Empresas alemãs temem que novas sanções contra o Irã coíbam os negócios

Julia Kimmerle

Nesta semana, o Conselho de Segurança da ONU impôs novas sanções contra o Irã visando aumentar a pressão sobre o país para abandonar seu programa nuclear. Como um dos maiores parceiros comerciais do Irã, as empresas alemãs provavelmente sentirão a dor. Muitas, entretanto, já estavam ocupadas se preparando para o inevitável.

Na quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU votou a favor da Resolução 1929, com uma maioria de 12 entre 15 votos. A resolução representa a quarta rodada de sanções visando forçar o Irã a desistir de seu programa nuclear. Segundo a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, estas são as sanções internacionais mais importantes já impostas contra Teerã.

As empresas alemãs que têm negócios com o Irã também terão que se conformar com as novas sanções. As últimas 18 páginas da resolução fornecem uma lista indicando com quem as empresas podem continuar fazendo negócios e com quem não podem.

Até hoje, os negócios entre as empresas alemãs e o Irã eram bons, apesar da crescente disputa nuclear que já dura anos. Os negócios têm sido particularmente positivos para a Alemanha: no ano passado, as empresas alemãs exportaram bens no valor aproximado de 3,7 bilhões de euros para a República Islâmica. As importações iranianas pela Alemanha, por sua vez, somaram apenas 500 milhões de euros.

Resistência às sanções

Apesar do baixo valor total das exportações para a Alemanha, o país europeu é na verdade muito importante para a economia iraniana: depois da China, a Alemanha é o segundo mercado mais importante para os bens iranianos.

Na verdade, as boas relações comerciais são o motivo central para os esforços dos políticos para limitar o comércio com o Irã terem sido parcialmente, ou completamente, fracassados até agora. Até mesmo as exigências da chanceler alemã Angela Merkel de sanções mais duras não ajudaram.

Logo, que tipo de efeito esta nova resolução poderia ter sobre as empresas alemãs? A proibição de venda de armas não tem nenhum impacto sobre a Alemanha. Mais importantes são os apêndices da Resolução 1929. O Conselho de Segurança da ONU lutou amargamente por eles. Eles contêm uma lista negra de empresas com as quais os países que apoiam as sanções estão proibidos de realizar negócios. Quarenta empresas iranianas e três empresas de transporte marítimo estão na lista, assim como um indivíduo.

Lista negra 

As empresas mais importantes são as que estão no chamado Anexo 2 da resolução, diz Klaus Friedrich, um especialista em comércio exterior da Federação Alemã de Engenharia (VDMA), que representa cerca de 3 mil empresas no setor de engenharia, a maior organização do gênero na Europa. “A lista negra de empresas iranianas afetará vários grandes projetos no Irã –e portanto a exportação de bens de capital em todo o mundo– provavelmente totalizando vários milhões de euros”, diz Friedrich. 

Mais de uma dúzia de empresas foi parar na lista negra por serem controladas pela Guarda Revolucionária Islâmica, uma força militar de elite que apoia o regime iraniano e reprime qualquer dissensão. Os representantes da Guarda Revolucionária, também conhecida como Pasdaran, ocupam postos importantes nas forças armadas, na política e nos negócios.

Por este motivo, a lista negra também inclui a construtora Khatam al-Anbiya, que é conhecida como o coração do império Pasdaran. Por meio de uma rede bem desenvolvida, a empresa é ativa dentro de inúmeras outras empresas iranianas. Nenhum grande projeto de construção tem andamento no Irã sem algum tipo de envolvimento da Khatam al-Anbiya. O fato da ONU ter conseguido fazer com que a China concordasse em impor sanções aos negócios com esta empresa em particular é considerado nada menos que espetacular por parte das pessoas familiarizadas com o campo.

Retirada 

Anton Börner, o presidente da Federação Alemã para o Comércio Atacadista e de Exportações (BGA), não dá muita atenção à lista. “Essas sanções não causarão muito impacto no Irã”, ele diz. Na opinião dele, a perda do Irã como parceiro comercial será apenas temporariamente dolorosa para as empresas alemãs. Dado que a maioria das empresas já se ajustou a lidar com a situação política incerta no Irã, a resolução dificilmente representará um problema sério para elas. “Essas resoluções não saíram do nada”, argumenta Börner.

Na verdade, as empresas alemãs já vinham se retirando, passo a passo, do mercado iraniano nos últimos meses. Em janeiro, a multinacional alemã de engenharia Siemens anunciou que não mais aceitaria novos pedidos do Irã. As gigantes de seguro alemãs Allianz e Munich Re fizeram o mesmo. A fabricante de automóveis Daimler quer vender seus ativos no Irã e se desfiliou da Câmara da Indústria e Comércio Alemã-Iraniana.

Os membros da indústria química, que representa o segundo grupo mais importante de exportadores alemães para o Irã, também estão suspendendo novos pedidos da República Islâmica. O Linde Group, um das maiores firmas do mundo de engenharia e gases industriais, com sede em Munique, disse que apenas continuará atendendo os contratos atuais ou fornecendo peças sobressalentes.

Opinião de especialista

Enquanto isso, a gigante química e farmacêutica Bayer não sente que as sanções a afetarão. Segundo um porta-voz da empresa, a Bayer entrega principalmente produtos que são usados no dia-a-dia dos iranianos, como medicamentos, sementes e produtos de espuma utilizados em colchões e solados de calçados. Seus negócios lá não serão afetados.

O autor alemão e cientista político Matthias Küntzel, um especialista nas relações alemãs-iranianas, considera a retirada em ordem das empresas alemãs do Irã como sendo um importante sinal. Todavia, a pressão política deve ser aumentada, ele argumenta. Empresas alemãs menores ainda estão dispostas a preencher o vácuo deixado pelas empresas maiores. “São principalmente empresas de pequeno e médio porte que têm lucrado com a retirada voluntária”, ele aponta.

 As novas sanções poderiam atingir as empresas menores de forma particularmente dura, especialmente aquelas envolvidas em engenharia e construção. As principais exportações da Alemanha para o Irã são equipamentos pesados e fábricas construídas por empresas alemãs, uma atividade no valor de mais de 1,2 bilhão de euros.

 Michael Tockuss, o chefe da Câmara da Indústria e Comércio Alemã-Iraniana em Hamburgo, acredita que muitas empresas alemãs, independente do setor, precisarão realizar pesquisas intensas nos arquivos de seus clientes. “Isso exigirá um esforço significativo”, ele conclui.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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