Dificuldades continuam em Gaza apesar da redução do bloqueio israelense

Christoph Schult

  • Said Khatib /AFP

    Fazendeiro palestino inspeciona um poço de água em uma construção destruída por um ataque de Israel, na cidade de Rafah, na Faixa de Gaza

    Fazendeiro palestino inspeciona um poço de água em uma construção destruída por um ataque de Israel, na cidade de Rafah, na Faixa de Gaza

Israel pode ter reduzido seu bloqueio à Faixa de Gaza em resposta à pressão internacional, mas a vida para muitos palestinos que vivem aqui até o momento mudou pouco. Até mesmo os linhas-duras em Israel estão começando a reconhecer que o bloqueio apenas ajuda a fortalecer o Hamas.

O sol do meio-dia está brilhando no céu sem nuvens na travessia Kerem Shalom, entre Israel e a Faixa de Gaza. As coisas certamente estão mais rápidas agora. Os últimos caminhões a passar pela área de segurança – que é cercada por muros de concreto de 8 metros – carregam paletes cheios de leite e carne. Mas antes dos caminhões palestinos do outro lado serem autorizados a carregar a mercadoria, os portões precisam fechar no lado israelense.

A travessia de fronteira leva o nome do kibutz próximo de Kerem Shalom, que significa “vinhedo da paz”. Mas não há contato entre israelenses e palestinos aqui – e nada lembra paz. Em 2008, terroristas bombardearam a travessia. “Nós estamos trabalhando sob constante ameaça”, diz Ami Shaked, o israelense encarregado do posto de fronteira.

Shaked, 50 anos, tem seu cabelo grisalho preso em um rabo-de-cavalo e usa um boné azul. A travessia de fronteira Kerem Shalom não é operada pelo exército israelense, mas por civis da Autoridade dos Aeroportos de Israel. Momentos depois, o rádio pendurado no ombro de Shaked começa a chamar de novo. “Outro caminhão”, informa uma colega. “O que ele está transportando?” pergunta Shaked. “Chocolate”, ela diz. “Já está tarde”, responde Shaked. “Eu já fiz muitas exceções hoje.”

Checando cada palete

Sua equipe checou 150 caminhões apenas neste dia, o que é um número mais da metade superior ao das semanas anteriores. Em reação à pressão da comunidade internacional, o governo israelense reduziu na semana passada seu bloqueio comercial, que foi imposto à Faixa de Gaza exatamente quatro anos atrás. Naquela época, militantes palestinos sob ordens do Hamas atacaram um posto militar perto da travessia de fronteira e abduziram o cabo Gilad Shalit para a Faixa de Gaza.

De seu escritório com ar-condicionado, Shaked pode ver cada centímetro da área. Ele usa um joystick para controlar as câmeras de vigilância. Cada palete é checado – com cães farejadores, scanners e, quando necessário, à mão. Shaked olha para a tela uma última vez. Todos os israelenses deixaram a área de segurança. “Diga aos palestinos que eles podem ir”, ele diz pelo rádio.

Do outro lado da fronteira, o motorista palestino Subhi al-Chur, 47 anos, está suando muito na cabine de seu caminhão Volvo. Ele está aguardando na fila há cinco longas horas. “Esta é minha primeira carga após quatro anos desempregado”, ele diz. Naquela manhã, Chur recebeu um chamado de um comerciante da Cidade de Gaza que o contratou para pegar uma carga de mochilas escolares. O comerciante as encomendou da China em 2007, mas elas foram retidas pelo bloqueio no porto israelense de Ashdod. Mochilas escolares –2.400 delas.

Como os bens perecíveis têm prioridade, Chur terá que esperar até o anoitecer. Ele não se importa com a longa espera – o principal é que ele tem trabalho. Chur receberá 400 shekels, aproximadamente 85 euros, pela viagem. “A situação está melhorando”, diz Chur, que é pai de 10 filhos. Outro comerciante já o contratou para o dia seguinte, para transportar uma carga de utensílios domésticos.

‘Sinta o cheiro do jasmim’

As coisas estão de fato começando a melhorar na Faixa de Gaza em alguns aspectos. As prateleiras dos supermercados estão cheias de alimentos e os ambulantes vendem bens em todas as esquinas: ventiladores, fogões a gás, montanhas de frutas e legumes. “Bem-vindo à Palestina”, escreve a operadora palestina de telefonia celular Jawwal em uma propaganda enviada como mensagem de texto: “Prove as azeitonas, sinta o cheiro do jasmim”. É a primeira vez em anos que o slogan não soa como uma piada ruim.

Mas esta mensagem positiva ainda permanece extremamente otimista. Por semanas, a Jawwal tem coberto as ruas da Cidade de Gaza com imensos cartazes promocionais. A empresa planeja realizar um grande sorteio para marcar o registro do segundo milionésimo cliente, com 10 novos sedãs BMW 320i sendo concedidos aos vencedores felizardos. Mas os moradores da Faixa de Gaza que conseguirem um prêmio grande como esse provavelmente nunca irão recebê-lo.

A dura realidade é que a decisão de reduzir o bloqueio contra a Faixa de Gaza, que foi aprovada pelo Gabinete israelense em 20 de junho, está longe de uma versão do Oriente Médio da queda do Muro de Berlim. O governo de Israel apenas afrouxou as regulamentações que regem a importação de bens de consumo como aparelhos elétricos, brinquedos e alimentos. Quanto a carros, até mesmo peças sobressalentes permanecerão itens escassos em Gaza.

Menos de um dólar por dia

O homem sob a tenda preta de lona se apresenta como Abu Faisal. Ele se encontra a cerca de 2 quilômetros de Kerem Shalom, na fronteira com o Egito. Faisal olha para um grande buraco no solo arenoso enquanto um guincho puxa uma porta traseira de um Passat até a superfície, seguida por amortecedores e cerca de uma dúzia de motores de carros. Ele olha para sua lista de encomendas e balança a cabeça com satisfação.

Seja lá o que for que os israelenses não permitam entrar na Faixa de Gaza é trazido por contrabandistas por túneis vindos do Egito. Mas a qualidade dos itens contrabandeados é tão ruim, ou os preços são tão altos, que apenas poucos moradores podem pagar por esses bens cobiçados. Dezenas de milhares de palestinos de Gaza costumavam trabalhar em Israel – como cozinheiros ou operários de construção– mas agora nem mesmo estudantes podem deixar a faixa costeira para estudar em uma das universidades da Cisjordânia. Quase metade da população está desempregada e aproximadamente 70% dos moradores vivem com menos de um dólar por dia.

Fazendo novos tijolos a partir de escombros

As pessoas fazem fila diante do escritório da ONU na Cidade de Gaza. Elas apresentam seus pedidos de emprego aos funcionários da ONU que ficam sentados atrás de barras pintadas de azul nos balcões. Criada em 1949 para ajudar os refugiados palestinos, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos é a maior empregadora na Faixa de Gaza. Seu diretor, John Ging, 45 anos, um determinado ex-oficial do Exército Irlandês, não tem tempo para conversa fiada. O que as pessoas daqui precisam, ele diz, “é do fim pleno do bloqueio”.

Segundo o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, Israel está em guerra com o Hamas – e não com os moradores de Gaza. Todavia, segundo Ging, o bloqueio apenas fortalece a posição dos extremistas e fere os inocentes, como os produtores de morangos e tulipas, as costureiras, marinheiros e as crianças. Mais de 7 mil crianças na Faixa de Gaza não possuem salas de aula. Seus pais pedem a Ging que construa novas escolas usando o cimento trazido pelos túneis. Mas ele se recusa a ceder a tais exigências.

A comunidade internacional disponibilizou US$ 4,5 bilhões para reconstrução após o fim da Guerra em Gaza há um ano e meio, mas a maioria das famílias cujas casas foram destruídas pelo exército israelense ainda vive em tendas e contêineres. Mohammed Chadr, 47 anos, tinha uma casa de três andares no leste da Cidade de Gaza. Agora sua esposa e sete filhos vivem em dois cômodos construídos a partir dos escombros de sua antiga casa. O cimento dos túneis custa três vezes mais do que antes do bloqueio, diz Chadr.

Um novo setor econômico nasceu em torno das pilhas de escombros que a guerra deixou para trás. Os fabricantes de tijolos moem o concreto antigo em grãos pequenos, o misturam com um pouco de cimento e moldam novos tijolos. Eles custam um dólar cada. O preço costumava ser a metade disso e a qualidade era melhor. “Este negócio dá lucro”, diz Abu Mohammed, 37 anos. Ele consegue produzir aproximadamente mil tijolos por dia – quando há eletricidade. Na última sexta-feira, a única usina elétrica da Faixa de Gaza se aproximou de novo de um fechamento de emergência, por causa da falta do diesel fornecido por Israel. Foi outro exemplo das provocações habituais.

‘Israel é o grande perdedor’

Israel agora cedeu e permite a entrada dos materiais de construção necessários para vários projetos de ajuda. Isso significa que o banco estatal de desenvolvimento da Alemanha, o KfW, finalmente conseguiu assinar um contrato de construção na semana passada para ampliação da usina de tratamento de esgoto. O projeto era constantemente adiado pelos israelenses porque eles temiam que o cimento e aço poderiam ser usados para construção de bunkers e bombas. O Ministério das Relações Exteriores israelense até mesmo não permitiu ao ministro do Desenvolvimento alemão, Dirk Niebel, entrar na Faixa de Gaza, porque sua visita supostamente fortaleceria o Hamas.

Cinco dias depois, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, decidiu mudar de ideia. Durante uma conversa com seu par italiano, Franco Frattini, ele o convidou e a outros ministros da União Europeia para uma visita a Gaza.
Até mesmo os linhas-duras em Jerusalém agora parecem reconhecer que o Hamas na verdade se beneficia com as políticas de Israel para Gaza. O ataque militar contra uma flotilha internacional com destino a Gaza, em maio, que resultou na morte de nove ativistas, teve “um efeito muito grande”, diz o líder do Hamas, Mahmoud Zahar, 65 anos, com satisfação. “Israel é o grande perdedor.”

Mas o Hamas permanece tão cínico como sempre no que se refere à forma como trata seu próprio povo. Ele se recusou a aceitar as entregas por terra dos produtos trazidos pela flotilha de ajuda a Gaza. O líder do Hamas proclama orgulhosamente: “Nós não precisamos de maionese e ketchup”.

‘Nós estamos preparados para tudo’

Hoje, Israel ainda está longe de atingir o principal objetivo de seu bloqueio, que é obter a libertação do soldado capturado, Gilad Shalit. Os pais de Shalit também estão frustrados com a falta de progresso por parte do governo e planejam acampar em frente à residência de Netanyahu até que o filho deles seja libertado do cativeiro.

O líder do Hamas, Mahmoud Zahar, não acredita que Netanyahu melhorará sua oferta para uma troca de prisioneiros – e o Hamas não pretende fazer uma nova oferta. Segundo Zahar, o exército israelense está planejando libertar o prisioneiro à força. Ele diz: “Nós estamos preparados para tudo”.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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