Plantação ilegal de maconha é negócio pujante na Alemanha

Marcel Rosenbach

As plantações de maconha na Alemanha já estão tirando do mercado as importações do Marrocos e do Afeganistão. A tendência começou depois que o governo holandês passou a expulsar os plantadores do país. Mas a polícia alemã também está reprimindo com helicópteros e câmeras infravermelhas os plantadores ilegais de Cannabis.

O delegado de polícia Marco Stein, 36, escolheu por acaso o estacionamento da Rodovia 102, perto da cidade de Brandemburgo, no leste da Alemanha. Sua tarefa era uma verificação de trânsito rotineira, garantindo que os carros que passavam tinham licença e um kit de primeiros-socorros no porta-malas.

Parecia ser um dia comum de trabalho policial. Mas Stein e seus colegas haviam apenas sinalizado para os primeiros carros parar quando começaram a sentir o odor adocicado de maconha. A maior parte dos carros só levava mães com seus filhos – o cheiro devia vir de outro lugar. O delegado deu uma olhada ao redor, espiando em um galpão próximo, que havia sido uma loja de material de construção, e um quiosque de lanches vizinho. O pastor-alemão do vizinho rosnou atrás de uma cerca, mas não havia nada mais ao redor.

Plantação alemã

  • Jeff Chiu/AP

    A maconha plantada na Alemanha está cada vez mais superando as importações de países que até agora serviam de fornecedores, como Marrocos e Afeganistão

As portas do galpão eram feitas de metal corrugado com grossas barras de metal. As janelas estavam cobertas com folhas opacas. Mas quando Stein se aproximou de um duto de ventilação qualquer dúvida que ele pudesse ter rapidamente desapareceu. Ele alertou seus superiores.

Duas horas depois, munido de um mandado de busca, o delegado e seus colegas do departamento de investigação criminal arrombaram as portas e se encontraram em um mar verde luxuriante. Plantas de Cannabis sativa estavam nitidamente alinhadas, irrigadas por um sistema engenhoso de tubos e crescendo sob luz artificial. O prédio continha mais de 2.500 plantas, desde pequenos brotos até arbustos de 2 metros de altura.

E ninguém alegou ter visto qualquer coisa suspeita –nem o homem da barraca de lanches, cujas mesas ofereciam aos clientes uma clara visão da porta principal da estufa ilegal de maconha, nem Marcus K., um negociante de carros que vivia ao lado e era o dono do pastor-alemão e do armazém.

Os investigadores primeiro se concentraram no inquilino de K., de 35 anos, e seus vários auxiliares. Mas três semanas depois a polícia chegou à porta de K. e confiscou dois Porsches, um Aston Martin e dez lanchas. O escritório do promotor público suspeitou que o negociante de carro comprava esses bens com dinheiro de drogas. Eles acreditavam que K. e seus cúmplices haviam ganhado pelo menos 824 mil euros desde janeiro de 2009 com a plantação de maconha que os investigadores acreditavam pertencer a eles.

Esse lugar na aldeia de Fohrde foi uma das maiores "plantações internas" encontradas na Alemanha até hoje. Também fazia parte de um mercado negro pujante e lucrativo – quase não se passa uma semana sem que a polícia alemã descubra uma plantação profissional. Aconteceu em Berlim novamente na última segunda-feira, quando a polícia encontrou cerca de 1.400 plantas prontas para a colheita em um prédio de escritórios no meio de Wedding, um distrito urbano.

Droga alemã já supera as importadas

A maconha plantada na Alemanha está cada vez mais superando as importações de países que até agora serviam de fornecedores, como Marrocos e Afeganistão. Se os hippies do passado preferiam o "afegão preto", os fumantes de maconha de hoje não se importam em colocar erva ou haxixe alemão em seus "baseados".

Os jardineiros amadores que cultivam algumas plantas no porão ou no quintal para uso próprio não são a parte principal do problema. Autoridades como a Polícia Criminal Federal (BKA) da Alemanha estão mais preocupadas com operações em grande escala como esta perto de Brandemburgo e com as "estruturas internacionais organizadas" do negócio. Muitos plantadores de maconha alemães têm o apoio de holandeses, enquanto os que cuidam das plantações e ajudam na colheita muitas vezes são recrutados em países onde os salários são menores.

O crescimento do cultivo doméstico também significa uma mudança de estratégia para a polícia. No passado, seu principal alvo era o tráfico de drogas. Mas as autoridades estão caçando cada vez mais os cultivadores locais de maconha e suas plantações escondidas.

O número de operações em grande escala descobertas – aquelas com mais de 1 mil plantas – aumentou no ano passado de 18 para 26. As autoridades também descobriram 316 locais pequenos ou médios com menos de 1 mil plantas. Mas os investigadores supõem que um número considerável de casos não é relatado.

O atual fenômeno começou na Holanda, mas a situação lá logo ficou perigosa para os plantadores. Guerras de gangues surgiram ao redor das colheitas, dos canais de distribuição e dos mercados, e em alguns casos houve até assassinatos.

Rumo ao leste

Embora a Holanda hoje seja famosa por suas políticas de tolerância com as drogas brandas e seus "coffee-shops" que vendem maconha e haxixe, nos últimos anos o governo de Haia perseguiu os plantadores de Cannabis – na verdade expulsando-os do país, com muitas gangues de drogas holandesas estabelecendo-se do outro lado da fronteira, na Alemanha. Os que financiam os projetos escapam das autoridades cruzando a fronteira, primeiro para os estados alemães de Renânia do Norte-Vestfália, Baixa Saxônia e Schleswig-Holstein, todos próximos da Holanda.

Mas lá também a pressão aumentou, e cada vez mais produtores hoje se movem para o leste, na direção de Brandemburgo, Saxônia e Saxônia-Anhalt, Estados que faziam parte da antiga Alemanha Oriental. Com sua baixa população e inúmeros celeiros e edifícios industriais vazios, o leste da Alemanha parece oferecer as condições ideais para os plantadores de maconha e suas florescentes estufas. Pelo menos é assim que Marion Gradowski e Bernd Welsch, da BKA, descrevem a situação. Os dois oficiais mantêm um mapa da Alemanha que indica especificamente os locais dos plantadores de maconha.

Segundo Welsch, que é encarregado de investigações relacionadas a Cannabis, essa expansão para o leste está mudando todo o mercado alemão. Os cultivadores de drogas no oeste do país antes colhiam suas plantações e as levavam para ser processadas na Holanda, onde as plantas eram secas e fermentadas. O produto final era então dividido e embalado em pequenos sacos plásticos para venda, por exemplo, nos "coffee-shops" holandeses.

"Quanto mais longe da fronteira holandesa se situa uma plantação, maior a probabilidade de que sua produção seja destinada ao mercado local", explica Welsch.

É difícil estimar qual a porcentagem da demanda interna que os produtores alemães estão suprindo atualmente, dada a natureza ilegal desse negócio. Na Grã-Bretanha, que tem um florescente negócio em produtos cultivados no país há anos, as plantações locais dominam o mercado.

Os benefícios do sistema para os plantadores são evidentes – quase não há custos de transporte e um risco menor de ser descoberto. A infraestrutura necessária e as sementes fêmeas são fáceis de obter na Holanda e às vezes é até possível contratar um grupo de trabalhadores que montam a estufa inteira.

Esse modelo de negócio ilegal também é lucrativo. O investimento inicial fica em torno de 20 mil a 50 mil euros, dependendo do tamanho da plantação, e essa quantia muitas vezes pode ser recuperada em apenas seis semanas, quando a primeira colheita está pronta. Até seis colheitas por ano são possíveis usando novas plantas cultivadas a partir de estacas, e uma estufa florescente dá lucros exorbitantes. Um quilo de haxixe ou maconha chega a 3 mil ou 4 mil euros no mercado negro, e os preços nas ruas aproximadamente dobram. Uma colheita de mil plantas pode produzir cerca de 15 quilos.

Plantadores e guardas

Os funcionários dessas operações muitas vezes são usados como jardineiros e guardas, e frequentemente são trazidos de outros países por salários baixos. No passado, eles vinham muitas vezes da Europa do Leste, mas recentemente as autoridades têm encontrado trabalhadores vietnamitas.

Esse foi o caso em uma batida em janeiro em Zossen, perto de Berlim – os agentes invadiram um prédio que havia pertencido a uma fazenda coletiva da era comunista na Alemanha Oriental e encontraram quatro agricultores vietnamitas com chinelos de dedo. Os resultados da batida foram 1.400 plantas confiscadas, mais mandados de prisão para os agricultores, assim como dois supostos financiadores.

Trabalhadores vietnamitas também cultivavam uma plantação escondida embaixo de um clube noturno em Hainichen, cidade no Estado da Saxônia, leste da Alemanha, além de operações em Leipzig, Neumarkt na Bavária, Mönchengladbach e Rottendorf, perto de Würzburg. Também no plano global grupos vietnamitas são considerados líderes no cultivo e comercialização de Cannabis de alto grau. No Canadá, EUA e Grã-Bretanha, a polícia muitas vezes leva autoridades da imigração quando buscam plantações. Muitos agricultores também trabalhavam na agricultura no Vietnã e alguns são vítimas de tráfico humano, obrigados a trabalhar para pagar sua dívida em troca dos serviços dos traficantes.

A constante demanda por centenas de milhares de consumidores regulares de Cannabis na Alemanha está atraindo cada vez mais amadores e imitadores para o novo negócio, que viu uma completa infraestrutura comercial se desenvolver a seu redor. Kits para plantio caseiro para iniciantes podem ser comprados online por apenas 29 euros, assim como filtros de carbono para usar contra o forte cheiro, conjuntos de irrigação e até "estufas internas" inteiras.

Tudo isso é legal, já que a parafernália poderia teoricamente ser usada para cultivar tomates. A internet também fornece de tudo, desde dicas de cultivo até cursos de treinamento completos para o plantio de variedades de alta produção e teor tóxico, com as sementes da planta cultivada há eras. As sementes também são fáceis de obter na Internet com negociantes estrangeiros.

Não mais uma "droga branda"

Ainda assim, os investigadores advertem contra a banalização da droga. A tendência para o cultivo em estufas levou a um aumento considerável na potência das plantas, diz Gradowski, a especialista da BKA. "Esta não tem mais qualquer semelhança com os baseados da era hippie da década de 1960", ela acrescenta, dizendo que a maconha das plantações internas não pode mais "ser considerada apenas uma droga branda".

O que está causando preocupação nas autoridades é exatamente a mesma coisa que os produtores e os consumidores valorizam – altas concentrações de tetrahydrocannabinol (THC). Essa é a substância que dá aos usuários o "barato" quando consomem a resina marrom (haxixe) ou as flores e folhas (maconha) da planta Cannabis.

Os níveis de THC também têm um papel decisivo nos processos legais e nas sentenças para os que são apanhados cultivando a planta. Regra geral, quanto mais alta a concentração de THC e maior a quantidade de plantas, mais dura será a sentença. E elas podem ser severas. Um plantador de maconha em Mönchengladbach, no oeste da Alemanha, pegou 4,5 anos de prisão no início de maio, enquanto os operadores da maior plantação no estado de Baden-Württemberg, no sul do país, receberam 6,5 e 7 anos. O filho de uma família que criou uma dinastia do ferro-velho na Renânia do Norte-Vestfália acabou pegando uma pena de 9 anos.

Quando uma plantação vem à luz, os agentes geralmente aparecem com seus próprios caminhões e mais tarde seus colegas até assumem o trabalho dos plantadores, secando as plantas e permitindo que elas fermentem. Somente então é possível informar aos promotores públicos sobre o conteúdo de THC da apreensão. Aí o produto pronto para consumo é destruído.

Hoje os agentes estão bem equipados na busca por plantações ocultas. No caso de Zossen, a polícia recebeu uma denúncia e enviou um helicóptero com uma câmera infravermelha em um voo em baixa altitude sobre a região. A radiação das lâmpadas na estufa denunciou sua localização. Desde então parece que a notícia correu sobre essa prática e alguns plantadores começaram a investir em um caro isolamento térmico.

A alta demanda de energia dos plantadores de drogas muitas vezes também os denuncia. Apenas cem das lâmpadas de vapor de sódio de 600 W que os plantadores costumam usar consomem tanta eletricidade em um dia quanto uma família média em seis meses. Alguns operadores empregam seus próprios geradores para não chamar a atenção com altas contas de eletricidade, ou fazem ligações ilegais na rede elétrica.

Mas essa estratégia também apresenta riscos. Plantadores de Cannabis em Heidenrod, uma cidade no leste da Alemanha, estavam usando uma antiga fábrica de baterias para fins botânicos quando causaram um apagão no bairro. E uma falha na rede elétrica em Rottendorf, na Baviera, que parecia inexplicável no início, se revelou uma estufa de Cannabis que sobrecarregou o sistema com 40 grandes ventiladores e cerca de 280 lâmpadas especiais.

Nos dois casos, a polícia chegou minutos depois do apagão.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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