"Nós nos tornamos internacionais", diz capitão da seleção alemã, Philipp Lahm

  • Karim Jaafar / AFP Photo

    O lateral da Alemanha Philipp Lahm corre com a bola durante o jogo contra a Sérvia

    O lateral da Alemanha Philipp Lahm corre com a bola durante o jogo contra a Sérvia

Philipp Lahm, 26 anos, o capitão da seleção nacional alemã, fala à “Spiegel” sobre o fracasso da Alemanha em chegar à final da Copa do Mundo, seu estilo de liderança, o possível retorno de Michael Ballack e as demonstrações de emoção da chanceler Angela Merkel no estádio.

Spiegel: Sr. Lahm, você se casará em Munique na quarta-feira, poucos dias após o último jogo da Alemanha na África do Sul. Você esperava voltar para casa mais cedo da Copa do Mundo?

Lahm: Não, eu estava ciente da qualidade da equipe e que disputar as semifinais seria uma meta realista. Quanto ao casamento, sempre esteve claro para mim que estaria de volta a tempo.

Spiegel: Os companheiros de seleção estarão presentes?

Lahm: Não, apenas a família e nossos amigos mais próximos. Entre eles está apenas um jogador, Andreas Ottl, que conheço há anos. Cerca de 100 pessoas foram convidados.

Spiegel: Você pareceu deprimido quando o sonho de conquistar a Copa do Mundo acabou. No que você pensava enquanto caminhava sozinho pelo campo após o apito final da partida contra a Espanha?

Lahm: Que era uma pena para toda a equipe, incluindo os treinadores e todo pessoal. Nós passamos tantas semanas juntos e todos fizeram todo o possível para conseguir essa vitória. E então, em 90 minutos, tudo vai por água abaixo.

Spiegel: Por que você permaneceu no campo em vez de ir imediatamente para o vestiário após o apito final?

Lahm: Eu queria sentir aquela atmosfera um pouco mais. Além disso, você consegue ficar sozinho em campo, mas é mais difícil quando você entra no vestiário.

Spiegel: A Espanha atuou muito melhor que a seleção alemã?

Lahm: A Espanha conta com uma equipe de jogadores de classe mundial que está jogando junta há anos. Dá para perceber que tudo funcionou como um relógio para eles. Mas nos faltou confiança quando atacamos os espanhóis, a confiança de que poderíamos derrotar aquela potência se tivéssemos aproveitado alguma das poucas chances de marcar.

Spiegel: Você é o capitão. Quando você sente uma falta de confiança na equipe, você consegue fazer algo a respeito em campo?

Lahm: Você tenta fazer isso com linguagem corporal. E você tenta influenciar a equipe com o modo como você joga, por exemplo, assumindo o controle da bola e a conduzindo na direção certa, isto é, mostrando a eles para atacarem. Bastian Schweinsteiger faz isso da mesma forma que eu.

Spiegel: A equipe também teria chegado à semifinal com Michael Ballack?

Lahm: É inútil falar a respeito disso. Ele não estava disponível.

Spiegel: E na final?

Lahm: Se teríamos chegado à final com ele? É impossível dizer.

Spiegel: Logo após o jogo contra a Espanha, você disse aos jornalistas que gostaria de manter o posto de capitão, que lhe foi dado após a lesão de Ballack antes da Copa do Mundo. Houve conversas na mídia sobre uma disputa de poder. Você ficou chocado com a confusão criada?

Lahm: Um pouco. Não há disputa de poder. Então você gosta do seu trabalho e diz que ele é divertido –o que há de errado nisso? Agora que tenho meu papel em campo basicamente sob controle, eu gostaria de assumir ainda mais responsabilidade.

Spiegel: Pareceu ter sido proposital, quando você disse isso no dia em que Ballack deixou a África do Sul, após visitar a seleção lá, como se tivesse sido arranjado com o técnico. Você tentou –ou foi instruído a– enviar uma mensagem de que o antigo líder não era mais bem-vindo na nova equipe?

Lahm: Não. Além disso, eu só fui descobrir posteriormente que ele partiria naquele dia. O técnico me disse. E qual é o problema aqui? O único que toma uma decisão dessas é o técnico da seleção. E se ele quiser o Michael de volta, então o Michael voltará.

Spiegel: O diretor técnico Oliver Bierhoff disse que seus comentários foram desnecessários naquela altura.

Lahm: Não fez qualquer diferença para a equipe antes da semifinal. Me fizeram uma pergunta e eu respondi honestamente. Na verdade, eu acho que é um elogio aos membros da equipe quando seu capitão diz que gostaria de continuar trabalhando com eles. E uma coisa está clara: eu quero continuar a ter a responsabilidade e falar francamente, independente de usar a braçadeira de capitão ou não.

Spiegel: Ballack vai voltar?

Lahm: Michael é um jogador muito, muito bom. Eu não posso dizer nada além disso ou tomar qualquer decisão.

Spiegel: Talvez o treinador em breve estudará duas candidaturas à posição de capitão, a de Ballack e a sua. Será uma decisão baseada nos estilos?

Lahm: Talvez uma escolha entre dois estilos de liderança. Cada pessoa é diferente e tem um estilo de liderança diferente.

Spiegel: Você tende a ser mais sereno.

Lahm: Uma equipe é sempre como seu capitão. E o capitão é como a equipe. Meu estilo é de conversar bastante. É importante tratar de muitas questões, especialmente nos treinos. Esse é o estilo mais adequado para mim.

Spiegel: Aparentemente houve alguma tensão dentro da equipe na Eurocopa de 2008. Alguns jogadores se queixaram do tom duro de Ballack.

Lahm: Isso foi uma deturpação. O sentimento sempre é bom quando você consegue jogar bem. O único problema é que não estávamos realmente jogando bem na época. Mas agora, na Copa do Mundo, nós mostramos que estávamos apreciando o jogo e nos divertindo. Isso mudou a forma como as pessoas viam a equipe e cada jogador individual.

Spiegel: É a seleção de Joachim Löw. Por que você nunca declarou claramente que ele devia permanecer como treinador?

Lahm: É o mesmo caso como o de Michael Ballack. Não é minha função tomar essas decisões. A equipe gosta do técnico, caso contrário ela não estaria tão bem harmonizada e jogando bom futebol. Isso é tudo o que há para dizer.

‘Seria uma pena se Löw não permanecesse como técnico’

Spiegel: Löw ainda não renovou o contrato. Viola o código de alguns jogadores falar a favor do técnico, por parecer que estarem defendendo um amigo?

Lahm: Ele é um bom técnico. Seria uma pena se Löw não permanecesse como técnico. Mas, por outro lado, todos esperam que o próximo técnico também seja um bom técnico.

Spiegel: É possível imaginar uma nova seleção nacional sem Löw?

Lahm: Eu acho que sim, porque ela tem muita qualidade. Ela precisa apenas continuar fazendo o que está fazendo. Você vê isso nos espanhóis.

Spiegel: A seleção deles continuou se desenvolvendo com um novo técnico após conquistar a Eurocopa.

Lahm: Ela continua trabalhando tão arduamente como no passado. Essa é a abordagem que precisamos adotar.

Spiegel: Em novembro, você acusou seu clube, o Bayern de Munique, de carecer de uma “filosofia” quando o cargo do técnico Louis van Gaal estava em risco. Na época, foi dito que você estava tentando se distinguir ou, talvez, que seus empresários estavam posicionando você para papéis de liderança.

Lahm: Basta você olhar para minha carreira. Eu sempre fui fanático por futebol e sempre estive interessado em tática. Como resultado, eu cresci em um papel de responsabilidade compartilhada. Eu sou vice-capitão no Bayern. Ao longo dos anos, você se torna mais experiente e assume mais responsabilidades. Eu sou um exemplo disso, assim como Bastian Schweinsteiger. E se você perguntar aos meus ex-técnicos, eles lhe dirão que sempre falei francamente dentro da equipe.

Spiegel: Löw caracteriza seu futebol como conceitual e o distingue da abordagem individualista. Esta última abordagem para o jogo, na qual o técnico se torna dependente da intuição e do humor dos astros individuais, está fora de moda?

Lahm: Na Alemanha, as pessoas ainda procuram pelo chefe em campo. Mas quando você olha para as principais equipes do mundo, você vê que esses chefes não existem mais. Elas são equipes homogêneas e algumas delas contam com jogadores de qualidade mundial, mas todos seguem a ordem estabelecida e a tática. Esse é o caso da Espanha e da Holanda, do Barcelona e da Inter de Milão. Nenhuma dessas equipes têm um astro individual que se destaca.

Spiegel: E a seleção argentina de Diego Maradona carecia dessa homogeneidade na Copa do Mundo?

Lahm: Os argentinos estavam divididos em cinco atacantes e cinco defensores. Assim que superamos o primeiro bloco, nós conseguimos nos espalhar e então tínhamos muito espaço. Estava tudo aberto.

Spiegel: Pela 12ª vez, a Alemanha ficou entre os quatro finalistas da Copa do Mundo, mas pela primeira vez em muitos anos, não foi o grupo ressentido que frequentemente irritava os observadores estrangeiros. Por que ela passou uma imagem tão agradável?

Lahm: É por causa da nova geração de jogadores e seu estilo de futebol. Nós agora temos muitos jogadores tecnicamente fortes que são capazes de driblar, o que é resultado do melhor treinamento em nossos clubes. E nos tornamos internacionais. Vários países tiveram um impacto sobre nossa equipe, a Turquia por meio de Mesut Özil, o Brasil por meio de Cacau, a Tunísia por meio de Sami Khedira, e assim por diante. Como resultado, novas qualidades foram adicionadas às nossas virtudes alemãs.

Spiegel: Essas virtudes alemãs ainda existem?

Lahm: Para mim, significa estar voltado para o gol. Por exemplo, concluir um determinado movimento chutando a bola ao gol. E há o fato de que pudemos nos preparar muito bem para um torneio como este. A mesma coisa fica evidente antes de partidas internacionais individuais. Quando conseguimos ficar juntos com três dias de antecedência, nosso jogo parece completamente diferente, e não tão bom quanto de quando dispomos de 10 dias para nos prepararmos. Isso é muito extremo em nosso caso. Nós sempre precisamos de uma certa quantidade de tempo para nos entendermos em campo e determinar quem combina melhor com quem.

Spiegel: Passar uma imagem tão positiva na Copa do Mundo fazia parte da missão?

Lahm: Eu acho que essa é simplesmente a forma como a seleção é agora. As pessoas gostam dela. Nós não enrolamos, não fingimos. Os jogadores jovens estão abertos para tudo. Nós somos internacionais e estamos mostrando que todos pertencemos à Alemanha.

Spiegel: Até que ponto a seleção é um reflexo do país?

Lahm: Nosso país está finalmente sendo visto como realmente é. Na Copa do Mundo de 2006, o mundo nos conheceu como anfitriões fantásticos, que gostam de se divertir. Na Copa do Mundo de 2010, nós transmitimos nosso amor pelo esporte, mas ainda assim exibimos disciplina, respeito e tudo mais que vem com isso. E tenho certeza de que a Alemanha também é assim. E o fato de haver tantos jogadores cujos pais vêm de outros países reflete o que a Alemanha é hoje. Afinal, não há mais muitas famílias em nosso país na quais os pais, avós e todos os parentes são todos da Alemanha.

Spiegel: Antes da partida contra a Argentina, você leu uma mensagem contra o racismo no estádio. Foi um discurso exigido pela FIFA?

Lahm: Sim, o texto veio da FIFA. Mas nosso diretor de mídia, Harald Stenger, e eu o lemos de novo para assegurar que gostávamos. E mudamos algumas poucas passagens.

Spiegel: O que vocês mudaram?

Lahm: Havia uma sentença confusa que corrigimos.

Spiegel: A chanceler visitou o vestiário após a partida. Como foi isso para você?

Lahm: Eu achei incrível como ela vibrava após nossos gols e simplesmente esquecia a respeito dos problemas que enfrenta em casa. Isso faz com que você se sinta orgulhoso e você reconhece o que realizou. Ela nos ajudou a nos sentirmos à vontade no vestiário. Ela fez um discurso e estava simplesmente feliz por nós. Era evidente.

Spiegel: È verdade que foi mostrado a vocês no vestiário imagens de TV de centenas de milhares de torcedores vibrando em Berlim, antes das quartas de final?

Lahm: Eles não as mostraram no vestiário, mas no hotel, antes de sairmos. Cerca de três minutos de pessoas torcendo por nós. Isso ajuda a aliviar a tensão quando você é o capitão e entra no estádio sabendo que está representando seu país, e que as pessoas estão assistindo em casa, seja na TV ou em telões públicos.

Spiegel: Nos estádios modernos e em seu hotel, você percebeu que estava na África?

Lahm: Nós sabíamos onde estávamos, mas se notamos é uma pergunta diferente. Nós certamente notamos quando passávamos pelos distritos a caminho do aeroporto. Os estádios eram bons, foi tudo muito bem-organizado e no final até mesmo nos acostumamos às vuvuzelas.

Spiegel: Após não conseguir chegar à final, a equipe decidiu não voar para Berlim para agradecer aos torcedores, como fez a seleção alemã após a Copa do Mundo de 2006 e a Eurocopa de 2008. Por quê?

Lahm: Nós já tínhamos tomado essa decisão antes da semifinal. Nós discutimos no conselho da equipe e todos concordaram. Nós já celebramos duas vezes com os torcedores, primeiro após o terceiro lugar na Copa do Mundo e após ficar em segundo lugar na Eurocopa. Mas desta vez a equipe não queria fazer isso. Nós não queríamos ir sem um troféu.

Spiegel: A equipe nem mesmo quis assistir a final antes de partir. Por que não?

Lahm: Isso nem mesmo foi uma questão. Eu também não assisti a final em casa, em 2006. Dói demais.

Spiegel: Sr. Lahm, obrigado pela entrevista.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos