"McChrystal fez papel de tolo", diz ex-assessor de Barack Obama, Bruce Riedel

Gregor Peter Schmitz

  • Pete Souza/EFE

    General Stanley McChrystal, quando foi indicado como novo comandante das forças dos EUA no Afeganistão, em reunião com Barack Obama

    General Stanley McChrystal, quando foi indicado como novo comandante das forças dos EUA no Afeganistão, em reunião com Barack Obama

Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Bruce Riedel, um ex-assessor de Barack Obama, fala a respeito do dilema do presidente em relação à guerra. Com as suas tropas sob o comando do general David Petraeus, será mais difícil do que Obama imaginava retirar os soldados norte-americanos do Afeganistão a partir de julho de 2011.

Spiegel: Qual foi a sua reação inicial ao ler o artigo na revista “Rolling Stone” a respeito do general Stanley McChrystal, no qual ele e os seus colegas ridicularizam membros importantes do governo norte-americano?

Riedel: Eu fiquei estupefato. O que se tem dito geralmente é que a ação dele denotou pouco discernimento. Mas eu creio que o que ele fez beira a estupidez completa. Achei chocante o fato de um comandante militar usar aquele tipo de linguagem ou de permitir que tal linguagem fosse utilizada pelos seus assessores militares quando estes se referiam ao seu comandante-em-chefe, na presença de McChrystal.

Spiegel: Você acredita que McChrystal tenha tão desiludido com o desenrolar da missão no Afeganistão que ele fez isso deliberadamente, porque desejava uma forma rápida de cair fora?

Riedel: Eu acredito que existem formas mais graciosas de uma pessoa apresentar a sua renúncia. McChrystal fez papel de tolo. O que aconteceu é muito trágico, de várias maneiras.

Spiegel: O presidente Obama revelou abertamente o fato de que uma das suas maiores preocupações dizia respeito ao impacto que o artigo teria junto aos aliados dos Estados Unidos, como os franceses – especialmente quando eles lessem o parágrafo inicial do artigo publicado na revista “Rolling Stone”.

Riedel: O general David Petraeus foi escolhido por uma série de motivos. Ele é um general notavelmente diplomático, que sabe como trabalhar com os aliados dos Estados Unidos. Enviar Petraeus é algo que envia uma mensagem tranquilizadora aos aliados, ao presidente afegão Hamid Karzai e aos paquistaneses de que há uma mudança de personalidade, mas não uma alteração de estratégia.

Spiegel: Após a retirada de McChrystal, Obama afirmou que aceita o debate, mas não a divisão. Qual é exatamente a gravidade das divisões na equipe de segurança nacional de Obama?

Riedel: Tem havido uma série de vazamentos, e muitas punhaladas pelas costas. Basta pensar no documento de McChrystal que foi vazado para o jornal “The Washington Post”. O presidente tolerava tal tipo de coisa, contanto que sentisse que isso não prejudicava a estratégia ou a missão. Mas o artigo publicado na “Rolling Stone” foi simplesmente demais.

Spiegel: O presidente foi tolerante por muito tempo?

Riedel: Se houve alguma coisa de positiva quanto ao incidente envolvendo McChrystal, isso pode ter sido o fato de que, a partir de agora, nós veremos um esforço unificado. Uma guerra de contra-insurgência é, por definição, muito difícil de ser vencida – e existem muitas partes da contra-insurgência que estão além do nosso controle. Uma das poucas coisas que estão sob nosso controle é a unidade de comando e uma unidade de objetivo dentro da nossa própria equipe. O presidente está tentando neste momento restabelecer essa unidade. Ao optar pelo general Petraeus, ele escolheu exatamente a pessoa certa para fazer isso.

Spiegel: No entanto, ainda existe uma divisão não resolvida entre a estrutura política e a militar. Obama deseja dar início à retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão em julho de 2011 – mas os seus generais permanecem céticos quanto a isso.

Riedel: Eu creio que essa questão foi resolvida. A data de julho de 2011 tornar-se-á agora bastante especulativa e Petraeus conseguiu, de fato, aquilo que queria.

Spiegel: Sendo assim, um plano sério de retirada dos Estados Unidos do Afeganistão está descartado?

Riedel: Petraeus não teria aceitado o cargo se não estivesse razoavelmente convencido de que esse não é um prazo fixo e inflexível, mas sim uma aspiração.

Spiegel: Você sabe se esta foi uma exigência apresentada por Petraeus para aceitar o cargo?

Riedel: Eu conhece muito bem o general David Petraeus, e eu não creio que ele teria feito tal exigência de forma pública. Mas, ao recorrer a Petraeus, o presidente indicou que entende que o prazo estabelecido é apenas uma aspiração, e não uma data fixa.

Spiegel: Sendo assim, Obama está agora conformado com a ideia de ver as tropas norte-americanas estacionadas no Afeganistão durante mais vários anos?

Riedel: Nós estamos neste momento presenciando um fato extraordinário: dois presidentes seguidos dos Estados Unidos recorreram a David Petraeus para tentar salvar uma situação que se deteriora gradativamente. Este presidente depende ainda mais do que Bush de uma virada de situação implementada por Petraeus. Na época em que apelou para Petraeus, Bush estava no seu segundo mandato e não tinha nenhuma esperança de se reeleger. Já Obama está no seu primeiro mandato e espera bastante conseguir ser reeleito. Porém, para conseguir tal coisa, ele precisa neste momento ter sucesso no Afeganistão.

Spiegel: É claro que existem teorias a respeito disso. Por exemplo: a teoria de que o presidente recorreu a Petraeus porque, além de ser um líder militar respeitado, o general é provavelmente a única pessoa nos Estados Unidos que seria capaz de anunciar aos norte-americanos, em um ou dois anos, que eles não têm como ganhar essa guerra.

Riedel: Eu não creio que Petraeus tenha aceitado este cargo para fracassar. Petraeus é um vencedor, e ele encontrará uma forma de vencer.

Spiegel: Por que é que alguém como Petraeus pegaria uma tarefa infernal como essa, aos 57 anos de idade?

Riedel: Ele é um indivíduo notavelmente patriota. O general acredita que essa guerra é importante para a segurança nacional dos Estados Unidos. É importante derrotar a Al Qaeda e os seus aliados. Petraeus foi um dos arquitetos dessa estratégia desde o princípio. Ele defendeu uma estratégia de contra-insurgência desde o início. E agora Obama vai manter essa estratégia – pelo menos durante o seu primeiro mandato como presidente.

Spiegel: Mas essa estratégia – menos bombas, menos mortes de civis, mais diálogo com o povo afegão, maior cooperação com serviços de segurança locais – está de fato funcionando? Junho foi o mês mais sangrento já registrado para as tropas dos Estados Unidos e da Força Internacional de Assistência para Segurança (Isaf, na sigla em inglês) no Afeganistão.

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Riedel: É muito cedo ainda para avaliarmos isso. Nós ainda não contamos com os cerca de 30 mil soldados extras que o presidente prometeu enviar para lá. Uma guerra contra uma contra-insurgência não é como uma invasão da Normandia. No fim das contas não se sabe se as tropas inseridas no campo de batalha tiveram ou não sucesso. Eu não creio que nós poderemos ter de fato condições de avaliar significativamente se esta política resultou em sucesso ou em fracasso antes da próxima primavera (do Hemisfério Norte) – ou talvez mesmo antes do próximo verão.

Spiegel: As forças armadas, no entanto, também estão aparentemente insatisfeitas com a abordagem mais moderada. Os soldados que se encontram no Afeganistão dizem que não podem mais realizar tantos bombardeios, e que não contam mais com tanto apoio aéreo como contavam antigamente. E, segundo eles, é por isso que o número de baixas está aumentando.

Riedel: Eu entendo que a nova política significa riscos maiores para as tropas na zona de batalha, mas eu creio que a lógica que norteia a estratégia de evitar certos tipos de incidentes – tais como ataques aéreos letais que matam civis – é bastante convincente. E eu acredito que Petraeus dará continuidade a essa política.

Spiegel: O general McChrystal foi o segundo comandante das operações no Afeganistão que Obama removeu do cargo em um período de um ano. Seria Petraeus a última chance de Obama – ou será que ele seria capaz de retirar um comandante uma terceira vez?

Riedel: A última vez em que um presidente norte-americano substituiu o seu comandante de batalha duas vez em um ano foi em 1863. O presidente foi Abraham Lincoln e um exército marchava para a Pensilvânia rumo a Gettysburg, durante a Guerra Civil Norte-Americana. Este é um tipo de ação extraordinária para o presidente: ele agora está vinculado a Petraeus. Obama não poderá contar com um terceiro comandante no Afeganistão durante a sua presidência.

Tradutor: UOL

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