O mercado negro de cães é um grande negócio na Alemanha

Michaela Schiessl

  • Fabiano Cerchirari

    Lala e Montparnasse, cães da raça Papillon

    Lala e Montparnasse, cães da raça Papillon

Atraídos por filhotes de cães de pedigree vendidos a preços mais baixos, os alemães que gostam de cachorros estão recorrendo à Europa Oriental na busca do seu animal de estimação. Mas frequentemente esses cães baratos vêm com doenças e problemas comportamentais, e às vezes morrem apenas alguns dias após chegarem no novo lar. As organizações de proteção dos animais estão tentando acabar com esse comércio.

A van Volkswagen de cor cinza-prata está parada um pouco distante da entrada do estacionamento, perto do movimentado mercado na cidade polonesa de Slubice. O motorista abre a porta traseira do veículo. A sua carga requer ar fresco. E ela está ganindo.

Dentro da van estão caixas de transporte cheias de cães. Cachorrinhos de uma ninhada da raça yorkshire terrier esfregam-se uns nos outros, jovens cães de guarda olham por entre as grades das caixas de transporte e dois filhotes da raça husky siberiano estão sentados sobre as suas próprias fezes.

O motorista é um polonês que não fala muito bem o alemão. Ou pelo menos ele não fala muito alemão quando os seus clientes lhe perguntam a respeito da idade, origem e vacinação da sua carga. Em tais momentos ele dá de ombros e tira do veículo um pacote de passaportes de animais, certificados que são exigidos na União Europeia para que animais de estimação possam cruzar as fronteiras entre os países. Os documentos são obviamente falsificados.

Não obstante, muitos clientes que cruzam a fronteira a partir da cidade alemã de Frankfurt an der Oder para a vizinha cidade polonesa de Slubice buscando uma pechincha canina, preferem ignorar tudo isso. Os filhotes são simplesmente muito engraçadinhos, a simpatia que os clientes têm por criaturas engaioladas é muito grande e o preço é demasiadamente tentador. Os cães de pedigree de criadores confiáveis podem custar centenas de euros, mas aqui pode-se comprar um cão de uma raça popular por preços que variam de 35 euros (US$ 42, R$ 78) a 50 euros (US$ 60, R$ 111).

O mercado negro de filhotes de cães vale milhões de euros

Porém, quem aceitar tal oferta não será apenas o proprietário orgulhoso de um novo cachorro, mas também uma vítima da máfia europeia oriental de filhotes de cães. Na Polônia, na Hungria, na Romênia e na Ucrânia, cães estão sendo produzidos em grande escala para o mercado europeu ocidental – e em condições bastante precárias. Alimentadas com lixo e amontoadas em canis sujos, as cadelas têm que parir duas vezes ao ano até ficarem inférteis. Os filhotes são levados para o mercado muito prematuramente e muitas vezes têm apenas quatro semanas de idade quando deixam a companhia das suas mães. Portanto, não é de se admirar que eles tenham sistemas imunológicos fracos e que às vezes apresentem desordens de comportamento.

“O comércio de filhotes de cães transformou-se em um negócio no valor de bilhões de euros”, afirma Birgitt Thiesmann, da instituição internacional de proteção aos animais Four Paws, que possui nove escritórios na Europa. Durante anos, os ativistas que defendem os animais têm observado o crescimento do mercado negro de cães importados. A Internet acelerou esse comércio. No ciberespaço, os cães são apresentados como se fossem de propriedade de criadores responsáveis.

O problema é tão grande que várias organizações de proteção dos animais – a Proteção Europeia dos Animais e da Natureza (ETN), a TASSO e a Liga Contra o Abuso de Animais – fizeram de 2010 o ano “contra o comércio duvidoso de filhotes de cães”. Os grupos desejam descobrir exatamente o que ocorre dentro desse negócio e, desta forma, reduzir a demanda por parte dos cinófilos alemães em busca de pechinchas.

Compre o carro, leve a diarreia de graça

O sofrimento dos animais é considerável. Devido aos altos custos envolvidos, eles não são nem vermifugados nem vacinados. Os animais são transportados ilegalmente através das fronteiras em porta-malas de carros sem a documentação exigida pela União Europeia. Eles não têm os passaportes de animais da União Europeia, os certificados de vacinação e tampouco os implantes de microchips para identificação.

Quando um caso de transporte ilegal de cães é descoberto, as punições mais severas que podem ser aplicadas são confisco e multa, já que os animais estão atualmente incluídos na legislação referente ao transporte de objetos. Além disso, os inspetores muitas vezes fazem vistas grossas para o problema. Os abrigos que deveriam receber os animais confiscados não seriam capazes de dar conta da enxurrada de criaturas sem um lar.

Ninguém tem qualquer interesse real em acabar com esse negócio lucrativo. As estimativas sugerem que os alemães gastam cerca de cinco bilhões de euros (R$ 11,1 bilhões) por ano com os seus cães de estimação. Mas os alemães que compram cães ilegais muitas vezes acabam descobrindo que a aparente pechincha acabará saindo bem cara quando levam os seus novos animaizinhos para casa e estes imediatamente vomitam no carpete. Cães ilegalmente importados são frequentemente portadores de uma gama de problemas de saúde, incluindo diarreia, cinomose, parvovirose (um vírus extremamente infeccioso que provoca vômitos e falência cardiovascular em filhotes), tosse de canil (uma espécie de bronquite canina altamente contagiosa) e inflamação do fígado.

O dono acaba tendo que ver o novo cãozinho morrer

Os resultados podem ser traumáticos. Sandra Meier, da região de Danndorf, no Estado alemão da Baixa Saxônia, foi obrigada a ver a sua cadelinha da raça pug, Maja, passar por uma agonia terrível até a sua morte, após vários dias de sofrimento. Sandra Meier descobriu a cadela preta em um site comercial alemão similar ao eBay. O vendedor agiu como se fosse um criador, e como o preço de 590 euros (R$ 1.310) parecia correto, ela não suspeitou de nada. Ela tampouco teve qualquer suspeita quando o vendedor sugeriu que eles se encontrassem na estação de trem porque o seu endereço – segundo disse ele – não aparecia nos sistemas de navegação de GPS dos veículos.

Quando os dois se encontraram, ele retirou a cadela de uma caixa, pegou o dinheiro e foi embora rapidamente. Ele não entregou a Sandra Meier nem um recibo nem um certificado de vacinação. Mais tarde, Sandra descobriu que o homem lhe havia fornecido um nome falso e que o número de telefone celular que ele deu a ela havia sido cancelado. Ela acabou descobrindo que o vendedor era conhecido por vender cães de diversas raças vindos da vizinha Polônia.

Assim que chegou em casa, a nova cadelinha de Sandra Meier foi ficando fraca em um período de algumas horas, e apresentou diarreia e vômitos. Infelizmente, a cadela não pôde ser salva. Ela morreu quatro dias depois.

Sandra Meier decidiu procurar um outro cachorro, desta vez na própria região. Ela viu um golden retriever anunciado em um jornal, e que pertencia, aparentemente, a um criador. Ela comprou o cachorro, vacinado e vermifugado, por 990 euros (R$ 2.200). Mas desta vez ela exigiu também os documentos do cão. Isso lhe custou mais 220 euros (R$ 490). E quando os documentos relativos ao pedigree chegaram, duas semanas depois, Meier achou que eles fossem uma piada de mau gosto: os documentos estavam decorados com ilustrações de cachorros cômicas e kitsch, os nomes dos pais do filhote eram fictícios e a associação que emitiu os papeis não existia.

Necessidade de cautela

“Nós confirmamos que cada vez mais alemães estão sendo enganados no comércio de filhotes de cães”, explica Birgitt Thiesmann, da Four Paws. Comerciantes e indivíduos em busca de dinheiro estão indo à Polônia ou a outro mercado de cachorros na cidade húngara de Monor. Lá eles acumulam um estoque de filhotes que são enviados à Alemanha. Estes indivíduos fingem ser criadores genuínos. A única forma de impedir o comércio ilegal de cães seria implementar medidas de controle mais rígidas e punições mais duras. Mas até o momento não parece haver vontade política na União Europeia para fazer com que isso ocorra.

Atualmente, a única coisa que os indivíduos que gostam de cães podem fazer ao comprarem um filhote é exercerem a cautela. As organizações de proteção aos animais recomendam que o comprador visite um filhote várias vezes antes que este deixe a sua mãe, e que insista em ver os pais do animal. Além disso, todo criador que ofereça raças diferentes deve ser considerado suspeito. E os compradores devem evitar a todo custo comprar um filhote apenas porque sentem pena dele, orienta Thiesmann: “Quem adquirir um desses cães movido pela piedade, estará apenas estimulando esse tipo de comércio”.

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