"O G20 não tem legitimidade mundial", diz o ministro das Relações Exteriores da Noruega

Manfred Ertel

  • Reuters ¿ 31.maio.2010

    O ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, Jonas Gahr Store (esquerda, conversa com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (direita), durante audiência do Tribunal Penal Internacional em Uganda

    O ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, Jonas Gahr Store (esquerda, conversa com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (direita), durante audiência do Tribunal Penal Internacional em Uganda

O ministro de relações exteriores da Noruega descreveu o grupo das 20 nações mais importantes industrializadas e em desenvolvimento, que se reúne neste final de semana em Toronto, como o “maior obstáculo” da comunidade internacional desde a Segunda Guerra Mundial. Em uma entrevista ao Spiegel Online, Jonas Gahr Støre explica por que a organização não vai funcionar no longo prazo.

Spiegel: Ministro, nesta semana, as nações industrializadas e em desenvolvimento mais importantes vão se reunir no G-20 em Toronto. O senhor se opõe a essa organização. Isso se deve ao fato de a Noruega, que é um dos países mais ricos da Europa, não fazer parte do grupo?

Jonas Gahr Store: Não. O G-20 teve significado quando a crise financeira começou, a situação era séria e decisões importantes tinham que ser feitas rapidamente para acalmar os mercados. Essa importância continua. Mas o G-20 é um grupamento sem legitimidade internacional, não tem um mandato e suas funções não estão claras.

Spiegel: O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, vê o G-20 como o principal foro para guiar a economia mundial.

Støre: Precisamente por esta razão que se deve questionar sua legitimidade. Após a Segunda Guerra Mundial, foram criadas organizações internacionais como a ONU, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, com responsabilidades e mandatos claros. Precisamos torná-los adequados para a nova realidade mundial e o novo equilíbrio de poder.

Spiegel: O G-20 não é uma tentativa de fazer exatamente isso?

Store: O G-20 é um grupo autonomeado. Sua composição é determinada pelas maiores potências mundiais. Talvez seja mais representativo que o G-7 ou G-8, nos quais apenas os países ricos estão representados, mas ainda assim é arbitrário. Não estamos mais no século 19, quando grandes potências se reuniram e redesenharam o mapa do mundo. Ninguém precisa de um novo Congresso de Viena.

Spiegel: O que o senhor acha que está faltando ao grupo das maiores potências?

Støre: A África do Sul faz parte, mas não como representante da África. A Arábia Saudita faz parte, mas não como representante do mundo árabe. Então por que a União Europeia é representada, além de ter quatro membros individuais e outros dois observadores? Não é aceitável. Não é preciso mudar tudo, mas com alguns pequenos ajustes é possível alcançar uma representação regional como a que alcançamos com o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial, entre outras organizações. Precisamos do tipo de uma aliança forte, menor, “grupos votantes” como o que temos, por exemplo, com os Estados bálticos ou nórdicos, para que possamos reagir rapidamente.

Spiegel: O que os países nórdicos fazem melhor do que o G-20?

Store: Juntos, os países nórdicos são a oitava ou a nona economia do mundo. Somos pequenos em termos de população, mas grandes em termos de poder econômico. Os noruegueses são os maiores contribuintes para os programas de desenvolvimento internacional da ONU e do Banco Mundial. O superávit comercial da Noruega é um terço do chinês, e seu atual superávit em conta é um terço do da Alemanha. Nosso fundo de pensão e futuro (nota do editor: o fundo soberano que reinveste as riquezas de gás e petróleo da Noruega para futuras gerações) é o segundo maior do mundo. Então nossas experiências podem ser valiosas nas discussões sobre uma reforma do mundo financeiro mundial.

Spiegel: Outros países também poderiam usar a mesma justificativa para exigir admissão no Grupo dos 20.

Store: Os 20 ou efetivamente 22 são grandes, mas há também países que têm um papel decisivo em algumas áreas. Por exemplo, se o G-20 ou outro corpo internacional for discutir segurança energética sem a Noruega, que fornece um terço do gás natural da Alemanha, será uma verdadeira surpresa para todos. Quando mudança ambiental é discutida, há que se manter em mente que a Noruega faz uma das maiores contribuições salvando florestas e pagando bilhões de dólares. Deveríamos ter uma voz, porque temos algo a dizer. As decisões no combate à pobreza no mundo sem a participação da Noruega, Dinamarca e Suécia, que fazem as maiores contribuições financeiras, não fazem sentido.

Spiegel: Se a Noruega quer reforçar sua influência internacional, por que não entra para a UE?

Store: Por que nosso povo rejeitou (a associação) duas vezes em plebiscitos, o último há 16 anos. Contrariamente aos meus próprios desejos, não há apoio majoritário para o ingresso nem mesmo hoje. É assim que funciona a democracia.

Spiegel: Os que propõem o G-20 querem reformar o corpo e também fornecer competências adicionais –combater mudança climática, desenvolvimento internacional e saúde.

Store: Seria um grande paradoxo se o G-20 minasse a legitimidade da ONU e de suas instituições. Significaria maior desvalorização das organizações mundiais responsáveis, se as decisões da Organização Mundial de Saúde ou da Organização Mundial de Comércio, por exemplo, forem feitas pelo G-20.

Spiegel: A ONU e suas instituições não exatamente se provaram instrumentos poderosos na luta contra a crise mundial.

Store: O caminho não deve ser desistir de reformar as organizações existentes, por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU e, em vez disso, por conveniência, criar um novo corpo com uma nova voz. Isso seria uma espécie de “mandato” para um grupo pequeno e autonomeado contra o resto do mundo –as outras 170 ou 171 nações. Dessa perspectiva, o G-20, é um dos maiores empecilhos para a cooperação internacional, desde a Segunda Guerra Mundial.

Spiegel: A reunião em Toronto nesta semana vai fazer avanços na introdução de um imposto bancário global e participação bancária na ajuda financeira a países falidos como a Grécia?

Store: Essa é uma tarefa difícil. A seriedade do desejo de maior regulamentação internacional dos mercados financeiros será testada pela capacidade de fechar um acordo entre os interesses nacionais divergentes. Mas isso ainda não responderá a questão se o mundo vai aceitar as decisões feitas pelo G-20.

Tradutor: Deborah Weinberg

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