A festa terminou: Zapatero tenta curar a ressaca econômica da Espanha

Há não muito tempo, a Espanha era a estrela da eurozona. Os negócios, alimentados pelo crédito barato, estavam a todo vapor. Mas a crise financeira dizimou a economia do país e agora o primeiro-ministro Zapatero está tentando juntar os cacos. Ele espera que as reformas ambiciosas consigam evitar uma espiral negativa. 

O futebol é a única esperança da Espanha, a única disciplina na qual ela ainda pode competir entre os melhores. Na quarta-feira da semana passada, o jornal diário ABC enviou fotógrafos e repórteres por toda Madri para documentar como o país muda quando sua seleção nacional de futebol está jogando. Isso foi no dia do primeiro jogo da Espanha na Copa do Mundo de 2010 – no auge da pior crise econômica que o país já experimentou desde o fim da ditadura de Franco. 

Isso aconteceu no mesmo dia que o primeiro-ministro Jose Luis Rodriguez Zapatero revelou seu pacote de reformas para o mercado de trabalho em Madri, reformas que, uma vez implementadas, farão com que a Espanha pareça um lugar totalmente diferente. As reformas receberam a aprovação preliminar do parlamento na quinta-feira desta semana, e o parlamento votará a versão final – que poderá incluir algumas emendas – até o fim do verão na Europa.

Zapatero passou dois anos lutando com os sindicatos e os donos de empresas pelas reformas. Nenhum acordo foi alcançado, e Zapatero pagou um preço alto por isso. O homem gentil, que já foi apelidado de “Bambi”, é agora chamado pela imprensa de “assassino da classe trabalhadora”.

Suas taxas de aprovação caíram, e mais de três quartos dos entrevistados disseram que não tinham mais nenhuma confiança no seu desempenho. “Este é o junho mais importante de minha vida política”, disse ele a um membro de sua equipe, confidencialmente, “e o junho mais importante na história recente da Espanha.”

Para a maioria dos espanhois, entretanto, a última quarta-feira foi simplesmente o dia do primeiro jogo da Espanha na Copa do Mundo. Os repórteres estavam por toda parte em Madri, parados em frente do estádio Bernabéu, no metro e na Gran Via.

Eles observavam as ruas cheias de gente, contavam o número de pessoas nas estações de metrô e passavam o dia pesquisando o máximo que podiam. De repente todo número parecia significativo na tentativa de responder a uma questão: o que está errado com esse país?

Os bons e velhos tempos
A Espanha era legal. Ela tinha o melhor clima da Europa. Tinha o cineasta Pedro Almodóvar, a atriz Penélope Cruz e Ferran Adrià, o maior chefe de cozinha do mundo. Ela tinha a gigante da moda Inditex, maior varejista de moda da Europa e dona da grife Zara.

Seus atletas incluíam os campeões europeus no futebol e o vencedor do torneio de Wimbledon no tênis. Ela também tinha o Banco Santander, que não especulou demais às vésperas da primeira crise financeira e não precisou receber ajuda do governo.

A Espanha era o país que estava há três anos consecutivos com superávit orçamentário, que havia criado 5 milhões de novos empregos na virada do milênio e produzido taxas de crescimento acima da média da Europa. A Espanha, quarta maior economia da eurozona, havia se tornado um peso-pesado da economia.

Essas foram conquistas notáveis. Um país onde as pessoas ainda usavam carroças puxadas por burros nos anos 60 e que havia enviado centenas de milhares de trabalhadores temporários para o norte da Europa havia se tornando a Califórnia da Europa. E Zapatero, o profeta deste milagre espanhol, combinou o crescimento econômico com uma nova cultura cívica. Apesar dos protestos duros dos bispos, ele introduziu o casamento gay e providências permitindo o aborto durante os três primeiros meses de gravidez, indicou mais mulheres do que homens para seu gabinete e acelerou o processo de divórcio.

Há apenas dois anos, a Espanha era o máximo. Mas então chegou a crise. 

 

Ricos em pânico
Desde 2008, mais de 2 milhões de pessoas na Espanha perderam seus empregos. A taxa de desemprego saltou de cerca de 8% para quase 20%, e chega até a 40% entre os jovens. 

Os espanhóis ricos estão cada vez mais mandando seu dinheiro para o exterior para salvaguardá-lo. Hoje em dia, eles têm contato telefônico regular com seus banqueiros privados na Suíça, Luxemburgo e Inglaterra. “Houve um aumento significativo nas solicitações da Espanha e da Grécia”, diz Peter Fanconi, chefe da divisão de banco privado do Bank Vontobel em Zurique.

“Meus clientes espanhóis estão em pânico”, diz o diretor de um banco privado em Genebra. “Eles temem que o governo lance em breve impostos especiais sobre os ricos ou até mesmo congele suas contas”. Os clientes espanhóis, ele acrescenta, também estão trocando seus euros por dólares norte-americanos, francos suíços e coroas dinamarquesas.

Será que o boom da Espanha foi apenas um fogo de palha? Da mesma forma que o entusiasmo já foi grande, a confiança na economia do país está diminuindo rapidamente.

A agência de classificação Standard & Poor's rebaixou a classificação de crédito da Espanha no final de abril. Quando o governo emitiu um título de três anos há duas semanas, os investidores já pediam um retorno de 3,3%, um terço a mais do que em abril.

A Espanha é a próxima Grécia?
Nos centros financeiros do mundo, os negociantes agora se fazem as mesmas perguntas que fizeram quatro meses atrás sobre a Grécia: será que o aumento do rendimento dos títulos será uma tendência fixa? Será que as reformas que Zapatero anunciou na semana passada serão suficientes para impedir a perda de confiança? Ou o aumento no rendimento dos títulos levará a uma espiral de débito? Como uma economia quase cinco vezes maior do que a da Grécia, será que a Espanha é uma ameaça para toda a Europa? 

A partir de 1º de julho, o país terá a opção de tirar vantagem do fundo de resgate elaborado pela União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, mas mesmo uma declaração de intenções pode ter um efeito prejudicial sobre os custos de empréstimos futuros. 

A Espanha está subestimando seus problemas. O governo insiste que não há negociações para um pacote de resgate. Para colocar fim nos rumores de que a Espanha estaria entrando numa séria crise de débito, o presidente do Banco da Espanha, Miguel Ordonez, pediu a divulgação de resultados confidenciais dos testes de estresse feitos nos bancos comerciais espanhóis. Na quinta-feira, os líderes da UE também concordaram que era necessária uma maior transparência. 

Dinheiro barato
No momento, o governo da Espanha não parece estar tão mal das pernas. O país deve cerca de 550 bilhões de euros, o equivalente a 53% do seu PIB em 2009. O débito da Alemanha em relação ao seu PIB era de 73%, o da Itália de 115% e o do Japão era de mais de 200%. Entretanto, os economistas temem que a dívida da Espanha possa crescer rápido. Embora o país tenha atingido um superávit orçamentário em 2007, no ano passado ele teve o maior nível de dívida nos últimos 14 anos. 

O ceticismo sobre a Espanha se deve em parte ao fato de que o boom do país não foi baseado na força da economia local, mas em grande parte atribuível a fatores externos – e é uma falha de projeto que data da introdução do euro. 

Quando a Espanha se juntou à eurozona, sua moeda, a peseta, estava relativamente fraca. Como resultado, os preços subiram rapidamente de início. Normalmente, um banco central reage a um aumento rápido da inflação, aumentando a taxa base de juros. Mas como havia apenas uma taxa básica para toda a eurozona desde a introdução do euro, e como países como a Alemanha e a França tinham taxas de inflação mais baixas, o Banco Central Europeu não reagiu. Em outras palavras, as taxas de juros continuaram baixas, às vezes até mais baixas do que a taxa de inflação na Espanha. Em alguns meses, a Espanha teve taxa zero de juros reais, o que praticamente eliminava os custos dos empréstimos. 

Esta foi a base do boom ibérico, porque permitiu que os espanhóis emprestassem dinheiro e comprassem propriedades. Outros ofereceram empréstimos imobiliários por suas propriedades depois que o valor dos imóveis aumentou rapidamente, e daí gastaram o dinheiro em bens de consumo. Cerca de 800 mil novas propriedades foram construídas a cada ano, mais do que na Alemanha, Itália e França juntas. Em breve se tornou um costume, até mesmo para a classe média, ter uma segunda ou terceira propriedade na praia – simplesmente como uma forma de investimento. O setor de construção chegou a representar 11% do PIB, e ainda hoje sua participação de 9% no PIB é quase duas vezes maior do que em muitas outras economias. 

A geração nem isso nem aquilo
O governo também entrou na onda do desenvolvimento. Ele construiu uma linha de trem de alta velocidade de Madri a Sevilha, e outra até Barcelona. Construiu aeroportos e indústrias de dessalinização, e as principais cidades gastaram dinheiro na construção de estádios e centros de convenção. Dois aeroportos de carga e passageiros foram construídos na região de Castela-La Mancha, e um complexo de 13.500 novos apartamentos foi construído em Sesena, próximo a Madri. 

Quando a crise emergiu em 2008, trazendo uma queda de dois dígitos nos preços dos imóveis, a Espanha não tinha outros setores para contrabalancear a queda drástica na construção. O turismo e a agricultura, os dois outros principais setores do país, também foram duramente atingidos, enquanto a indústria responde por apenas 11,7% do PIB (em comparação aos 26% na Alemanha). Para piorar as coisas, a Espanha investe apenas 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias. 

A Espanha também tem um sério problema na educação. Os espanhóis são significativamente menos escolarizados do que outros europeus. Cerca de 30% das crianças não chegam a terminar a escola obrigatória, número duas vezes maior do que a média da UE. 

Os sociólogos já cunharam uma expressão para descrever os jovens espanhóis: “Geração ni-ni”, ou a geração nem-nem. Eles nem estudam nem sustentam a si mesmos, não tem empregos e nem perspectivas. Mais de metade dos jovens entre 18 e 34 anos já definem a si mesmos como “nem-nem's” numa pesquisa feita no verão passado.

A iminente crise do débito
Os maiores desafios da Espanha ainda estão por vir, principalmente por causa da iminente crise do débito nos bancos. Depois da crise imobiliária, mais de um terço dos financiamentos, no valor total de 165 bilhões de euros, podem ser classificados como problemáticos. Principalmente os bancos de poupança, que realizaram empréstimos ainda mais agressivos do que os bancos comerciais, são vistos como riscos altamente imprevisíveis. 

No ano passado, o banco central da Espanha teve de resgatar o banco regional Caja Castilla La Mancha com uma garantia de empréstimos de 9 bilhões de euros, e três semanas atrás ele colocou outro banco de poupança, o CajaSur, sob supervisão do governo e forneceu 550 milhões em ajuda emergencial. Muitos dos 45 bancos de poupança do país não conseguem mais sobreviver por conta própria. De acordo com o plano do banco central, apenas 20 bancos de poupança continuaram existindo. Mas as reformas custam dinheiro. A Caja Madrid, que está no processo de fusão com seis bancos menores para formar o maior banco de poupança espanhol, pediu um empréstimo de 4,5 bilhões de euros do governo. 

Os problemas dos bancos são uma das razões pela qual Zapatero impôs cortes restritivos nos gastos do país. De acordo com seu plano, o governo economizará cerca de 65 bilhões até 2013. Os funcionários públicos terão um corte de 5% no pagamento a partir de junho, e os salários ficarão congelados durante todo o ano que vem. Cerca de 13 mil empregos do setor público devem ser eliminados. Os aposentados terão sua pensão congelada em 2011, e a aposentadoria precoce se tornará mais difícil. 

“A festa vai continuar”
Os dias de abuso chegaram ao fim, e é mais do que tempo para que esta estrela agora sem energia volte ao campo de treinamento. Ela pode se considerar sortuda se não sofrer um ataque cardíaco como resultado de anos de vida negligente. 

No Estádio Barnabéu, casa do Real Madrir, na tarde da última quarta-feira, onde jogo da Copa do Mundo foi exibido num telão, os torcedores espanhóis esperavam pacientemente que sua seleção marcasse o primeiro gol. Mas foi a Suíça que acabou marcando. Quando o jogo foi se aproximando do final, e 20 mil torcedores espanhóis começaram a entoar o mesmo grito de guerra repetidamente: “podemos, podemos”. Mas o jogo terminou e a Espanha perdeu por 1 a 0. 

Durante um momento, ninguém sabia o que dizer. Então alguém foi até o microfone e disse: “Não tem problema, nós os veremos de novo na segunda-feira. Daí a festa vai continuar”.

Tradutor: <i> Eloise De Vylder </i>

UOL Cursos Online

Todos os cursos