A Europa precisa debater alternativas para saída do Afeganistão

Rory Stewart*

  • Kai Pfaffenbach/Reuters

    Soldados alemães patrulham área de Kunduz, no Afeganistão

    Soldados alemães patrulham área de Kunduz, no Afeganistão

A Otan enviou dezenas de milhares de soldados ao Afeganistão e gastou dezenas de bilhões de euros. Mas por quê? O membro do Parlamento britânico, Rory Stewart, diz que nós adotamos uma série de crenças não questionadas a respeito da região. Reconhecer que essas crenças podem estar erradas é quase impossível.

Há dois anos, eu fui para Tartu, para uma conferência do governo estoniano sobre o Afeganistão. Estavam presentes generais alemães, diplomatas italianos e representantes de centros de estudos europeus. Os três afegãos, que foram criados na Califórnia e na Virgínia, eram praticamente os únicos presentes que falavam inglês como língua nativa. Nós fomos lembrados de que “não há solução militar”, informados sobre a necessidade de uma “abordagem abrangente” –incluindo desenvolvimento econômico e boa governança– e também instruídos sobre as complexas estruturas tribais pashtun. Eu defendi minha crença de que não deveria haver nem aumento de tropas e nem uma retirada total, mas uma pegada leve a longo prazo.

Mas por que estávamos tendo esse debate? Ao que parece, os estonianos não viam o Afeganistão como vital para seu futuro. Eles estavam lá principalmente para aprofundar seu relacionamento com a Otan e particularmente com os Estados Unidos. Então por que os estonianos, ou eu ou qualquer um dos representantes dos aliados dos americanos –mesmo aqueles com muitos soldados no solo, como a Alemanha, França e Itália– estávamos produzindo apresentações de PowerPoint sobre estruturas de governo, estudos sobre treinamento de policiais e princípios para lidar com o Paquistão?

Se chegássemos a conclusões diferentes daquelas dos Estados Unidos, nós realmente as apresentaríamos ou seríamos capazes de implantá-las? O debate europeu a respeito do Afeganistão parecia quase uma atividade cerimonial mantida para entreter o público e agradar os dignitários visitantes, particularmente dos Estados Unidos –um ritual que é preservado pelos mesmos motivos para a manutenção da troca da guarda no palácio de Buckingham.

Mais tropas, mas táticas, mais tempo

Quando fui aos Estados Unidos, eu esperava que o debate fosse mais animado, porque os Estados Unidos arcavam com maior responsabilidade e custos da operação. Eles certamente pareciam mais abertos. Autoridades importantes me encorajavam a falar contra o aumento de tropas. Até mesmo o mais empenhado soldado americano reconhecia que o projeto não teria sucesso sem a criação de um governo afegão popular e eficaz como alternativa ao Taleban –e que isso, para colocar de forma educada, era um “desafio”.

Richard Holbrooke teria lembrado do Vietnã que os generais nunca admitem que uma missão é impossível e sempre presumem que só precisam de mais tropas, novas táticas e mais tempo. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deve estar extremamente consciente dos paralelos entre sua posição no Afeganistão e de seu antecessor, o presidente George W. Bush, no Iraque. Mas alguma dessas pessoas, até mesmo Obama, sente ter uma escolha real?

Eu diria que Obama se sentiu encurralado por sua posição política, por seus generais e teorias abstratas da política externa contemporânea. Ele não queria ser visto como fraco em matéria de segurança nacional. Ele não queria ser distraído de seu foco na reforma da saúde. E por muito tempo ele justificou a retirada do Iraque alegando que o Afeganistão era a “guerra boa”, vital para a segurança nacional americana –uma que poderia ser vencida caso recursos não fossem desviados para o Iraque.

Impossível de refutar

O general Stanley McChrystal, o comandante recém substituído das tropas em solo, com o consentimento implícito do comandante do Comando Central, o general David Petraeus, declarou publicamente em 2009 que precisava de mais 40 mil soldados. Era compreensível que Obama relutasse em dizer ao seu general recém-nomeado, com décadas de forças especiais e uma série de medalhas no peito: “Eu nunca estive no Afeganistão e nunca servi no exército, mas eu posso dizer que você está errado. Você não vai derrotar o Taleban, tropas adicionais serão um desperdício de tempo e eu rejeito sua teoria de contrainsurreição. Em vez disso, vamos reduzir nossa presença de tropas. E à medida que a situação deteriorar no sul do Afeganistão e no Paquistão, o Taleban aumentar seu controle e os republicanos zombarem da minha fraqueza, eu assumirei toda a culpa por ter ignorado o conselho do meu general. (E eu também assumirei sozinho a culpa caso ocorra outro ataque terrorista nos Estados Unidos)”.

No final, o presidente sucumbiu às suposições dominantes das duas últimas décadas. Assim como os budistas mahayanas do século 8º inventaram mundo após mundo, os enchendo com seus demônios distintos e bodhisattvas, nossos centros de estudos e governos também desenvolveram suas próprias estruturas metafísicas, as rotulando de “Estados fracassados" ou “contrainsurreição”.

Essas teorias podem parecer absurdas e as futuras gerações poderão se perguntar, assim como nós fazemos a respeito do misticismo do século 8º, porque as crenças de tantas pessoas poderosas e inteligentes foram moldadas por um sistema excêntrico desses. Mas visto de dentro de nosso próprio contexto histórico, ou de trás de uma mesa no Escritório Oval, essas teorias são emocionalmente atraentes, intelectualmente intimidantes e frequentemente lucrativas. Em seus próprios termos elas parecem quase impossíveis de refutar.

Veja, por exemplo, o conceito-mestre por trás do aumento de tropas ordenado por Obama, em teoria o de que para evitar que o Afeganistão represente uma ameaça terrorista é necessário lançar um espectro pleno de operações de contrainsurreição. É possível, é claro, expor as curiosas premissas, analogias e as cadeias da lógica indutiva que implicam que nossas atividades em 2010 são uma maneira eficiente de prevenir outro ataque terrorista. E daqui a 20 anos nós poderemos ter dificuldade para explicar por que sentimos que o Afeganistão necessitava do envio de 100 mil soldados ou do gasto de US$ 100 bilhões por ano –por que exigiu muito mais recursos e atenção do que seus vizinhos mais poderosos e populosos, o Irã ou o Paquistão.

O líder sempre tem uma opção

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Mas a contrainsurreição é uma teoria emocionalmente atraente para nós atualmente. Em vez de matar só os terroristas, ela foca em temas caros para humanitários ou jornalistas: lutar contra aqueles que abusam dos direitos humanos, eliminando a corrupção, estabelecendo o Estado de Direito, construindo de escolas e clínicas e, finalmente, criando um Estado legítimo, estável e em paz consigo mesmo e com seus vizinhos. Quem poderia ser contra isso?

Também não fácil argumentar contra uma teoria tão intimidante, desenvolvida e detalhada, consagrado nos manuais de campo do exército americano, justificada pela análise histórica de 70 insurreições anteriores e aprovada pelo carisma e experiência de generais vitoriosos. Mesmo a premissa básica de que “o aumento de tropas funcionou no Iraque e funcionará no Afeganistão” só poderia ser refutada por meio de uma análise muito detalhada da violência em Bagdá em 2008 de uma comparação sofisticada com as tendências políticas e sociais no sul do Afeganistão –uma análise histórica que poucos se sentem preparados para tentar.

Enquanto isso a contrainsurreição é altamente lucrativa não apenas para os consultores (mais de um quarto da ajuda internacional gasta no Afeganistão em 2008 foi com consultores estrangeiros), mas também para as ONGs. Elas podem ter fácil acesso ao dinheiro do governo americano para reparar uma escola ou reconstruir uma clínica sob a alegação de que o desenvolvimento é um aspecto importante da contrainsurreição. Não é nem do interesse dos afegãos, nem dos estrangeiros que se preocupam com o Afeganistão contestar a teoria de que projetos de desenvolvimento tornam o mundo mais seguro contra o terrorismo. Finalmente, a criação de um governo estável, eficaz e legítimo por meio da contrainsurreição se encaixa perfeitamente com nossas outras teorias globais, tais como a importância de consertar os Estados fracassados.

Reconhecendo nossos limites

A única forma de irmos além da teoria de contrainsurreição, ou das centenas de outras teorias que apóiam e justificam a guerra no Afeganistão, é rejeitar suas mais básicas premissas e objetivos. Em vez de tentar produzir uma teoria alternativa (sobre o modo de derrotar o Taleban, criar um Estado afegão eficaz, legítimo e estável, estabilizar o Paquistão estabilizar e garantir que a Al-Qaeda nunca mais ameace de novo os Estados Unidos), nós precisamos entender que por mais desejáveis que essas coisas possam ser, elas não são coisas que nós –estrangeiros– podemos fazer.

Nós podemos fazer outras coisas pelo Afeganistão, mas o Ocidente –em particular os seus exércitos, agências de desenvolvimento e diplomatas– não é tão poderoso, informado ou popular como fingimos ser. Nossas autoridades não podem esperar prever e controlar as lealdades complexas das comunidades afegãs ou a abordagem afegã em relação ao governo. Mas reconhecer esses limites e suas implicações exigiria nem tanto uma antropologia do Afeganistão, mas sim uma antropologia de nós mesmos.

A cura para a nossa situação difícil não está em ajustes cada vez mais detalhados de nossa atual estratégia. A solução é nos lembrarmos que a política não pode ser reduzida a uma teoria científica geral, que devemos reconhecer a vontade de outros povos e reconhecer nossos próprios limites. Mais importante, nós devemos lembrar aos nossos líderes que eles sempre têm uma opção.

Incompreensível

Mas a sensação não é essa. Os países europeus se sentem presos ao seu relacionamento com a Otan e os Estados Unidos. Holbrooke e Obama se sentem presos à posição dos generais americanos. E todos –políticos, generais, diplomatas e jornalistas– se sentem presos a nossas grandes teorias e atormentados pela culpa de já terem perdido mais de mil vidas da Otan, gasto centenas de bilhões de dólares e feito uma série de promessas para os afegãos e ao Ocidente que é improvável que sejam cumpridas.

São tão poderosas essas suposições culturais, essas forças históricas e econômicas e essas tendências psicológicas que, mesmo se todos os líderes mundiais concluíssem de forma privada a improbabilidade dessa operação ter sucesso, é quase impossível imaginar os Estados Unidos ou seus aliados interrompendo a contrainsurreição no Afeganistão nos próximos anos. O imperador romano Frederico Barbarossa pode ter estado em uma posição semelhante durante a Terceira Cruzada. O ex-presidente americano, Lyndon B. Johnson, certamente esteve em 1963. A Europa está no Afeganistão apenas porque os Estados Unidos estão lá. Os Estados Unidos estão lá apenas por estar. E todos nossos debates de políticas são dialéticas escolásticas para justificar este fato singular, mas não totalmente compreensível.

*Rory Stewart, 37 anos, realizou uma atualmente famosa caminhada pelo Afeganistão em 2001-2002 e escreveu um livro sobre a jornada, chamado “Os Lugares do Meio”. Ele então passou a trabalhar para uma ONG britânica no Afeganistão. Após a invasão ao Iraque, ele foi nomeado vice-governador de uma província no sul do Iraque. Hoje, Stewart é membro do Parlamento britânico pelo Partido Conservador.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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