Ex-ministro da Defesa defende que Alemanha use as forças armadas conjuntas europeias

Christoph Schwennicke

O ex-ministro da Defesa alemão, Rudolf Scharping, 62, que é membro do oposicionista Partido-Social Democrata da Alemanha (SPD, Sozialdemokratische Partei Deutschland), argumenta que o país não deveria eliminar o serviço militar obrigatório como parte de medidas de austeridade econômica. Em vez disso, ele afirma que os necessários cortes de despesas do governo poderiam ser obtidos com a promoção de forças armadas conjuntas europeias.

Spiegel: Senhor Scharping, o serviço militar obrigatório nas forças armadas alemãs perdeu a relevância?

Scharping: Não. Impor cortes é a medida errada no que se refere à nossa política de relações exteriores e de segurança. A nossa contribuição para a segurança conjunta tem que ser proporcional ao tamanho e ao poder econômico da Alemanha. Como todo o respeito: nós não somos um Luxemburgo.

Spiegel: Mas o efetivo de recrutas da Alemanha não é nem suficientemente competente nem eficiente para se constituir em um exército para ser enviado a missões militares, argumenta o ministro da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg. Ele está cogitando acabar com o serviço militar obrigatório.

Scharping: A Bundeswehr (as forças armadas da Alemanha) é altamente capaz – e ela prova isso todos os dias, apesar da insuficiência de equipamento. Todos os exércitos profissionais são mais caros – isso foi comprovado pelos nossos parceiros. A eliminação do serviço militar obrigatório poderia resultar em economia financeira no curto prazo, mas custos mais elevados surgiriam bem rapidamente – para recrutamento, educação e carreiras. E quem fizer com que a Bundeswehr não seja mais capaz de convocar reservistas durante uma emergência estará a privando da possibilidade de defender o país – e isso é exatamente a base constitucional para a existência das forças armadas alemãs.

Spiegel: Uma Bundeswehr sem serviço militar obrigatório violaria a constituição do país?

Scharping: De acordo com a constituição, o governo precisa manter tropas para a defesa do país. Ainda que ninguém acredite que hoje em dia possa ocorrer um ataque contra a Alemanha, isso não muda em nada a base constitucional. Além disso, a Bundeswehr perderia o seu ancoramento na sociedade. O ex-chanceler Helmut Kohl disse certa vez, e ele estava certo quanto a isso, que com cada recruta os avós e os pais passam a manter os olhos sobre a Bundeswehr. Este ancoramento social e o controle inteligente seriam enfraquecidos.

Spiegel: Mas onde você tentaria promover cortes de despesas, como alternativa?

Scharping: Primeiro: o governo alemão deveria colocar em vigor uma iniciativa europeia no sentido de criar o núcleo das forças armadas europeias. Já existem exemplos disso: a Brigada Franco-Alemã, o Corpo de Exército Teuto-Holandês, o Corpo de Exército Europeu (Euro Corps) e o Corpo de Exército Multinacional do Nordeste em Szczecin, na Polônia, constituído de soldados dinamarqueses, poloneses e alemães. Segundo: não existe no momento nenhuma estratégia em termos de política de segurança. Por exemplo, o Tratado de Forças Armadas Convencionais da Europa (CFE), que demorou anos para ser negociado, está na geladeira. Isso provoca a Rússia, cria um pretexto para o desenvolvimento de armas nucleares táticas e prejudica a cooperação com Moscou, que é urgentemente necessária.

Spiegel: O “núcleo de um exército europeu” - seria sequer possível que isso algum dia acontecesse?

Scharping: Somente se a Alemanha e a França tomarem a iniciativa. A Alemanha não pode ser uma seguidora de retaguarda em um empreendimento como esse – ela têm que colocar o projeto em ação.

Spiegel: Você vê mais potencial para economia de verbas?

Scharping: Quando eu estava no governo, nós criamos um comando de liderança de mobilização das forças armadas, divisões especiais, bem como compartilhamento de logística. Então, por que é que agora nós precisamos também de uma equipe de comando de mobilização dentro do Ministério da Defesa, ou, aliás, de qualquer outra estrutura redundante? Nós temos que promover um enxugamento no nível administrativo, cooperar mais com o setor privado e continuar eliminando a burocracia.

Tradutor: UOL

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