O mistério dos aristocratas alemães mumificados

Frank Thadeusz

Quando morreram, as famílias nobres alemãs do século 18 fizeram o que os egípcios tinham feito antes delas: foram mumificadas. Na medida em que um número crescente desses corpos bem preservados vem sendo encontrado, os cientistas estão tentando descobrir o por quê. 

O Baron Von Holz passou por maus bocados. Durante a Guerra dos Trinta anos, Von Holz lutou no exército sueco como mercenário, mas não teve a morte de herói no campo de batalha. Ele foi levado, nada heroicamente, aos 35 anos de idade, por gripe ou envenenamento. E foi apenas na morte que sua situação de fato melhorou. 

Ele recebeu botas de couro preciosas, com solas presas com pregos. O guerreiro, então, foi colocado em uma cripta de luxo sob o castelo de Sommsersdorf, perto de Ansbach, na Bavária dos dias de hoje. Nessas catacumbas, o corpo de Von Holz foi privilegiado com uma honra previamente reservada primariamente aos faraós egípcios: seu corpo não se decompôs. 

Mais de 370 anos após sua morte prematura, o nobre ainda está em seu caixão, bem preservado. Von Holz era gigante, com 1,80 m, em uma época em que a maior parte dos seres humanos era muito mais baixa. Até hoje, seus pés ainda estão calçados com as botas de couro que seu clã fez para ele quase quatro séculos atrás. 

Segredos da mumificação
O corpo recentemente deixou seu local de descanso no porão do castelo pela primeira vez, de forma que os arqueólogos do Museu Reiss Engelhorn em Mannheim pudessem olhar a múmia de perto. Logo ficou claro que o barão de botas não tinha ferimentos externos e parece ter tido excelente saúde quando contraiu sua infecção fatal. O que ainda não está claro é por que o corpo do soldado aristocrata foi mumificado. 

Somente meia dúzia de cientistas têm interesse ativo em corpos curtidos que são recuperados dos pântanos lamacentos ou catacumbas na Alemanha. Algumas vezes por ano, um barão ou padre aparece na porta do arqueólogo Wilfried Rosendahl para informar que encontrou um corpo sob seu castelo ou igreja. 

Confrontado com um número crescente de descobertas, Rosendahl admite: “Temos maior familiaridade com a história das múmias egípcias do que com os corpos repousando em nossas tumbas.” 

Há poucas semanas, o pesquisador descobriu os corpos muito bem preservados de 12 membros de uma família aristocrática no distrito de Illreichein, no sul da Alemanha. 

Por que a nobreza alemã mexeu com mumificação?
O colega de Rosendahl Andreas Ströbl está atualmente examinando os restos do clã de um nobre de século 18 que foi enterrado no subsolo na Igreja de São João Batista, em Hannover. “Sabemos que essas criptas aristocráticas existiam, mas por um longo tempo não sabíamos o por quê”, admite Ströhl.

Cerca de 1.000 corpos mumificados nas tumbas de nobres alemães foram descobertas e catalogadas até agora. As catacumbas continham crianças, assim como adultos, suas roupas algumas vezes ainda estão em condição notavelmente boa. Frequentemente, as tumbas também contêm objetos cerimoniais: pentes, temperos, moedas e, em um caso, um pincel de barbear. 

O número surpreendente de tumbas contendo corpos mumificados leva os pesquisadores à conclusão que não foi uma preservação ao acaso. “Por um longo tempo, acreditei que a mumificação fosse um corolário acidental da forma como as pessoas eram enterradas naquele tempo”, diz Ströbl. Novas evidências sugerem algo diferente: neste período moderno, muitos ricos e aristocráticos deliberadamente se enterravam desta forma para que seus corpos fossem preservados? 

Um mausoléu com ar-condicionado
As fontes de material são escassas, mas Ströbl encontrou uma pista: em uma carta para o conselho da paróquia de Berlim escrita em 1710, uma mulher chamada Catharina Steinkoppen fez um pedido por sua neta morta. Ela pediu que “o corpo supracitado não se decompusesse nas catacumbas abaixo da igreja”. O pai da menina, um cortesão chamado Von Schütz, ofereceu a soma suntuosa de 10 Reichsthalers, o equivalente a um ano de salário de cocheiro, pelo serviço. 

Um total de 140 corpos mumificados está em uma cripta abaixo da igreja perto de Alexanderplatz, no centro de Berlim. Já se sabe há algum tempo que este era domínio exclusivo de famílias altamente respeitadas ou ricas. Mas o fato que os líderes da igreja em Berlim deliberadamente montaram o maior mausoléu na Alemanha é uma descoberta mais recente. 

Após a descoberta do pedido da avó, pesquisadores examinaram a cripta do nobre no centro histórico de Berlim. O que encontraram foi um sistema de ventilação extremamente eficaz passando pela tumba. Todas as câmaras estavam conectadas por uma série de pequenas frestas. Assim, o cemitério subterrâneo sempre estava bem ventilado. 

De fato, Rosendahl e Ströbl acharam sistemas de ventilação inteligentes mesmo em criptas pequenas. Mas não era isso que promovia a mumificação. Os coveiros forravam os caixões com serragem que absorvia os fluidos que deixavam o corpo. 

Embalsamar em tempo para o dia do Juízo Final
No curso do tempo, porém, muitas das tumbas cuidadosamente criadas foram destruídas por outras construções. Em mais do que uma ocasião, foram colocados tijolos tapando as importantes frestas de ventilação. Além disso, para deter saqueadores, muitas igrejas selaram as janelas das criptas. Frequentemente, isso selava o destino dessas tumbas históricas. Quando a ventilação cruzada foi cortada, as múmias começaram a apodrecer em semanas. 

Mas os arqueólogos ainda não conseguem explicar por que os ricos da Alemanha preservavam seus corpos em primeiro lugar. Há, é claro, uma pista: até 99% das múmias foram encontradas em áreas protestantes do país. As descobertas até agora foram na Francônia, Saxônia, Turíngia, Brandenburgo, Alemanha do Norte e Berlim. 

Reiner Sörries, diretor do Museu de Cultura Sepulcral em Kassel, está fazendo as primeiras tentativas de explicar o mistério. Sörries é um dos poucos arqueólogos na Alemanha que estuda a cultura sepulcral. Ele suspeita que o reformista religioso Martin Lutero talvez tenha gerado a tendência à mumificação na era moderna.

Como prova, Sörries cita uma passagem no Livro de Job que Lutero traduziu para o alemão: “Sei que meu Redentor vive e que, no final, ele vai pisar sobre a terra. E após minha pele ser destruída, ainda na minha carne, verei Deus.” 

Talvez os protestantes ricos escolhessem estes métodos de mumificação por temor que não pudessem se erguer e subir aos céus se seus restos mortais apodrecessem? “Ainda há muitas lacunas que não conseguimos preencher”, admite Sörries. “É concebível que as pessoas simplesmente quisessem se garantir e preservar seus corpos até o dia do Juízo Final.” 

Reconstruções computadorizadas da nobreza morta
Independentemente da resposta, a superstição sem dúvida teve um papel. Famílias em luto muitas vezes selavam os caixões de seus entes queridos para impedir que os mortos saíssem. Havia medo que os zumbis saíssem de suas criptas e atacassem os vivos. 

O grupo de cientistas que trabalha com Sörries, Rosendahl e Ströbl agora quer estudar mais de perto o bizarro rito do sepultamento, o que envolve pesquisar como os mumificados de fato viviam. Usando tomografia computadorizada, os pesquisadores reconstruíram uma imagem do rosto do falecido barão Von Holz. Com isso, vê-se que o alto guerreiro deve ter sido uma figura formidável. Ele tinha o crânio angular de um jogador de rúgbi e dentes notavelmente saudáveis para a época. 

Ströbl espera ter insights similares sobre um caso potencialmente criminal que desencavou em uma tumba no bairro de Wettenbergen, em Hannover, que contém principalmente membros de duas famílias aristocráticas: Von Hansing e Von Grone.

Estranhamente, quatro filhas de uma das famílias morreram em quatro anos consecutivos. Teriam sido vítimas de um vírus em sua juventude? Ou teria sido um caso de assassinato? Uma análise dos órgãos internos das quatro meninas deve fornecer informações que podem responder a questão. 

Múmias com roupas perfeitamente preservadas
Outro vislumbre fascinante desta era é fornecido por 29 múmias muito bem preservadas, encontradas no subsolo de uma igreja beneditina na cidade de Riesa, na Saxônia. Especialistas consideram a cripta da igreja um testamento histórico único à mumificação na Alemanha. Uma construção no outono chamou a atenção dos pesquisadores para a tumba aristocrática. 

Enquanto a região ainda fazia parte da Alemanha Oriental comunista, houve um mínimo de trabalho de preservação no local. Hoje, contudo, o conselho da igreja está em uma discussão prolongada sobre o que fazer com este monumento cultural. Alguns querem que a cripta, que só é acessível por uma escada estreita, seja aberta ao turismo. A maioria, porém, quer restringir a entrada do público.

O local é único pela visão que dá das roupas autênticas da época vestidas por cidadãos ricos nos últimos séculos. Uma menina, por exemplo, traja um vestido de seda perfeitamente preservado e um chapéu. Outros corpos estavam adornados com touca de dormir, chapéus pontudos e vestes longas. 

A identidade dos 29 corpos é relativamente certa. A incerteza cerca o mais famoso habitante da cripta, que pode ou não ser Ernst Otto Innocenz, barão Von Odeleben, um oficial saxão com laços a Napoleão. 

Em 1812, Odeleben apoiou a campanha malfadada do general francês na Rússia, que acabou em um fiasco. Subsequentemente, Odeleben também testemunhou a derrota do exército francês perto de Leipzig. 

Uma análise genética está sendo usada para ajudar a esclarecer o mistério. Mas, em contraste com o barão Von Holz, os pesquisadores não procurarão marcas de batalhas que possam ter levado a sua morte. O veterano de guerra passou as últimas décadas de sua vida trabalhando como supervisor de terras e morreu em sua mesa de trabalho.

Tradutor: <I> Deborah Weinberg </i>

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