"Obama é um terceiro mandato do governo Bush", diz ativista de esquerda dos EUA

Marc Pitzke

  • AP

    Entrevista com o ativista Daniel Ellsberg (esq.) aparece em cena do documentário "O Homem Mais Perigoso da América: Daniel Ellsberg e os Documentos do Pentágono"

    Entrevista com o ativista Daniel Ellsberg (esq.) aparece em cena do documentário "O Homem Mais Perigoso da América: Daniel Ellsberg e os Documentos do Pentágono"

Daniel Ellsberg, lendário por ter divulgado os “Documentos do Pentágono” em 1971, ainda tem reclamações contra a Casa Branca. Em entrevista à “Spiegel Online”, o ativista pela paz de 79 anos de idade acusa o presidente Obama de trair suas promessas eleitorais – no Iraque, no Afeganistão e em relação às liberdades civis.

Spiegel Online: Sr. Ellsberg, o senhor é um herói e um ícone da esquerda. Mas parece que não está mais tão contente com o presidente Obama.

Daniel Ellsberg: Votei nele e provavelmente votarei de novo, em oposição aos republicanos. Mas acredito que o governo dele, em alguns aspectos essenciais, não passa de um terceiro mandato do governo Bush.

Spiegel Online: Como assim?

Ellsberg: Acho que Obama está dando continuidade à pior parte do governo Bush em termos de liberdades civis, violações à constituição e as guerras no Oriente Médio.

Spiegel Online: Por exemplo?

Ellsberg: Obama prometeu explicitamente em seu discurso “Estado de União” que retiraria “todas” as tropas norte-americanas do Iraque até o final de 2011. Isso é uma mentira completa. Acho que é totalmente falso. Acredito que ele sabe que isso é totalmente falso. Não será feito. Imagino que os EUA terão, por tempo indeterminado, uma força residual de pelo menos 30 mil soldados no Iraque.

Spiegel Online: E quanto ao Afeganistão? Não é uma guerra justificável?

Ellsberg: Acho que há um aumento de forças injustificável em ambos os países. Milhares de oficiais norte-americanos sabem que as bases e o grande número de soldados permanecerão no Iraque e que o número de soldados e bases no Afeganistão irá crescer mais do que Obama está projetando agora. Mas Obama conta com que eles mantenham o silêncio enquanto tenta iludir o público sobre esses empreendimentos devastadores, caros e temerários.

Spiegel Online: Você duvida não só das missões de Obama fora do país, mas também de sua política nos EUA. Por que exatamente você acusa o presidente de violar as liberdades civis?

Ellsberg: Por exemplo, o governo Obama está criminalizando e processando os informantes, e punindo-os por revelarem escândalos dentro do governo federal...

Spiegel Online: … Como no caso da prisão, confirmada esta semana, de um analista de inteligência do Exército que divulgou o vídeo “Assassinato Colateral”, que mostra um ataque fatal de helicóptero no Iraque, que depois foi publicado na internet pelo site WikiLeaks.

Ellsberg: Isso, e também a acusação recente contra Thomas Drake.

Spiegel Online: Drake é um ex-oficial senior da Agência de Segurança Nacional (NSA) que fornecia informações sobre falhas da NSA aos repórteres.

Ellsberg: O fato de Obama indiciar e processar Drake agora, por ações empreendidas e investigadas durante o governo Bush, é fazer exatamente o que ele disse que não pretendia fazer - “olhar para trás”. De todos os espalhafatosos atos criminosos cometidos durante o governo Bush, os grampos da NSA, agressão, tortura, Obama escolheu processar apenas a denúncia de gastos excessivos da NSA, uma ação socialmente útil que o próprio governo Bush investigou e decidiu não indiciar ou processar!

Bush não fez acusações contra os informantes, embora tenha suspendido o acesso de Drake a informações confidenciais. Obama, nesta e em outras questões relativas à confidencialidade e ao vazamento de informações, está fazendo pior do que Bush. A violação às liberdades civis e o uso excessivo do privilégio de segredo executivo pela Casa Branca é injustificável.

Spiegel Online: Por que Obama iria contra suas próprias ideias?

Ellsberg: Ele é um bom político. Ele disse o que precisava dizer para ser eleito, e agora está simplesmente se aproveitando do poder. Como qualquer governo anterior, o governo dele favorece as grandes corporações como a BP e o Goldman Sachs – mesmo que eu acredite que a BP não vai se sair tão facilmente desta vez. Suas primeiras doações de campanha, as grandes contribuições corporativas, vieram de Wall Street. E eles querem que seu dinheiro seja recompensado.

Na verdade, durante a campanha de 2008, três candidatos foram apoiados por Wall Street: Obama, Hillary Clinton e John McCain. Se você observar a retórica, o mais promissor era John Edwards. Uma pena que ele se revelou um idiota.

Spiegel Online: Mas Obama tem sido bastante enfático em suas críticas a Wall Street.

Ellsberg: As ações dele são totalmente desconectadas de suas declarações públicas. Eu nem ouço mais. Ele virou 180 graus. Outro exemplo: ele prometeu obstruir a lei que daria às companhias de telefone imunidade legal em relação ao papel que desempenharam no programa de grampos do governo Bush. Daí ele não só votou contra a obstrução, ele votou a favor da lei – contra a vontade de seus partidários.

Spiegel Online: Você acha que isso será ruim para os democratas nas próximas eleições realizadas na metade do mandato?

Ellsberg: Não acho que o que Obama está fazendo é a melhor forma de conseguir votos. Mas é a melhor forma de conseguir contribuições para a campanha.

Spiegel Online: Você é um informante notório. Em 1971, entregou documentos do Pentágono para o "New York Times", revelando que o governo sabia que não conseguiria vencer a Guerra do Vietnã. Você mudou a história, mas foi acusado e processado por isso. Você faria o mesmo hoje?

Ellsberg: Eu não esperaria tanto tempo. Eu escanearia as imagens e as colocaria na internet.

Spiegel Online: Isso teria o mesmo impacto?

Ellsberg: Se os documentos do Pentágono aparecessem online todos de uma vez, o governo não ficaria tentado a proibi-los. Na época, nós tivemos um longo duelo entre os jornais e o governo. No final, 19 jornais acabaram publicando partes dos documentos, dia após dia. Isso criou um escândalo contínuo. Acho que publicar na internet não teria o mesmo impacto que publicar no Times.

Tradutor: Eloise De Vylder

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