmo trilho”, alertou o ex-ministro de Exterior da Coreia do Sul Song Min-soon, dos democratas de oposição. Nenhum dos lados pode se desviar de sua posição sem perder o respeito. Se Lee voltar atrás, as ameaças que ele fez até agora parecerão ridículas. E se Kim enviar um pedido de desculpas pelo ataque de torpedo, como Seul está pedindo, enfraqueceria a autoridade de seu regime.

Onde Kim Jong-Il quer chegar?
Mas onde é que o governante da Coreia do Norte, que gosta que seus súditos o tratem como o “Sol do Século 21”, quer chegar? Será que seu regime quis começar uma “guerra santa” afundando o Cheonan, como Pyongyang ameaçou quando o sul atirou contra um navio de guerra norte-coreano em novembro passado? Ou – e há evidências que sustentam essa teoria – Kim, que está mal de saúde, está tentando conseguir a atenção dos EUA, para obrigar Washington a oferecer ajuda econômica e reconhecimento político ao país?

Kim, que segundo a imprensa pretende consagrar seu filho mais novo, Kim Jong-un, como herdeiro ao trono em breve, está sob pressão para oferecer aos súditos a perspectiva de condições melhores, depois de prometer a prosperidade até 2012, ano do 100º aniversário de seu pai e fundador da nação já falecido, Kim Il-sung. Mas Kim Jong-il antagonizou a pequena classe média de seu país com o fracasso da reforma da moeda no ano passado, quando obrigou as pessoas a converterem seus bens para o novo won a uma taxa de um para 100. Ele mandou um pelotão de fuzilamento executar seu chefe de planejamento e economia, que foi culpado pelo caos resultante, pela crise no fornecimento e pelos protestos de seus súditos.

Mas dessa vez, com o ataque ao Cheonan, parece que o regime da Coreia do Norte exagerou em suas arriscadas táticas de sobrevivência baseadas em ameaças e extorsão. Diferente de seus antecessores liberais, o presidente Lee da Coreia do Sul não se intimidará. O ex-executivo da Hyundai e um linha-dura que insiste, entre outras coisas, que Pyongyang abandone seu programa nuclear.

Apoio internacional
Além disso, o homem da Casa Azul, como é chamado o palácio presidencial em Seul, garantiu o apoio internacional para seu plano de isolar o norte. Só depois de uma inspeção rígida do naufrágio de Cheonan, para a qual o governo sul-coreano trouxe 24 especialistas militares dos EUA, Inglaterra, Austrália e Suécia, Lee culpou a Coreia do Norte pelo ataque.

A peça centra das provas da comissão investigativa foi uma peça de um motor de torpedo encontrada no local do acidente. A marca “Nº 1” foi encontrada dentro do motor – um rótulo tipicamente encontrado nos torpedos norte-coreanos no passado.

Agora o escritório da ONU em Seul também está interessado no relatório dos especialistas da comissão. A ONU, que ofereceu ajuda ao sul num esforço liderado pelos EUA quando a Guerra da Coreia estourou em 1950, quer examinar se a Coreia do Norte violou o acordo de cessar-fogo de 1953 com seu ataque de torpedo. Da perspectiva norte-americana, a vantagem dessa abordagem é que o governo do presidente norte-americano Barack Obama não terá que negociar diretamente com Kim por causa do afundamento do Cheonan.

A situação crítica na península coreana também pesou sobre a reunião de estratégia entre os EUA e a China em Beijing na semana passada. A secretária de Estado Hillary Clinton viajou para a capital chinesa para garantir o apoio da China a sanções mais duras contra o Irã. Mas agora as duas potências também precisam encontrar formas de prevenir uma nova guerra entre seus respectivos aliados coreanos, uma colisão que poderia reascender o conflito geopolítico de interesses entre Beijing e Washington na Coreia.

“Estamos num dilema”

Beijing quer evitar que os norte-americanos tirem vantagem da nova crise coreana para reconquistar sua influência na região, principalmente agora que Obama assegurou ao sul o seu “apoio incondicional” no conflito com a Coreia do Norte. Ao mesmo tempo, o governo de Washington poderia colocar a Coreia do Norte de volta na lista de países que apoiam o terrorismo. Além disso, Beijing teme que o Japão e a Coreia do Sul possam eventualmente seguir os passos de Kim Jong-il e adquirir armas nucleares.

 

Para os norte-americanos, entretanto, as tensões na região não são totalmente inoportunas. Durante meses, o primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama urgiu a superpotência ocidental a fechar uma base norte-americana na ilha de Okinawa. Mas depois que a crise coreana estourou, o primeiro-ministro japonês não teve alternativa a não ser abdicar humildemente de seus pedidos. Ele pediu desculpas “sinceras” aos moradores de Okinawa e disse a eles que teriam que continuar lidando com as tropas norte-americanas no futuro.

A presença norte-americana na região provavelmente explica também por que a China nem mesmo considerou condenar claramente sua aliada Coreia do Norte pelo ataque em Cheonan. Na quarta-feira passada, o vice-ministro de Exterior Zhang Zhijun explicou que o primeiro-ministro Wen Jiabao planejava fazer “consultas estratégicas” durante uma visita oficial a Seul, mas o oficial não respondeu à principal questão, de como a China pode convencer sua aliada a ter bom senso.

“Estamos num dilema. Nosso papel na península coreana é limitado, assim como nossas opções”, explicou um especialista sobre Coreia em Beijing. Por um lado, a China não quer alienar a Coreia do Sul, um importante parceiro comercial, e por outro, os comunistas de Beijing querem continuar ideologicamente fieis à Coreia do Norte. O ex-líder chinês Mao Tsé-Tung sacrificou cerca de um milhão de soldados na Guerra da Coreia, incluindo seu próprio filho. Isso é algo que os herdeiros de Mao não podem esquecer.

Preocupações com a estabilidade
Além disso, Beijing está preocupada com a estabilidade dentro de seu próprio território. Uma nova guerra poderia levar centenas de milhares de refugiados norte-coreanos à China, que divide uma fronteira de 1.400 quilômetros com a Coreia do Norte. E se a dinastia de Kim entrar em colapso, tropas norte-americanas poderiam avançar pelos rios Yalu e Tumen – uma perspectiva horrível para Beijing. Os generais do Exército de Libertação do Povo já estão pensando em declarar a Coreia do Norte como um protetorado na hipótese de uma crise – e marchar eles mesmos para o país.

As únicas pessoas que não se impressionaram muito com os exagerados esforços de propaganda das duas nações são as que vivem próximas ao paralelo 38, de ambos os lados. Na semana passada, elas simplesmente continuaram com seus afazeres cotidianos. Em Pyongyang, os súditos de Kim praticaram para o festival Arirang, enquanto mulheres-soldados fizeram exercícios de treinamento para as paradas militares planejadas para o 65º aniversário do fundador do Partido dos Trabalhadores.

A calma também prevaleceu no lado sul da linha de demarcação. Num dia ensolarado e idílico da semana passada, as coisas estavam bem tranquilas na estação de trem fronteiriça de Dorasan, construída há anos na esperança de reconciliação. Um sinal na estação indica os destinos do futuro: Seul numa direção e Pyongyang em outra. Mas não há passageiros por ali. Um soldado usando um capacete de aço estava em guarda, impedindo o acesso às plataformas.

Tradutor: Eloise De Vylder

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