Ex-presidente critica planos para instituição da democracia no Quirguistão

Benjamin Bidder,

Em Minsk (Belarus)

  • M. Kokic/Comitê Internacional da Cruz Vermelha

    Cenário de destruição é visto em Osh (Quirguistão) após os confrontos étnicos que explodiram no último dia 10, em foto divulgada pela Cruz Vermelha

    Cenário de destruição é visto em Osh (Quirguistão) após os confrontos étnicos que explodiram no último dia 10, em foto divulgada pela Cruz Vermelha

A grande maioria dos residentes do Quirguistão pode ter votado no governo interino do país e nas suas planejadas reformas democráticas no referendo do último domingo, mas o presidente quirguiz deposto está convencido de que essas reformas estão prejudicando o país. Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Kurmanbek Bakiyev afirmou que os atuais líderes são “inaptos” para governar o Quirguistão.

O ex-presidente quirguiz, Kurmanbek Bakiyev, foi deposto da liderança do seu país em abril último. No entanto, algumas pessoas na Belarus, onde Bakiyev atualmente se encontra exilado, ainda se referem a ele como “Senhor Presidente”.

Porém, pode ser que elas não usem esse título por muito tempo mais. Durante um jantar cujo prato principal foi lagosta, e onde bebeu-se conhaque Hennessy, em Minsk, a capital da Belarus, Bakiyev declarou a “Der Spiegel” que está se retirando da vida política. “Eu não retornarei à política”, garantiu Bakiyev. “A minha presença no Quirguistão não seria útil neste momento”.

Na entrevista, Bakiyev repeliu as acusações de que teria incitado a recente violência étnica no seu país natal. A convulsão social, que resultou na morte de até 2.000 pessoas só na cidade de Osh, no sul do país, e que deixaram centenas de milhares de uzbeques e quirguizes desabrigados, “não foi desencadeada por provocadores, mas por uma briga ordinária em um cassino”, afirmou o ex-presidente.

Em uma recente entrevista a “Der Spiegel”, a líder interna do Quirguistão, Roza Otunbayeva, acusou os apoiadores de Bakiyev de incitarem o ódio racial entre uzbeques e quirguizes. “Em apenas dois meses, nós frustramos várias tentativas de golpe por parte do clã do meu predecessor, Bakiyev”, disse Otunbayeva. “Nós estamos experimentando um novo tipo de terrorismo: o atiçamento deliberado dos conflitos étnicos”.

 “Como uma mulher”

Bakiyev, entretanto, responsabiliza inteiramente o governo de transição pela tragédia, afirmando que Otunbayeva agiu de forma “descuidada e irresponsável – simplesmente como uma mulher”. “Otunbayeva possui pouca experiência política e está conduzindo o país a um beco sem saída”, acusou Bakiyev. “Antes de o governo de transição assumir o poder, pode ter havido protestos e manifestações, mas nada que chegasse ao nível atual”, disse ele, explicando que no passado o seu governo sempre compreendeu a importância de “extinguir estes focos de incêndio tão logo eles aparecessem”.

Bakiyev, que chegou ao poder em 2005 com o apoio do Ocidente e que foi deposto em abril após sangrentos protestos e manifestações de rua, responsabilizou a Rússia e os Estados Unidos pela sua queda. Ele afirma que, no início de 2009, Moscou tentou persuadi-lo a fechar a base militar dos Estados Unidos em Manas, perto da capital, Bishkek. A base se constituiu em um importante centro de suprimentos para a guerra no Afeganistão. Ele alega que, em troca, a Rússia acenou com a perspectiva de oferecer ao Quirguistão um auxílio econômico de US$ 2 bilhões (1,6 bilhão de euros, R$ 3,6 bilhões). Mas ele diz que, quando recusou-se a fechar a base, a Rússia o descartou, e que os norte-americanos não fizeram nada para protegê-lo. “Eu gostaria de ter recebido mais apoio”, diz ele. O Quirguistão é um caso único, já que tem em seu território bases russas e norte-americanas. 

Primeira democracia parlamentar da Ásia Central?

A maioria do povo do Quirguistão prefere no entanto o novo governo interino a Bakiyev, caso o referendo de domingo seja um bom indicador da tendência popular. Na segunda-feira (28/06), resultados preliminares demonstraram que cerca de 90% dos moradores do Quirguistão votaram favoravelmente a uma nova constituição que prevê uma eleição parlamentar em outubro deste ano, e que tornaria o Quirguistão a primeira democracia parlamentar da Ásia Central. O índice de comparecimento dos eleitores ao referendo, que foi convocado pelo governo interino após a deposição de Bakiyev, teria sido de cerca de 70%.

Observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa afirmaram que o referendo, que foi realizado apesar dos recentes episódios de violência étnica, foi “bastante transparente”. No entanto, eles relataram que houve algumas falhas que terão que ser corrigidas antes das eleições de outubro.

Quirguistão aprova nova Constituição

Porém, o presidente russo Dmitry Medvedev, em um depoimento à imprensa após a reunião de cúpula do G-20 em Toronto, manifestou dúvidas quanto aos planos quirguizes. “Eu não entendo de fato qual seria o aspecto de uma república parlamentar no Quirguistão, e nem como ela iria funcionar”, disse Medvedev. Ele advertiu que uma “série de problemas” poderia alimentar a instabilidade na região e ajudar “forças extremistas” a chegar ao poder.

A presidente interina Roza Otunbayeva, que agora tomará posse oficial como presidente de transição, classificou a eleição de “histórica”, afirmando que o Quirguistão está seguindo a trilha rumo “a um verdadeiro governo popular”. Na sua entrevista a “Der Spiegel”, Otunbayeva elogiou o sistema de democracia parlamentar, dizendo que ele “é condizente com o estilo de vida e com as tradições quirguizes”. 

“Clãs fortes”

Falando antes da votação do domingo, Bakiyev desprezou o referendo e os planos para reformas políticas. “Existem clãs fortes e muitos partidos no Quirguistão”, disse ela a “Der Spiegel”. “Quando o parlamento precisar tomar uma decisão, esse processo demorará meses”.

Bakiyev disse que, agora que está deixando a politica, pretende abrir um negócio na Belarus. Ele explica que trouxe consigo do Quirguistão o capital inicial necessário para isso, explicando que, afinal de contas, “trabalhou muitos anos”. Organizações não governamentais no país o acusam de ter enriquecido ilicitamente quando era presidente do Quirguistão.

Bakiyev disse que atualmente está estudando livros sobre negócios como forma de se preparar para a sua nova empresa. “Afinal, eu tenho agora bastante tempo livre”.

Tradutor: UOL

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