Joseph Blatter, o ambicioso presidente da FIFA

Jörg Kramer

  • Jewel Samad / AFP PHOTO

    O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, na abertura da Copa

    O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, na abertura da Copa

Sepp Blatter trouxe a Copa do Mundo para a África do Sul, e agora ele está procurando se apresentar publicamente como um benévolo defensor do auxílio externo financeiro à África. Mas será que o presidente da Fifa, a instituição que controla o futebol mundial, está realmente interessado em algo mais do que a própria fama?

Três dançarinas se balançavam em cabos afixados ao teto, movendo-se ao ritmo do som semelhante ao gorjeio de pássaros criado pelo conjunto musical, quando Joseph “Sepp” Blatter chegou, na última quarta-feira. Uma nuvem de fumaça artificial elevou-se atrás dele, e Blatter, que é suíço, caminhou com uma postura aristocrática pela escuridão do lotado Prédio 2 do Centro de Convenções Gallagher, em Johannesburgo, iluminado pelo único refletor de uma equipe de filmagem.

Naquele dia milhares de pessoas haviam saído às ruas no distrito comercial de Sandton para saudar os jogadores da Seleção Sul Africana de futebol, que desfilou em um ônibus aberto. Um sonho virou realidade, disse Blatter, 74, na cerimônia de abertura do 60º Congresso da Fifa (Federação Internacional de Futebol).

Acima de tudo, aquele foi o dia para homenagear o presidente da Fifa por ele ter trazido a Copa do Mundo para a África do Sul. No seu discurso, Blatter citou o presidente Jacob Zuma, que comparou o nível de entusiasmo em relação ao evento com a empolgação dos sul-africanos quando Nelson Mandela foi libertado.

 

Nos últimos anos, as visitas do presidente da Fifa à África têm sido recebidas com aplausos ensurdecedores. Zuma disse que a decisão de realizar a Copa do Mundo na África do Sul foi “um voto de confiança da comunidade internacional”. Na Europa, porém, críticos acusam Blatter de ser um oportunista no que diz respeito à política no esporte. Eles afirmam que Blatter está simplesmente usando a sua autodeclarada simpatia pela África – ele recentemente chamou essa relação de “uma história de amor” - para obter o apoio dos países membros mais pobres e, desta maneira, garantir os votos das associações de futebol dessas nações.

Os adversários de Blatter alegam que a concessão da Copa do Mundo à África do Sul, que estava originalmente planejada para 2006 e que, em 2004, com o auxílio de uma engenhosa modificação das regras, foi finalmente aprovada para 2010, foi simplesmente o cumprimento de uma promessa de campanha. Os votos das associações africanas deram o cargo a Blatter em 1998. Ao apoiar a ideia de um rodízio temporário entre os continentes que sediam a Copa do Mundo, ele conseguiu fazer com que o espetáculo deste ano ocorresse na África.

Desenvolvimento por meio do futebol


É claro que a Copa do Mundo é mais do que um simples evento esportivo. Políticas globais e de desenvolvimento sem dúvida também desempenham um papel nisso tudo. Porém, mais recentemente o futebol tem sido retratado como uma espécie de pacote global de auxílio econômico. Nos seus panfletos, a Fifa exalta os “valores unificadores, educacionais, culturais e humanitários” do futebol. Blatter, por sua parte, comporta-se como um estadista em uma missão de paz.

Ele promove campanhas sociais entre chefes de Estado. Uma delas é chamada “Educação para todos”, e o seu objetivo é proporcionar a 72 milhões de crianças em todo o mundo uma oportunidade de frequentar a escola. Embora a Fifa não arrecade verbas para apoiar a causa, ela coleta assinaturas. Um outro projeto foi elaborado com o objetivo de trazer para a África infraestrutura, equipamentos e cursos de treinamento dos quais o continente necessita para criar ligas e clubes de futebol profissional. A Fifa utiliza uma terceira campanha, “Futebol para a esperança”, como a base para a construção de centros educacionais e instalações de tratamento de saúde. A Fifa teria investido US$ 77 milhões (64 milhões de euros, R$ 138 milhões) no futebol africano entre 2006 e 2009.

Alguns dizem que Blatter está de olho no Prêmio Nobel da Paz. Na verdade, há aqueles que o acusam de alimentar tais ambições devido à sua forma pernóstica de falar. Seja em uma localidade próxima à Cidade do Cabo ou no concerto de abertura da Copa do Mundo, em Soweto, Blatter aproveita toda oportunidade pública para enfatizar o efeito benéfico da Fifa. Ele fala constantemente a respeito da suposta missão da Fifa, que seria de “modelar um futuro melhor”.

Mas ele se preocupa realmente com a África, ou apenas com a sua própria imagem?

A Fifa destina 0,7% das suas verbas a causas sociais, e desde 2005 ela conta com o seu próprio departamento de desenvolvimento. Existem iniciativas para a África com nomes esquisitos como “Saudável graças aos 11” e “Os 11+”, que promovem a prevenção de acidentes e ajudam as crianças a se protegerem de doenças, sugerindo que elas “evitem o álcool” e “bebam água potável”.

As instalações que lembram um parque na sede da Fifa em Zurique, na Suíça, contêm plantas de todos os cinco continentes nos quais se joga futebol. O monumento de concreto exibido na sala na qual o comitê executivo se reúne contém uma bola de futebol gigante, que por sua vez contém saquinhos com amostras de terra de todos os países que possuem associações vinculadas à Fifa. Na sala ao lado há uma capela.

Espiritualmente carregado

Foi nesse ambiente espiritualmente carregado que Blatter, o presidente da Fifa, redigiu as suas mensagens para a Copa do Mundo antes da sua partida. Segundo Blatter, o futebol é uma escola de vida. A luta contra a pobreza, o analfabetismo e os problemas de saúde são “o legado do futebol, porque, afinal, todo mundo joga futebol”, afirmou Blatter, que certa vez referiu-se a si próprio como “o africano”. Ele acrescentou: “A família internacional do futebol conseguiu sentar-se e dizer: agora nós somos reconhecidos no mundo”.

Cerca de dez anos atrás, quando a Alemanha obteve a decisão final para que sediasse a Copa do Mundo de 2006, com uma votação de 12 a 11, Thabo Mbeki, o então presidente da África do Sul, a candidata derrotada, reclamou de que a África estava sendo marginalizada, e afirmou que isso caracterizaria “a globalização do apartheid”. Blatter enxergou uma oportunidade na indignação de Mbeki, percebendo que a iniciativa política mais efetiva seria compensar o candidato derrotado dando a ele uma chance de concorrer para sediar o próximo torneio.

“Sem o sistema rotativo, nós não teríamos a Copa do Mundo na África do Sul. O público também não tinha confiança alguma na África”, diz agora Blatter em quase toda aparição pública. Na quarta-feira, Mbeki recebeu a Ordem do Mérito da Fifa.

Blatter acredita fazer parte da tradição do seu antecessor, João Havelange, a quem ele foi subordinado como diretor dos programas de desenvolvimento, e depois como diretor técnico e secretário-geral. Havelange, um brasileiro, defendia a universalidade do futebol, que se traduzia no fortalecimento de clubes dotados de menos recursos, permitindo que estes participassem dos principais eventos. “O futebol não diz respeito apenas à Europa e à América do Sul”, diz Blatter. Sem dúvida é verdade que o seu poder é derivado do apoio dos chamados “pequenos países do futebol”, mas isso não se constitui em um argumento contrário à orientação e aos projetos sociais da Fifa.

“Uma mensagem de fé, amor e esperança”

Blatter exibe uma impressionante autoimportância quando, em determinadas ocasiões, afirma que a sua instituição é maior do que a Organização das Nações Unidas (ONU) ou a Igreja Católica. No entanto, isso não incomoda ninguém na África do Sul, o país anfitrião da Copa do Mundo de 2010. “Nós queremos sensibilizar o mundo com a nossa mensagem, a nossa fé, o nosso amor e a nossa esperança”, declarou certa vez Blatter.

A Fifa exibe uma lista oficial de 40 homenagens e prêmios recebidos pelo seu presidente, incluindo a Ordem de Danaker, do Quirguistão, e a cidadania honorária concedida pela sua cidade natal, Visp. E agora Blatter foi agraciado com a Ordem dos Companheiros de Oliver Tambo, a homenagem mais importante da África do Sul para cidadãos estrangeiros. Blatter afirma: “O objetivo da Copa do Mundo não é procurar o local mais fácil para a realização do evento”.

Mas agora não pode haver nenhum contratempo sério. A Copa do Mundo precisa ser um sucesso, pelo menos para Blatter, que anunciou que disputará a reeleição em 2011, para aquele que poderá ser o seu quarto mandato. Mas se os turistas que assistem à Copa do Mundo deste ano forem vítimas de crimes violentos, ninguém mais irá se interessar por centros de esperança e por listas de assinaturas. De fato, algumas pessoas poderão até questionar como foi que os bairros mais pobres foram beneficiados com a Copa do Mundo.

Provavelmente haverá um candidato de oposição em 2011. Mas Blatter poderia se beneficiar do fato de que o comitê executivo escolherá em dezembro deste ano os anfitriões das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Nove candidatos estão na disputa, e para Blatter a escolha representa uma oportunidade de obter novos apoios. A Fifa pediu a todos os candidatos que defendessem “mudanças positivas no nosso mundo”, e Blatter escreveu, em uma carta de tom meio pastoral, que a Fifa “tem a obrigação de estender as mãos para o mundo e, ao depositar as suas esperanças no futebol, de alcançar as pessoas e promover a união entre elas”.

Ninguém é melhor nesta tarefa do que o próprio chefe do futebol global. Antes do sorteio final da Copa do Mundo na Cidade do Cabo, Blatter convocou o comitê executivo da Fifa na Ilha de Robben, o local em que se situava a prisão na qual Nelson Mandela ficou encarcerado. Blatter sentou-se ao lado do ex-prisioneiro Tokyo Sexwale, que atualmente é um funcionário da Fifa e ministro dos Assentamentos Humanos. Após a reunião, o grupo reuniu-se em um campo de futebol poeirento que tem um grande significado histórico. Quando ele viu que Blatter não estava mais usando gravata, Sexwale tirou a sua gravata e disse: “Nós gostaríamos de pedir ao presidente que nos presenteasse com um gol”.

O presidente chutou a bola, parado, com o pé direito. Depois disso ele disse, em voz baixa: “Foi um ótimo chute, não?”.

Tradutor: UOL

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