EUA cortam ajuda depois do desvio de milhões no Afeganistão

Susanne Koelbl

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    O especialista Misha Pemble-Belkin (esq.) e outros soldados de sua companhia durante um combate no posto avançado de Restrepo no vale Korengal, no Afeganistão

    O especialista Misha Pemble-Belkin (esq.) e outros soldados de sua companhia durante um combate no posto avançado de Restrepo no vale Korengal, no Afeganistão

Bilhões de dólares foram enviados secretamente de Cabul para ajudar membros da elite afegã a comprarem mansões de luxo em Dubai. Em meio a preocupações de que o dinheiro tenha sido resultado de corrupção, políticos norte-americanos cortaram temporariamente toda ajuda ao governo do Afeganistão.

O brigadeiro-general Mohammed Asif Jabarkhel está sendo com os braços cruzados em seu escritório, a poucos passos do posto de segurança no Aeroporto Internacional de Cabul. “É claro, eu sei o que está acontecendo aqui”, resmunga sob seu bigode o chefe da polícia alfandegária do aeroporto, de 59 anos, enquanto um ventilador zumbe ao fundo. “Mas, nesse país, quem tem direito de dizer a verdade?”

Jabarkhel está se referindo às imensas quantias de dinheiro que são enviadas regularmente para fora do Afeganistão por avião em caixas e malas. De acordo com algumas estimativas, desde 2007, pelo menos US$ 3 bilhões (R$ 5,3 bilhões) em dinheiro deixaram o país dessa forma. O destino mais comum para esses fundos é Dubai, o paraíso fiscal do Golfo Pérsico. E, dado o fato de que o PIB total do Afeganistão é de US$ 13,5 bilhões (R$ 24 bilhões), é impossível que o dinheiro envolvido nesse êxodo seja simplesmente produto das transações legais do país.

Jabarkhel reclama que todas as suas várias tentativas de impedir este escoamento de dinheiro falharam. “O banco central entrou num acordo com o governo que torna esse tipo de transferência supostamente legais”, diz ele. “E toda vez que tentamos investigar a fonte do dinheiro, vem uma pressão do alto.”

Desde que invadiram o Afeganistão em 2001, os Estados Unidos sozinhos já investiram cerca de US$ 300 bilhões (R$ 534 bilhões) nos esforços militares e de reconstrução no país. Mas o progresso feito é bem menor do que o que se esperava. Uma das principais razões para isso poderia ser o fato de que uma porção significativa dos milhões destinados aos esforços de reconstrução continuem sendo desviados. As pessoas que se beneficiam costumam ser as que têm ligações de negócios extremamente próximas com os países doadores.

Está claro que muito mais dinheiro do que o declarado e registrado está sendo desviado para fora do Afeganistão através do aeroporto de Cabul. Por exemplo, políticos e empresários importantes costumam embarcar a partir de uma área VIP especial no aeroporto, sem serem revistados. E se os oficiais da alfândega fazem uma inspeção e encontram uma maleta cheia de milhões de dólares em dinheiro, pessoas com conexões poderosas costumam entrar em cena para se certificarem de que a bagagem siga para fora do país com seu dono – sem que perguntas sejam feitas. “São feitas algumas ligações telefônicas”, diz o general Jabarkhel com frustração na voz, “e a pessoa pode continuar.”

Do Golfo ao golpe

Durante os últimos nove anos, o Afeganistão tem sido uma mina de ouro para alguns empresários aventureiros. Os mais bem sucedidos entre eles são os que têm relações com integrantes do governo, que dão a eles acesso direto aos principais tomadores de decisão. E suas transações financeiras estão, é claro, longe de serem transparentes.

Vários empresários afegãos compraram mansões caras em Dubai, que já foi um atraente paraíso para jogadores de golf. Entre eles estão o irmão e um primo do presidente afegão Hamid Karzai, um dos ex-vice-presidentes de Karzai e o irmão de Mohammad Wasim Fahim, um dos dois atuais vice-presidentes do país. Os preços das casas elegantes em estilo romano construídas nas praias da ilha artificial Palm Jumeirah, por exemplo, começam em US$ 2 milhões (R$ 3,5 milhões). Até alguns anos atrás, muitos de seus moradores atuais estavam bem longe de ser ricos.

Como descobriu o Washington Post, essas propriedades são com frequência registradas nos nomes dos indivíduos que concedem os empréstimos, como Sherkhan Farnood, fundador e membro do Banco de Cabul, o maior banco privado do Afeganistão, que também foi um dos principais apoiadores do presidente Karzai durante a campanha de reeleição de 2009. Como muitos de seus clientes, Farnood agora passa a maior parte de seu tempo em Dubai. E entre os 16 acionistas de seu banco estão Mahmoud Karzai, empresário e irmão mais velho do presidente, e Haseen Fahim, irmão do vice-presidente afegão Mohammad Qasim Fahim.

A maior parte das transações financeiras no Afeganistão continua a ser feita através das chamadas “hawalas”, um sistema islâmico tradicional de transferência de dinheiro baseado mais na honra e na confiança do que em recibos, o que torna mais ou menos impossível o trabalho dos investigadores ocidentais de descobrir o caminho que faz o dinheiro.

De acordo com o Washington Post, Farnood também opera uma hawala registrada em Dubai em Cabul. Seu auditor-chefe diz que ajudou a transferir centenas de milhões de dólares do Afeganistão para Dubai em 2009. Em todo caso, isso seria bem mais do que os US$ 150 milhões (R$ 267 milhões) que as pessoas que emprestaram dinheiro do banco de Farnood investiram em propriedades em Dubai.

Cortando o dinheiro

No verão de 2009, a quantidade de dinheiro que saiu do Afeganistão ficou um pouco mais clara quando a empresa de segurança internacional Global Strategies Group assumiu a responsabilidade pela segurança no aeroporto de Cabul e começou a preencher relatórios das transferências de dinheiro. Durante algum tempo, a companhia se reportava frequentemente ao serviço de inteligência interna do Afeganistão. Mas, de acordo com o jornal, a companhia deixou de preencher esses relatórios em setembro porque eles aparentemente não eram bem-vindos pelos figurões.

Notícias de casos persistentes de corrupção como este irritaram os políticos norte-americanos e fizeram com que uma comissão aprovasse o congelamento de US$ 3,9 bilhões (R$ 6,9 bilhões) de ajuda para o governo do Afeganistão que já haviam sido reservados no orçamento de 2011. Nita Lowey, integrante do subcomitê de ajuda internacional da Câmara dos Representantes, disse a seus colegas na última quarta-feira: “Não tenho a intenção de destinar nenhum centavo a mais para assistência ao Afeganistão até que eu tenha certeza de que o dinheiro do contribuinte norte-americano não esteja sendo usado para encher os bolsos de oficiais corruptos do governo do Afeganistão, traficantes e terroristas.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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