Dinamarca discute a adoção de um salário mínimo mais baixo para os imigrantes

Anna Reimann

Um político dinamarquês sugeriu que os imigrantes do país recebam a metade do atual salário mínimo da Dinamarca. A ideia foi bem recebida pelos partidos de centro-direita, mas foi repudiada pela esquerda – e também pela extrema direita. Os populistas de direita temem que o pagamento de baixos salários aos imigrantes possa tirar empregos dos “dinamarqueses comuns”.

O debate sobre integração étnica na Dinamarca é estridente. O pequeno país é frequentemente manchete dos jornais internacionais quando esta questão está em pauta. O atual governo de coalizão formado por conservadores e liberais de direita já introduziu a lei de imigração mais rígida da Europa. O ultradireitista Partido do Povo Dinamarquês promove campanhas constantes contra os 450 mil imigrantes do país. E, em 2006, a crise em torno das charges do profeta Maomé espalhou-se da Dinamarca para o resto do mundo.

Ao mesmo tempo, a Dinamarca produz muitas ideias inovadoras – por exemplo, assistentes sociais que ajudam as mulheres muçulmanas a aprenderem a andar de bicicleta, a primeira lei de integração étnica da Europa e associações de muçulmanos liberais.

Agora, no meio das férias de verão, uma notícia amarga surgiu no quadro político dinamarquês. Karsten Lauritzen, porta-voz de integração do partido governista Venstre, que faz parte da direita liberal, propôs que os trabalhadores imigrantes recebam bem menos do que os dinamarqueses. Segundo essa ideia, os migrantes deveriam trabalhar por cerca de 50 coroas dinamarquesas por hora (cerca de 6,50 euros, US$ 8,40 ou R$ 14,89) em vez de receberem o atual salário mínimo de 100 coroas dinamarquesas por hora. Não há um salário mínimo oficial legal na Dinamarca, mas os pagamentos são regulamentados por uma série de acordos salariais negociados pelos sindicatos trabalhistas.

Somente certos imigrantes

Lauritzen está vendendo a sua ideia como se ela atendesse aos interesses dos imigrantes: ele afirma que os salários mais altos estão impedindo “os imigrantes e os novos dinamarqueses” de conseguir empregos. Lauritzen argumenta que, se a Dinamarca desejar tirar os migrantes dos seus guetos e inseri-los no mercado de trabalho, é necessário que novas ideias sejam implementadas. O político declarou ao jornal “Berlingske Tidende” que enxerga uma situação na qual o imigrante perceberia apenas a metade do salário mínimo durante os primeiros seis meses de trabalho. Afinal de contas, argumenta Lauritzen, atualmente alguns imigrantes aceitam empregos não remunerados apenas para conseguirem ingressar no mercado de trabalho. Ele assegurou ao jornal que conta com o apoio do seu partido quanto a essa questão.

Migrantes trabalhando por um salário aviltado – a sugestão pode parecer absurda, mas ela é apoiada por muitos políticos dinamarqueses, e ela não é facilmente rechaçada como, digamos, uma recente sugestão feita na Alemanha no sentido de que os imigrantes fossem submetidos a testes de inteligência. O ministro do Trabalho dinamarquês, Inger Støjberg, que também é membro do partido governista Venstre, disse acreditar que a sugestão é interessante e que espera que ela seja avaliada com seriedade. Os seus parceiros de coalizão do Partido Popular Conservador, também afirmam estar interessados na ideia, incluindo o polêmico porta-voz do partido para questões referentes à integração, Naser Khader, que é ele próprio filho de imigrantes.

Khader disse que a introdução de salários mais baixos para os imigrantes teria que ser, é claro, acompanhada de várias condições. O salário baixo seria imposto apenas àqueles indivíduos que chegassem na Dinamarca sem nenhum conhecimento da língua, bem como aos imigrantes cujos treinamentos e qualificações profissionais não são reconhecidos no país.

Oposição intrapartidária

Mas há, por exemplo, muitos iraquianos – que estudaram anteriormente na Europa Oriental para serem engenheiros ou dentistas – que atualmente dirigem táxis na Dinamarca, afirma Khader. Essas pessoas certamente não perderiam tempo diante da oportunidade de trabalhar por um salário mais baixo, contanto que pudessem estar certos de que contariam com um emprego estável.

De qualquer forma, tem havido uma oposição acirrada à ideia, bem como uma discórdia profunda que ocorre até no seio do partido governante, o Venstre. Birthe Rønn Hornbech, a ministra da Integração do partido, reagiu com indignação à proposta de Lauritzen. Segundo ela, a ideia contradiz as próprias políticas de integração do governo. Ela própria é a responsável por essas políticas. Hornbech insistiu: “O governo dinamarquês tem que lutar pelos deveres e pelos direitos dos seus imigrantes”.

“A ideia de reduzir pela metade o salário mínimo pago aos imigrantes é 'desagradável' porque ela estigmatiza esses indivíduos”, afirma Hornbech. Ela diz que fica entristecida devido à possibilidade de a proposta vir a transmitir uma mensagem de que os imigrantes têm menos valor do que os dinamarqueses. Além disso, os imigrantes poderão ser tratados com antipatia no local de trabalho, já que os colegas poderão achar que eles estão provocando uma redução de salários. O Venstre é um partido centro-liberal, mas partidos da esquerda dinamarquesa também se distanciaram da ideia.

Enquanto isso, o ministro das Finanças da Dinamarca, Claus Hjort Frederiksen, também do Venstre, procurou ficar em cima do muro. O presidente Lars Løkke Rasmussen – o líder do partido Venstre – também não expressou qualquer opinião a respeito da proposta.

Mas a populista agremiação de direita Partido do Povo Dinamarquês, que apoia a coalizão governamental nas votações no parlamento, tem uma opinião clara sobre a questão – mas uma opinião que não é bem articulada, já que isso poderia indicar apoio ao tratamento igual aos imigrantes.

Søren Espersen, um parlamentar do Partido do Povo Dinamarquês, chamou o esquema de “discriminação” na estação de televisão TV2 da Dinamarca. Segundo ele, o “dinamarquês comum” também teria dificuldade em encontrar trabalho caso a proposta fosse implementada.

Mesmo que o objetivo deles não seja expressar solidariedade aos imigrantes que chegam à Dinamarca, os populistas de direita poderão na verdade fazer com que o debate público sobre o polêmico plano seja paralisado.

Tradutor: UOL

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