Diretor da megaseguradora Munich Re diz que é preciso reavaliar os riscos das perfurações de petróleo

Thomas Tuma e Christoph Pauly

  • Jae C. Hong/AP

    Diversas manchas de óleo ainda podem ser vistas do alto em locais próximos onde aconteceu o desastre com a plataforma da BP no golfo do México,

    Diversas manchas de óleo ainda podem ser vistas do alto em locais próximos onde aconteceu o desastre com a plataforma da BP no golfo do México,

Nikolaus von Bomhard, 53, presidente e membro do conselho da gigante de seguros Munich Re, compartilhou com a “Spiegel” sua visão sobre a previsão de desastres naturais, as provas da mudança climática, a crise financeira e o envolvimento de sua empresa na Copa do Mundo. A entrevista foi feita antes da final deste domingo, entre Espanha e Holanda.

Spiegel: Sr. Bomhard, a Munich Re é entre outras coisas a maior seguradora do mundo. É correto dizer que sua empresa costuma calcular todos os tipos de riscos e probabilidades?

Nikilaus von Bomhard: Claro, você pode dizer isso.

Spiegel: Bem, então, o senhor deve estar em posição de dizer quem vencerá a Copa do Mundo.

Bomhard: Ah, este é um pedido muito difícil para responder de forma diplomática. Nossa empresa atua no mundo inteiro; então, independentemente de quem vencer, alguém em nossos escritórios vai comemorar. E, é claro, também estamos muito envolvidos com a África do Sul em termos de negócios.

Spiegel: No que diz respeito à Copa do Mundo, o que exatamente você estão assegurando?

Bomhard: Já estávamos envolvidos na questão dos grandes riscos existentes ao construir e expandir a infraestrutura. Agora, entretanto, nossos serviços dizem respeito principalmente ao caso de os jogos e a publicidade televisiva associada a eles serem cancelados. O seguro total que foi feito pela Copa do Mundo vale cerca de US$ 5 bilhões. Nós sozinhos temos cerca de US$ 350 milhões em jogo, e aquele número não inclui uma vasta quantidade de apólices de seguro individuais que foram feitas para jogadores importantes e suas equipes e associações.

Spiegel: Você tem pessoas trabalhando para você que são especialistas em calcular os riscos econômicos, políticos e relacionados ao clima para grandes eventos esportivos como este. Eles também calculam os perigos associados a um ataque terrorista?

Bomhard: Claro. E, no caso da África do Sul, nós consideramos esse risco muito baixo porque o país não é muito ameaçado pelo terrorismo. Ao mesmo tempo, como sempre existe a possibilidade de perigo, também estivemos em contato regular com as autoridades de segurança de vários países.

Spiegel: Os jogos da seleção norte-americana devem ter representado mais risco.

Bomhard: É verdade. E especialmente o jogo contra a Inglaterra, uma vez que as seleções dos dois países mais odiados por alguns grupos terroristas estavam em campo ao mesmo tempo. Por esse motivo, as medidas de segurança tomadas em torno do estádio durante este jogo foram maiores.

Spiegel: A Munique Re certamente desempenha um papel importante nos pedidos de indenização relacionados ao desastre de vazamento de petróleo na plataforma Deepwater Horizon.

Bomhard: Pode-se dizer com segurança que praticamente não existe nenhuma catástrofe no mundo com a qual não estamos envolvidos em algum grau no que diz respeito a resolver os pedidos de indenização. É assim que acontece quando você tem uma posição no mercado.

Spiegel: No caso da Deepwater Horison, os prejuízos dão de tirar o fôlego. Eles já falam em US$ 40 bilhões, US$ 60 bilhões, até em US$ 80 bilhões.

Bomhard: De fato. E, em comparação, isso torna os cerca de US$ 600 milhões em custos associados à plataforma que afundou propriamente dita parecerem muito pequenos. Nossas estimativas colocam esse número em algumas centenas de milhões de euros. Nesse caso, o problema do prejuízo material está relativamente claro, mas as coisas estão totalmente no ar no que diz respeito aos prejuízo de terceiros e como a responsabilidade pela indenização será compartilhada. Embora a BP tenha estipulado voluntariamente um fundo de indenizações de US$ 20 bilhões, ela não tem nada a ver com problemas de responsabilidade e sua indenização correspondente.

Spiegel: Mas, em vez disso, tem a ver com decência.

Bomhard: Sim, eu também vejo dessa forma. Há obviamente um grande número de pessoas que estão pedindo indenizações, e todos sabemos que a BP não tinha um seguro que a eximisse dessa responsabilidade. Do ponto de vista das seguradoras, a questão relevante é quem agiu, onde, e de que forma isso o torna legalmente responsável. E essas são questões muito difíceis.

Spiegel: Será que os riscos associados a esse tipo de perfuração oceânica não foram simplesmente subestimados?

Bomhard: Qualquer que seja o caso, todos os envolvidos – incluindo nós seguradoras – precisam reconsiderar e reavaliar os riscos. Poderíamos implementar normas mais seguras, como uma que estipule que só se pode usar navios de petróleo com casco duplo. No caso das perfurações oceânicas, todos os envolvidos devem aprender algumas coisas novas que ainda não foram capazes de processar. Isso diz respeito a descobrir o tipo e o número de redes de segurança que os operadores de plataformas de petróleo precisam usar ao mesmo tempo para evitar que esse tipo de desastre aconteça no futuro.

Spiegel: Como segurador, que tipo de evento o deixa mais nervoso: uma catástrofe de petróleo, um ataque terrorista, um terremoto ou uma mudança climática comparativamente mais gradual?

Bomhard: Não tenho tanto medo da magnitude de um evento. Para nós, os terremotos e outros desastres naturais são eventos que podem ser calculados até certo ponto, claro que não em relação às consequências trágicas que eles têm sobre as pessoas.

Spiegel: Em todo caso, sua empresa sozinha precisa pagar cerca de US$ 1 bilhão como resultado do terremoto que atingiu o Chile há alguns meses.

Bomhard: Mesmo assim, nesses casos, pelo menos sabemos onde estamos. Para nós, o maior desafio é o das tendências e mudanças mais graduais. Isso se torna mais claro nos casos de seguros e responsabilização que envolvem prejuízos que levam muito tempo para se desenvolver e se instalar. O exemplo mais conhecido são os prejuízos relacionados aos asbestos. Mas mesmo os seguros de propriedade podem ser afetados por coisas como a mudança climática – que representa um inegável e imenso desafio à comunidade global.

Spiegel: Sua empresa foi uma das primeiras a alertar sobre os efeitos da mudança climática. Recentemente, entretanto, vários pesquisadores da mudança climática foram descreditados. Você, pessoalmente, ainda acredita no aquecimento global?

Bomhard: Não é uma questão de crença, mas de fato. Podemos comprovar o aquecimento e seus efeitos. Por exemplo, houve um aumento mensurável tanto na intensidade das tempestades quanto na extensão das enchentes. É claro, no passado recente, alguns pesquisadores cometeram erros no que diz respeito a casos individuais de apresentação. Mas os dados que temos nos dão uma mensagem clara.

Spiegel: Você presta alguma atenção às descobertas de estudos publicados por oponentes confessos da teoria das mudanças climáticas?

Bomhard: É claro. Achamos que fazer isso é importante porque de forma alguma vamos nos expor a acusações de sermos partidários ou termos uma mente fechada.

Spiegel: Toda essa questão parece ter evoluído para um tipo de guerra religiosa.

Bomhard: Nós simplesmente não temos mais tempo para essas discussões. Se estivermos buscando 100% de certeza em relação a cada detalhe, será tarde demais para encontrar soluções. Como empresa, nós nos vemos como a voz da razão em relação a esta questão.

Spiegel: Como seguradora vocês têm que fazer avaliações de risco com frequência maiores do que eles podem ser na realidade.

Bomhard: Mais do que qualquer coisa, precisamos ser realistas. Os riscos são superestimados com a mesma frequência que são subestimados. Em relação à mudança climática, enfrentamos uma situação possível em que os indivíduos e as companhias podem não ser capazes de se garantir mais porque os riscos estão se tornando muito grandes e os preços estão ficando muito caros. E é por isso que precisamos fazer tudo o que podemos para confinar o aquecimento global à marca discutida de 2 graus Celsius.

Spiegel: Os críticos o acusaram de usar profecias de destruição do estilo Cassandra para aumentar o preços dos seguros.

Bomhard: Isso é absurdo. Ao contrário, nós queremos nos certificar de que os riscos são menores e continuem passíveis de seguro – e que nossos preços sejam viáveis.

Spigel: Então você pode ser socialmente consciente ao mesmo tempo que busca o lucro?

Bomhard: É claro, e eu considero que isso ao mesmo tempo tem credibilidade e é economicamente sensível. Nosso trabalho é colocar um preço nas consequências da mudança climática que pode tornar as coisas mais fáceis para os tomadores de decisão na política e nos negócios, em particular.

Spiegel: A Munich Re também é uma das principais organizações que apoia os projetos Desertec de energia solar nos desertos do norte da África. Seria justo interpretar isso como uma tentativa de capitalizar com a mudança climática?

Bomhard: Tudo pode ser mal interpretado. Nesse caso, mesmo que você leve todos os interesses empresariais indiretos em consideração, estamos desempenhando um papel totalmente cívico. Sem nosso envolvimento, essa ideia, que tem quase 100 anos de existência, não teria sido adotada com tanta força, pelo menos não agora. O tempo está se esgotando. É óbvio que nós tínhamos essa tecnologia há muito tempo, mas a iniciativa veio quando o atual grupo de empresas se juntou. E nós mesmos estamos surpresos com a resposta que isso evocou em todo o mundo.

Spiegel: O preço final para sistemas de energia eólica e solar é estimado em US$ 505 bilhões.

Bomhard: Isso, é claro, parece de tirar o fôlego. Mas quando você olha os orçamentos das grandes companhias energéticas europeias, é viável. De fato, a coisa mais difícil de gerenciar é o aspecto político porque os países que podem se envolver têm interesses muito diferentes. Ainda assim, o fato de que países na Europa, África, Oriente Próximo e Oriente Médio queiram trabalhar juntos em projetos concretos de negócios como o Desertec fornece uma oportunidade política enorme. Ele envolve uma dimensão de desenvolvimento e política de segurança.

Spiegel: Seus contatos políticos também foram vantajosos no que diz respeito aos títulos de governos. Sua companhia tem cerca de 2 bilhões de euros em títulos gregos em seus livros contábeis, e até emprestou um total de 12 bilhões de euros para os países do chamado PIIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. Você não está um pouco preocupado com dinheiro ultimamente?

Bomhard: Não. Como um grande investidor, nós temos que espalhar nosso capital. E de longe a maior proporção de nossos investimentos está em títulos alemães e norte-americanos. Os mesmos fatores que estão pressionando os títulos dos PIIGS também estão gerando lucros estáveis com os títulos alemães e norte-americanos.

Spiegel: Você acha que é certo que o Banco Central Europeu (ECB) esteja fornecendo à sua companhia um pacote de bilhões em assistência financeira à sua companhia?

Bomhard: De que forma?

Spiegel: O ECB está comprando todos os títulos europeus que aparecem no mercado e são difíceis de vender.

Bomhard: Como regra geral, as seguradoras seguram seus investimentos em títulos por um longo tempo. E o que o ECB está fazendo é ajudar principalmente e diretamente os países problemáticos da eurozona...

Spiegel: … e, indiretamente, os bancos e, com eles, as seguradoras.

Bomhard: Certo.

Spiegel: Você só teria problemas se todos os credores tivessem que reclamar uma certa parte de suas indenizações, como as que tem a ver com a Grécia.

Bomhard: A princípio, isso está correto. Os credores precisam ficar expostos ao risco de que podem perder seu dinheiro. Em troca recebem lucros mais altos. No caso concreto da Grécia, entretanto, havia motivos políticos para não ir por esse caminho, uma vez que as consequências seriam impossíveis de prever.

Spiegel: Como cabeça de sua corporação, você estaria disposto a sofrer um prejuízo financeiro pessoalmente?

Bomhard: É claro. Não posso apenas compartilhar os lucros nos bons tempos e pedir que o Estado nos ajude nos tempos ruins.

Spiegel: Mas muitos banqueiros fazem isso.

Bomhard: Eu também fiquei sabendo disso, mas não é nossa preocupação. Quem quer que assuma um risco precisa aceitar o custo disso. Em termos políticos, o importante agora é tomar uma decisão, implementá-la e não hesitar. No que diz respeito aos acontecimentos nos mercados de capital, a hesitação é um veneno.

Spiegel: Ainda assim, no começo da crise da Grécia, as reações de políticos foram só hesitação.

Bomhard: Não quero dar nenhuma nota para políticos, mas também deve se observar que houve e ainda há muitas opiniões diferentes sendo expressas pelos economistas. Em todo caso, uma solução que não seja totalmente correta ainda é melhor do que uma que seja 100% mas que não seja implementada até o fim.

Spiegel: Você deve estar morrendo de preocupação com todo o dinheiro podre que os bancos centrais estão colocando no mercado.

Bomhard: É fato que não achamos boa essa enorme liquidez. Para nós, seguradores, em particular, as taxas de juros baixas apresentam um desafio. No que diz respeito a questões de liquidez, você também deve poder perguntar quanto, para quem e por quanto tempo.

Spiegel: Por que ainda há tanto nervosismo nos mercados financeiros?

Bomhard: Porque a confiança não voltou ainda. Além disso, uma questão fundamental continua sem resposta: como deverá ser o sistema bancário do futuro para ser eficaz e eficiente e como devemos administrá-lo? Nesse caso, também precisamos pensar sobre abordagens mais radicais. E, seja como for, os laços extremamente próximos entre os bancos continuam sendo um problema.

Spiegel: A recente reunião do G-20 em Toronto não chegou a praticamente nada no que diz respeito à regulamentação futura dos mercados financeiros. Isso foi um alívio ou uma frustração?

Bomhard: Mais uma frustração. Mas o dilema é parecido com o da discussão das mudanças climáticas: sempre que você coloca tantos países e tão diferentes na mesa, não é realista esperar uma grande decisão. Você tem que ter expectativas menores. Da mesma forma, os políticos não devem alimentar essa esperança de que soluções globais estão ao alcance. No que diz respeito à regulamentação dos mercados financeiros, será muito difícil atingir uma mudança global. É mais provável conseguir regulamentações nacionais e regionais – e elas nem sempre prejudicam a capacidade de competição.

Spiegel: Enquanto os mercados financeiros continuam fracos, a economia está florescendo. Você pode explicar essa discrepância?

Bomhard: As medidas de assistência financeira adotadas durante a crise estão só agora surtindo efeito. Mas sou muito mais cético em relação à segunda metade do ano. As atuais taxas de crescimento parecem melhores do que as tendência de demanda em muitos países sugerem.

Spiegel: Você está particularmente preocupado com a Grécia?

Bomhard: Por causa do tamanho das economias, estou muito mais preocupado com a Inglaterra e com os Estados Unidos. O estado crescente de dívida privada assim como os déficits implícitos de seguridade social, por exemplo, faz com que eu veja a situação com preocupação.

Spiegel: Sr. Bomhard, muito obrigado por falar conosco.

*Entrevista traduzida do alemão por Josh Ward.

Tradutor: Eloise De Vylder*

UOL Cursos Online

Todos os cursos