O governo de Merkel está prestes a ruir?

  • Michael Gottschalk/AP

    A chanceler alemã, Angela Merkel, e o ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler do país, Guido Westerwelle, chegam a conferência de imprensa conjunta na sede do governo, em Berlim

    A chanceler alemã, Angela Merkel, e o ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler do país, Guido Westerwelle, chegam a conferência de imprensa conjunta na sede do governo, em Berlim

O governo da chanceler alemã Angela Merkel está em turbulência. À medida que crescem as brigas internas, aumentam os pedidos por novas eleições. Alguns dentro de sua própria coalizão têm considerado abertamente a deserção – e eles terão sua chance neste mês.

Será um encontro incomum no Palácio Bellevue de Berlim, a residência do presidente do país, na noite de terça-feira. A chanceler Angela Merkel estará lá. Assim como o vice-chanceler Guido Westerwelle, o presidente do Parlamento, Norbert Lammert, e o ministro da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg. Outros 150 provavelmente serão convidados.

A ocasião é a saída de Horst Köhler, o presidente alemão que renunciou com raiva de seu cargo altamente cerimonial há pouco mais de duas semanas. Haverá música de uma banda militar, um pouco de ritual e então o magro Köhler será história.

Normalmente, é claro, a mudança de presidente na Alemanha, apesar de acompanhada da pompa e circunstância obrigatória, mal merece uma nota política. Desta vez, entretanto, é diferente. A saída do presidente pode abrir o caminho para uma despedida prematura de maior importância: a da própria Merkel.

“A frase ‘novas eleições’ está no coração e mente de todos aqueles que prezam a responsabilidade política”, disse Renate Künast, líder da bancada parlamentar do Partido Verde de oposição, disse ao “Süddeutsche Zeitung” neste fim de semana. Falando ao tabloide “Bild”, seu par do Partido Social Democrata, Frank-Walter Steinmeier, disse: “O governo (de Merkel) fracassou. Se aceitarem isso, então novas eleições seriam o melhor caminho a seguir”.

Waterloo de Merkel

Os comentários deles surgem em um momento em que muitos na Alemanha estão surpresos com a aparente incapacidade de governar da coalizão de Merkel, que casa seus conservadores com o Partido Democrático Livre (FDP). E a frustração não se limita apenas à oposição. Os oito meses desde que a chanceler iniciou seu segundo mandato foram marcados por um conflito atrás do outro. E com a disciplina da coalizão e do partido ruindo, uma votação que seria rotineira em 30 de junho para substituição de Köhler ameaça se transformar no Waterloo de Merkel.

“Às vezes há a impressão de que Merkel tem a intenção de descarrilar sua própria coalizão”, disse recentemente Hans-Ulrich Rülke, um líder regional do FDP, para a “Spiegel”. “É algo com que ela deveria ter cuidado, para que as pessoas não comecem a duvidar da sabedoria de manter esta coalizão junta.”

No fim deste mês, são precisamente pessoas como Rülke que Merkel deveria mais temer. O cargo altamente cerimonial de presidente da Alemanha é preenchido pelo voto da Assembléia Federal, composta por legisladores federais e delegados regionais. A coalizão de Merkel conta com a maioria, mas a margem é pequena. Apenas duas dúzias de renegados entre a assembleia de 1.244 membros poderia minar as chances do candidato escolhido por ela, o palatável, mas nada notável, Christian Wulff, atual governador do Estado da Baixa Saxônia.

Se isso vier a acontecer, a posição de Merkel ficaria fragilizada. E a revolta está no ar.

Uma preocupação em particular para a chanceler é sua aparente incapacidade de resolver os conflitos dentro de sua coalizão, ou mesmo dentro de seu próprio partido. Sintomático foi o debate da semana passada dentro da União Democrata Cristã (CDU) em torno do pacote de austeridade apresentado por seu governo na segunda-feira passada. Muitos dentro de seu partido queriam um aumento dos impostos para aqueles com renda mais alta na Alemanha, para evitar as acusações de que as medidas de economia têm um peso desproporcional sobre as classes econômicas mais baixas do país.

Tentando abafar o barulho

Ciente de que o FDP nunca aceitaria uma medida dessas, a chanceler se recusou a considerar a ideia – e foi criticada por membros de seu próprio partido. Até mesmo o presidente do Parlamento alemão, Norbert Lammert, exigiu publicamente impostos mais altos “para os afortunados em nossa sociedade”.

O esforço de Merkel para abafar o barulho (“Eu decidi que este pacote, como foi apresentado, é um programa equilibrado e correto”) não surtiu efeito. Em uma entrevista para a “Spiegel” no fim de semana, o ministro das Finanças e líder da CDU, Wolfgang Schäuble, se recusou categoricamente a excluir um aumento de impostos para a faixa de renda mais alta. “Por que não?” foi a resposta dele.

A resposta, é claro, é que isso custaria a Merkel seu parceiro de coalizão. Em nenhum outro lugar esses rachas no governo da chanceler são tão óbvios quanto entre os conservadores e o FDP. Muitos dos problemas estão dentro do próprio partido. O presidente do FDP, Guido Westerwelle, que é o vice-chanceler de Merkel e ministro das Relações Exteriores, conduziu o partido por tempo demais por um caminho neoliberal dadas as realidades econômicas enfrentadas pela Alemanha. Os eleitores têm dado as costas para o FDP em grande número – segundo as mais recentes pesquisas, o partido atualmente conta com apenas 5% de apoio.

Mas Merkel também tem feito sua parte. Ela questionou publicamente a autoridade do ministro da Economia, Rainer Brüderle (FDP), na semana passada, algo que levou muitos a acreditarem que sua renúncia está próxima. Ela igualmente não ofereceu apoio às propostas de reforma feitas pelo ministro da Saúde, Philipp Rösler, também do FDP, resultando na provável morte do projeto que marcava sua gestão.

O racha entre a CDU e o FDP é um fenômeno recente – sob o ex-chanceler Helmut Kohl, os partidos governaram juntos como um bloco conservador por anos em Bonn, nos tempos da Alemanha Ocidental. Merkel e Westerwelle até mesmo esperavam governar juntos após as eleições de 2005, mas o FDP não conseguiu votos suficientes e o democratas-cristãos foram forçados a governar em uma chamada grande coalizão com o social-democratas de centro-esquerda.

Dentro daquele governo, a CDU se deslocou cada vez mais para o centro dos social-democratas, enquanto o FDP permaneceu mais ou menos o mesmo partido que sempre foi. Atualmente os partidos em grande parte carecem de uma visão compartilhada. A principal questão para o FDP é a redução de impostos, em um momento em que muitos argumentam que aumentos de impostos e medidas de austeridade são necessários para tratar de um déficit orçamentário sério e impedir que a crise do euro se agrave ainda mais.

Os membros do FDP também estão furiosos. “Nós atingimos nosso limiar de dor. O que esta coalizão faz de fato por nós?” perguntou queixosamente o parlamentar do FDP, Joachim Günther, em uma reunião da bancada parlamentar do partido na semana passada. 

Teste

“Nós sempre nos contivemos, mas eles (os conservadores de Merkel) nunca. Por que devemos apoiar isso?” completou seu colega, Sebastian Blumenthal. Um líder anônimo do FDP foi citado pela agência de notícias alemã “DPA”, na segunda-feira, como tendo dito que uma reunião da coalizão no fim de semana, para discussão da reforma da saúde, poderia ser o “teste” para a continuidade do governo de Merkel.

Na semana passada a retórica parecia ainda mais drástica, quando o FDP e a União Social Cristã (CSU), o partido irmão bávaro da CDU de Merkel, começaram a se xingar publicamente – “cabeçudos” contra “idiotas”.

Entendendo a crise na União Europeia

Na segunda-feira, os líderes da coalizão não mediam esforços para contar o barulho da discussão. “Nossa aparência não é boa perante os olhos do público”, reconheceu Volker Kauder, o líder da bancada parlamentar da CDU, na televisão alemã na noite de segunda-feira. “Nós temos que resolver nossas diferenças, atenuar nossa retórica e temos que interagir como amigos e não como inimigos.” Merkel também pediu aos membros da coalizão para se comportarem.

Ainda assim, a frustração é profunda. Um ministro do governo disse à “Spiegel” na semana passada que há um punhado de ministros que não vê muito sentido em continuar. Ele disse que uma desintegração prematura da coalizão de Merkel é uma possibilidade bastante real. Segundo uma pesquisa conduzida pela Infratest, 55% do público alemão concorda.

Além disso, o governo está tendo dificuldade para encontrar uma questão na qual todos os envolvidos concordem – uma questão capaz de definir o segundo mandato de Merkel. Em vez disso, cada mudança incremental, tenha ou não sido discutida no acordo da coalizão elaborado por ambos os lados no ano passado, se transforma em motivo para aumento do racha.

Nenhuma alternativa

O que significa que a aproximação da eleição presidencial parece cada vez mais como um voto de confiança na liderança de Merkel. Potencialmente ainda mais agourento para Merkel, a oposição encontrou um candidato altamente atraente: Joachim Gauck, um ex-ativista de direitos humanos anticomunista na Alemanha Oriental, que posteriormente ficou encarregado da administração dos arquivos da polícia secreta Stasi após a reunificação alemã. Ele não apenas conta com o apoio dos verdes e dos social-democratas, como muitos dentro do FDP foram alienados pela mão pesada com que Merkel escolheu o candidato presidencial de seu partido. Alguns expressaram abertamente seu apoio a Gauck. Até mesmo dentro da CDU de Merkel há alguns que se perguntam se Gauck não seria uma melhor opção. Caso os eleitores alemães pudessem votar, Gauck derrotaria Wulff, o candidato de Merkel, por 40% contra 31%, segundo pesquisas recentes.

No final, é claro, o destino de Merkel depende de cálculos políticos. Apesar de muitos no FDP, e dentro de seu próprio partido, quererem vê-la pelas costas, novas eleições poderiam colocar ambos os partidos na oposição – uma perspectiva que provavelmente resultará em pelo menos uma módica disciplina da coalizão em 30 de junho.

Mas os rachas permanecem. Mesmo se seu governo sobreviver aos próximos meses, parece improvável que uma melhoria significativa ocorrerá. “O erro fundamental foi o tratado da coalizão”, disse Gero Neugebauer, um professor de ciência política da Universidade Livre de Berlim, para a “Spiegel Online”. “Merkel fracassou em encontrar uma meta unificadora para seu governo. Agora, seu único argumento para permanecer no poder é o de não haver alternativa.”

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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