A vida cotidiana no Irã, um ano após a rebelião contra a eleição de Ahmadinejad

  • Thibault Camus/AP - 22.jun.2009

    Manifestantes exibem imagens dos protestes em Teerã e denunciam a repressão do governo do país contra opositores ao regime do presidente Ahmadinejad, em Teerã

    Manifestantes exibem imagens dos protestes em Teerã e denunciam a repressão do governo do país contra opositores ao regime do presidente Ahmadinejad, em Teerã

O próximo sábado marcará o primeiro aniversário da contestada eleição presidencial iraniana, que provocou manifestações de rua que culminaram dezenas de mortes e incontáveis detenções. Como está o clima hoje no país? Cinco iranianos descrevem as suas vidas no período de uma semana, em maio último

Sexta-feira, 21 de maio de 2010

Hoje, o site da oposição Rah-e Sabz (“Caminho Verde”) cita as palavras do clérigo Mehdi Karroubi: “O povo iraniano foi humilhado. As mais terríveis pressões psicológicas foram exercidas contra todas as classes que integram a sociedade, que atualmente não tem nenhuma esperança de um futuro melhor”.

Em uma declaração, a autoridade responsável pelo meio ambiente minimiza um relatório sobre a poluição atmosférica. “A concentração de partículas na atmosférica não está em um nível drástico”, diz ele.

Mohzen Sahabifar, o comerciante. A nossa sexta-feira não é um dia de descanso para mim. Na verdade, ela não é melhor que os outros dias. Há hoje novamente uma nuvem de poluição sobre Teerã, e a população, conforme ocorre frequentemente quando isso acontece, está de mau humor. A caminho da minha loja, basta que alguém fale uma palavra para que todos comecem a reclamar. Eles reclamam dos aumentos dos preços, da má administração e das mentiras dos políticos.

Relembre os protestos em Teerã em 2009

  • AFP/OLIVIER LABAN-MATTEI

    Simpatizantes do candidato oposicionista Mir Hossein Mousavi enfrenta policial durante protesto contra a reeleição do presidente Ahmadinejad, em Teerã (Irã)

  • AFP/ALI SAFARI

    Ônibus incendiado durante protesto contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad

  • Manifestante ferido é carregado durante marcha de protesto contra o resultado das eleições pesidenciais iranianas, supostamente fraudadas por Ahmadinejad

Quando abro a porta de aço da minha loja, vejo as prateleiras com a metade do espaço vazio. Eu não tenho dinheiro suficiente para investir adequadamente em mercadorias. Além do mais, a inflação muito alta está empurrando os preços no atacado para níveis que tornam impossível a aquisição de mercadorias. O preço de um produto de limpeza doméstica, por exemplo, aumentou 16% no intervalo de tempo entre duas encomendas.

Atualmente, eu vejo na minha loja quase tantos mendicantes quanto clientes. Eles me explicam como a sua situação é terrível. Eu respondo apontando para a minha caixa registradora, que quase não tem dinheiro nenhum, e lhes digo que qualquer dia desses eu poderei acabar me juntando a eles, caso a nossa economia continue em queda.

O aluguel da minha loja, que consiste de pouco mais de um aposento, custa o equivalente a US$ 250 (208 euros, R$ 453). Eu não conto com aquecimento no inverno nem com ar condicionado no verão. Mas há ratos na frente da minha porta e eu tenho que pegar o metrô para encontrar um banheiro público. E isso ocorre em um país no qual há pessoa que se tornam bilionárias da noite para o dia. Nas ruas o povo espera em longas filas para entrar nos supermercados.

As pessoas praticamente lutam entre si pelo leite que está à venda. Como é que nós sobreviveremos agora que o governo está cortando drasticamente os subsídios?

Nasrin Sotoudeh, a ativista de direitos humanos. Finalmente, uma sexta-feira em que eu não tenho que ir ao escritório. Tais feriados tornaram-se raros depois dos protestos contra a eleição no ano passado. Mas eu também não consigo tirar certas imagens da minha cabeça quando estou em casa. Eu enxergo constantemente Bahare Hedayat e Milad Assadi na minha frente. Dois dias atrás, dois estudantes me saudaram alegremente quando nós nos encontramos no tribunal revolucionário. Eu tive que ir lá pegar uma coisa, e os dois estavam indo ao julgamento para o qual foram intimados. Eles foram condenados pouco tempo depois. Bahare pegou nove anos e meio de prisão e o seu colega de manifestações, Milad, pegou sete.

O meu marido fica com as crianças à noite, e eu vou a um show de música com uma amiga que mora nos Estados Unidos há vários anos. A cantora interpreta canções modernas que falam de liberdade e democracia. E também do preço que nós pagamos por essas coisas. A minha amiga está surpresa por constatar que algo desse tipo é permitido aqui. Eu falo entusiasmadamente sobre liberdade de expressão. Mas, conforme eu explico a ela, o fato triste é que com frequência não há liberdade após a expressão.

Manijeh Hekmat, o cineasta. Esta sexta-feira é o terceiro dia consecutivo em que eu não sou torturado pelos meus pensamentos. Eu me levanto e, do meu apartamento no oitavo andar, olho para o céu azul. Eu consigo sentir o cheiro do mar. Eu respiro o ar fresco. Estou em Cannes, no festival de cinema, e mal posso esperar para me encontrar de novo com os meus amigos e colegas de todo o mundo. Cannes é o oposto de Teerã: calma, amigável, serena, colorida, cosmopolita. Mas neste ano eu não consigo, nem mesmo aqui, sair do meu país, o Irã. Não importa para onde eu vá, as pessoas me perguntam sobre o meu colega, o cineasta Jafar Panahi. Ele foi preso cerca de três meses atrás, em mais um exemplo das ações para intimidar o povo. Panahi deveria fazer parte do júri aqui em Cannes. Os outros membros do júri deixam propositalmente a cadeira dele vazia.

O meu país está dividido, e eu percebo isso até mesmo estando aqui. O cinema iraniano está representado em dois estandes diferentes. Nós, os cineastas independentes, ficamos em um deles, e os nossos congêneres que pertencem às instituições governamentais ficam em um outro. Eu me aproximo deles, e nós conversamos. Todos sentem simpatia por Panahi. A atriz Juliette Binoche chora. Eu me esforço para conter as minhas próprias lágrimas. Mas nenhum dos iranianos ousa participar das conferências em solidariedade ao cineasta preso. Não desejamos dar ao governo um motivo para que este tome medidas contra nós.

Nós estamos tão preocupados que chegamos até a ter medo de cumprimentar abertamente colegas como Mohsen Makhmalbaf e Bahman Ghobadi, dois cineastas iranianos que atualmente vivem no exterior. Nós trabalhamos com eles durante décadas em Teerã. Ambos estão associados ao Movimento Verde, que gira em torno de Hossein Mousavi.

Mais imagens dos protestos em Teerã (2009)

  • AP
  • AP

    Simpatizante do candidato oposicionista Mir Hossein Mousavi atira pedra contra as forças de segurança iranianas durante protesto contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad

Eu tenho sede de liberdade artística, da liberdade que presencio em Cannes. Os franceses estão exibindo aqui filmes que falam do passado colonial da Argélia. Nós em Teerã estamos muito longe de manifestarmos esse tipo de autocrítica. No nosso país, o comissário de cinema do governo está de prontidão e afirma que o meu filme “Prisão de Mulheres”, produzido na época do presidente Mohammad Khatami, retrata as coisas de forma negativa. Para pessoas desse tipo, a menor crítica equivale a uma rebelião. A minha última produção, uma comédia, foi censurada 40 vezes.

“Eu tenho vergonha de olhar a minha filha nos olhos”

Sábado, 22 de maio de 2010

Uma manchete no jornal reformista “Aftab-e-Yazd” diz: “Pobreza obriga um pai a matar a mulher, o filho e a se suicidar”. O jornal critica a má administração da economia pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Com o desemprego a 22%, e em algumas regiões chegando a até 45%, o índice de suicídios no Irã está aumentando continuamente.

Uma manchete no jornal “Ebtekar” tem o seguinte título: “O Irã é o país onde mais se usa droga no Mundo”. O jornal cita as palavras de uma autoridade graduada: “Como o Irã transformou-se em um território de trânsito de drogas, e como o país possui uma população jovem, nós estamos mais expostos a esse perigo do que outros países”.

Mohammad Mostafaei, o advogado. A minha semana tem início diante do tribunal revolucionário. Eu tenho que defender uma mulher que é acusada de praticar moharebeh, ou a “guerra contra Deus”. Isso é um eufemismo utilizado pelos nossos promotores para descrever as atividades que envolvem críticas ao governo. Quem for considerado culpado de praticar a moharebeh pode ser condenado à morte. A minha cliente treme dos pés à cabeça ao ser trazida para o tribunal. O juiz parece ser suficientemente gentil, e ele procura acalmá-la. “Ninguém deve ter medo de um juiz”, afirma ele. Mas Sainab tem todos os motivos para ter medo. O seu marido e o seu primo foram condenados à morte pela mesma 15ª Câmara deste tribunal.

O “crime” deles consistiu em manter contato com um membro de um grupo monarquista. Sainab supostamente conhecia as atividades do seu marido. Isso também pode ser um motivo suficiente para que o indivíduo seja condenado à morte.

As mulheres trazidas para o tribunal revolucionário que têm uma história de militância política não são as únicas que precisam temer pelas suas vidas. Às vezes, tudo o que é necessário para que elas sejam condenadas à morte é que um homem as acuse de cometer adultério. Quando isso acontece, elas podem ser indiciadas, e o julgamento pode terminar com uma condenação à morte por lapidação. Em dez ocasiões, eu consegui salvar da morte rés que teriam sido executadas dessa maneira.

Mohzen Sahabifar, o comerciante. Hoje é o primeiro dia do mês do Khordad. Segundo o nosso calendário, a data tem início do terceiro mês do ano. Eu preciso pagar o meu aluguel. Venho economizando dinheiro há dez dias, mas ainda me falta o equivalente a US$ 64 (R$ 116). Provavelmente terei que pedir dinheiro emprestado a um parente. Ele trabalha como professor em uma escola de segundo grau, tem mais de 40 anos de idade e ainda é solteiro, porque não tem condições de sustentar uma família. Ele vai me ajudar. Mas o proprietário do imóvel cancelará o meu contrato de aluguel se eu estiver lhe devendo qualquer coisa. Eu alugo a loja há apenas seis meses.

Antigamente eu ganhava um salário decente trabalhando como entregador em uma pequena empresa de transportes. Mas o meu veículo foi roubado, o que acabou com o meu emprego. Também tive mercadorias roubadas na minha loja. Duas mulheres vieram hoje aqui pedindo creme dental. Foi só depois que elas foram embora que eu percebi que as duas tinham roubado escovas de dente, que levaram escondidas sob as suas túnicas.

Nós só conseguimos sobreviver graças à nossa poupança e ao emprego da minha mulher. Laila trabalha em um banco, onde ganha o equivalente a US$ 300 (R$ 543) por mês. Nós pagamos US$ 450 (R$ 815) de aluguel pelo nosso apartamento de três quartos em um bairro modesto. E além disso pagamos US$ 50 (R$ 91) de água, luz e telefone. A educação da nossa filha, Roja, custa outros US$ 100 (R$ 181), ainda que ela estude em uma escola do governo. E além disso precisamos de mais US$ 300 (R$ 543) para cobrir os custos com alimentação, bebidas e roupas. A minha mulher consegue, de forma impressionante, manter a casa com pouquíssimo dinheiro. E eu sinto vergonha de olhar a minha filha nos olhos, porque há muito tempo ela não ganha um presente novo.

Domingo, 23 de maio de 2010

Para o 13º aniversário da eleição de Mohammad Khatami, cognominado o presidente da reforma, a maioria dos jornais fala sobre a divisão política no país. Uma manchete no jornal conservador de linha dura “Resalat” diz: “Os líderes do movimento de reforma precisam ser banidos para sempre das instituições de poder”. O jornal qualifica o movimento de radical e afirma que ele perdeu o rumo.

O jornal moderado “Mardomsalari” defende a eleição de Khatami. Com a sua eleição, “a nação deu início à transformação do desejo histórico do povo iraniano” rumo à democracia e à liberdade. Esta data importante jamais será esquecida”, assegura o jornal.

Ana Ghazwahanian, a artista. Eu trabalho frequentemente com árvores mortas encontradas à beira de estradas. Elas são a matéria prima para as minhas esculturas. A imagem de uma mulher usando roupas para trabalho pesado, portando uma serra e uma furadeira, sempre atrai as atenções. Mas eu não tive nenhum problema com a polícia da moralidade, que nos obriga a obedecer a “Ordem Islâmica”.

Eu saio de casa de manhã bem cedo para desenhar três árvores na Praça Tajrish. Como sempre, eu me visto de forma bem modesta quando vou trabalhar. No entanto, uma agente feminina da polícia da moralidade me diz que o meu casaco está muito aberto na parte de baixo, ainda que eu o tenha abotoado até o fim. Ela me oferece uma agulha para que eu possa fechá-lo um pouco mais. Eu não quero problemas, de forma que obedeço.

“Aqui, ninguém fala mais abertamente ao telefone”

Segunda-feira, 24 de maio de 2010

“Detenção, greve de fome: situação terrível para os prisioneiros”, diz uma manchete do jornal “Rah-e Sabz”. Para o aniversário da eleição presidencial, o website reformista traz notícias sobre às condições precárias em que vivem os jornalistas, políticos e estudantes atualmente presos.

O jornal moderado “Arman” cita o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, que criticou o poder econômico da Guarda Revolucionária Iraniana.

Mohammad Mostafaei, o advogado. Hoje eu estou passando a maior parte do meu tempo aceitando novos clientes. Um dos caso diz respeito a uma disputa comum em torno de uma herança, e em um outro processo um jovem está sendo acusado de ter enganado algumas pessoas. Além disso, os ativistas do Movimento Verde entraram em contato comigo, conforme eles vêm fazendo há algum tempo. Ainda que tenham se passado meses desde a convulsão social de âmbito nacional, ainda há participantes sendo presos. E ainda há pequenas manifestações e embates com as forças de segurança. A maioria das pessoas que me pedem apoio é jovem. Kiarash, que está sentado hoje na minha frente, será submetido a um julgamento. Eles o acusam de fazer propaganda contra a Ordem Islâmica e de ameaçar a segurança do país. Ele poderá ser condenado a até seis anos de prisão por isso.

Iranianos voltam a protestar contra reeleição de Ahmadinejad no Irã

Ana Ghazwahanian, a artista. Antes de começar a trabalhar em um restaurante, eu dirijo até a prefeitura da cidade. Eu dei vários telefonemas para conseguir ser recebida. Eu quero saber quantas árvores estão mortas e com quantas eu posso trabalhar. Mas a autoridade relevante não está lá. Eu falo com o seu substituto, que dá início a uma longa discussão sobre arte e filosofia. Finalmente, ele designa três árvores para mim. Eu ainda não sei o que vou fazer com elas.

Da última vez, eu tive que lutar para obter a permissão para esculpir uma coruja a partir de um tronco de árvore. As autoridades me disseram que a coruja é um símbolo de azar. Foi só depois de eu lhes assegurar que faria uma “coruja da sorte” que obtive a permissão.

Terça, 25 de maio de 2010

O jornal conservador “Alef” cita uma declaração do ministro das Comunicações: “Uma Internet de velocidade mais rápida é possível, mas atualmente ela não está instalada”. A atual capacidade para os usuários privados é suficiente; para as universidades, os bancos e os centros comerciais, não há restrições.

O jornal estatal conservador “Jam-e-Jam” cita as palavras do líder religioso, aiatolá Ali Khamenei: “Os inimigos do povo iraniano serão derrotados”.

O “Resalat” apoia a mensagem do líder religioso: “Os Estados Unidos só têm duas opções: ou cooperam nesta disputa em torno da questão nuclear, ou eles ficarão isolados no plano internacional”.

Nasrin Sotoudeh, a ativista dos direitos humanos. Eu estou praguejando porque mais uma vez a minha Internet não está funcionando apropriadamente. Eu não consigo mais abrir os meus e-mails. Será que é um problema de software? Ou isso seria mais uma vez uma obra do nosso serviço de inteligência? Todo mundo que faz o meu tipo de trabalho pode esperar qualquer coisa no nosso país. De toda forma, é estranho que eu venha enfrentando esses problemas há algum tempo – e eu não sou a única a reclamar disso.

Me consola um pouco saber que os figurões atualmente também estão tendo problemas atualmente. Estou boquiaberta por ver a filha do nosso ex-presidente Rafsanjani nos corredores do tribunal revolucionário. Há um ano, quem teria imaginado que Faezeh Rafsanjani teria que se apresentar pessoalmente no tribunal para responder a acusações de crimes políticos? Por que ela está aqui? Será que Faezeh está sentindo agora os efeitos do fato de o pai dela, que ainda é poderoso, não ter se curvado à liderança do país após a eleição?

Em frente ao tribunal revolucionário, eu me deparo com um jovem colega que está lá com o seu cliente. Eu percebo o quanto a nossa clientela mudou. O cliente do meu colega é um jovem bem vestido e arrumado. Ele carrega uma bela mala, que trouxe de casa para a sua temporada na prisão. Ele parece modesto, quase ingênuo, e está bastante alinhado ao começar essa sua difícil jornada.

Hoje em dia os corredores do tribunal estão repletos de pessoas de alto nível de escolaridade, oriundas de boas famílias. Eu percebo a injustiça que é cometida contra muita gente, de cuja inocência eu estou profundamente convencida.

Quarta-feira, 26 de maio de 2010

O jornal “Ebtekar” dá destaque à declaração do chefe de polícia de Teerã: “Toda manifestação não autorizada no aniversário da eleição presidencial será tratada com severidade”.

Nasrin Sotoudeh, a ativista de direitos humanos. A irmã e o irmão da minha colega, Shirin Ebadi, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz, me ligaram hoje. Ebadi é uma das vozes mais proeminentes que criticam o governo. Ela está no exterior desde a eleição de junho de 2009. Se ela retornasse, provavelmente seria assediada, e possivelmente até presa. Os seus irmãos querem se encontrar comigo, e eles dizem que o assunto é urgente.

Aqui, ninguém fala mais abertamente ao telefone. O serviço de inteligência está constantemente buscando informações a respeito de críticos e reformistas, e eu tenho certeza de que eles grampearam a minha linha telefônica. Certa vez eles bloquearam o meu telefone celular durante 40 dias, após eu ter conversado com um jornalista estrangeiro. No Irã, a quinta-feira é mais ou menos como o sábado no Ocidente, e eu quero me dedicar aos meus filhos amanhã, para uma mudança de ritmo. Mesmo assim, eu marquei uma reunião com a irmã e o irmão de Ebadi. 

“Por que as coisas chegaram a este ponto?”

Quinta-feira, 27 de maio de 2010

O chefe do Departamento de Estatística anuncia que dez milhões dos 72 milhões de habitantes do Irã vivem abaixo da “linha de pobreza absoluta” - o que significa viver com o equivalente a 500 euros (US$ 600, R$ 1.090) por mês para sustentar uma família de seis pessoas –, e que 30 milhões de iranianos vivem abaixo da linha de pobreza relativa (800 euros, ou R$ 1.750 por mês).

O website Rah-e Sabz cita a declaração do secretário-geral do recém-banido partido reformista Frente de Participação Iraniana Islâmica: “A Revolução Verde vive”. Essas são as palavras finais de Mohsen Mirdamadi, 55 – um organizador da tomada da Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em 1979 – antes de ser levado para a infame Prisão Evin, para cumprir a sua sentença. Devido a preocupações relativas à segurança nacional, o governo condenou Mirdamadi a seis anos de prisão, e cassou os seus direitos políticos por uma década, após os protestos de 2009. 

Ana Ghazwahanian, a artista. Eu faço modelos rígidos em cartolina dos meus futuros trabalhos artísticos. Depois disso eu levo os modelos para o nosso restaurante para ver como os funcionários e clientes reagem a eles. Um dos modelos mostra um nó, que é algo que tem um significado especial na nossa sociedade. O nosso cozinheiro Rashid me pergunta se este nó algum dia será afrouxado. Um outro modelo mostra um homem usando um capacete gigante. Ele não tem orelhas nem olhos. Ele usa uma armadura pesada. Um homem mais velho pergunta: Hoje em dia você enxerga alguma coisa além de armaduras? O velho não percebe como me deixa feliz. Será que eu estou sendo realmente entendida?

Mais tarde, eu deixo os meus modelos na prefeitura da cidade. O meu contato lá gosta do nó. Será que ele entendeu o significado da minha peça? Eu fico me perguntando se ele aprovará os meus modelos.

Mohzen Sahabifar, o comerciante. O telefone toca no final da tarde. É a minha filha, Roja. Para ela, o fim de semana já começou. Roja deseja saber se eu finalmente vou ao parque com ela hoje. “É claro que vou”, prometo eu. Mas assim que desligo o telefone, percebo que, mais uma vez, isto não acontecerá. E também não acontecerá amanhã, porque eu tenho que ficar na loja para vender as minhas mercadorias. Eu não tenho como entrar em contato com Roja para lhe dizer isso. A companhia telefônica bloqueou as chamadas a partir do meu aparelho. 

Mohammad Mostafaei, o advogado. Eu escrevo para o promotor público de Teerã. Exijo dele que me explique o motivo de uma ordem oficial que me proíbe de deixar o país. Eu só fiquei sabendo disso no aeroporto, quando ia viajar para a Ásia no inverno. Eu simplesmente tinha que me afastar um pouco do estresse. Eu já tinha passado pelo controle de passaportes quando três homens me barraram. Aquilo representou o fim da minha viagem. Eu não espero receber uma resposta ao meu pedido. Ser impedido de deixar o país não é a primeira punição que recebo devido ao meu trabalho como advogado. No ano passado eu fui detido durante vários dias e fui interrogado a respeito das minhas atividades de direitos humanos. 

Manijeh Hekmat, o diretor. Panahi foi libertado da prisão na terça-feira. O Festival de Cannes acabou. Eu ainda tenho alguns dias livres antes do meu voo de volta a Teerã, mas não consigo de fato aproveitá-los. Agora eu estou ainda mais preocupado com a maneira como as coisas continuarão no meu país, com o movimento de oposição. Fico magoado ao ver as pessoas aqui sacudindo a cabeça em desaprovação ao se referirem ao que está acontecendo no Irã. Eu amo o meu país.

O Movimento Verde pediu que sejam realizadas manifestações no aniversário da eleição. Naquela época as pessoas estavam cheias de alegria e esperança. Eu jamais teria imaginado que aquela euforia acabaria se transformando em amargor. Talvez eu devesse fazer um filme sobre os acontecimentos do ano passado. Sem censura, qualquer dia desses. 

Nasrin Sotoudeh, a ativista dos direitos humanos. A irmã e o irmão de Ebadi vieram me ver. Eles foram intimados repetidas vezes pelos tribunais e eu tive que responder às perguntas das autoridades a respeito dos contatos deles com Shirin. O tom das audiências foi duro, e eles mencionaram assédios. A irmã de Shirin, Nushin, está particularmente tensa. Ela já ficou presa 20 dias sem qualquer justificativa legal. O objetivo é silenciar Shirin no exterior. Mas ambas são mulheres fortes, e elas não desistirão. Eu garanto a Nushin e ao seu irmão que estou do lado deles.

Tradutor: UOL

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