'Não vou fugir como Thaksin', diz ministro tailandês das Relações Exteriores

Sandra Schulz e Thilo Thielke

Os protestos em Bancoc foram dispersados, mas o ódio de classes continua. Como a Tailândia resolverá sua crise? A “Spiegel Online” falou com o ministro tailandês das Relações Exteriores, Kasit Piromya, a respeito do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, o exército, a censura na mídia -e um rei que tem permanecido notadamente em silêncio.

Spiegel: Sr. Kasit, o mundo não esqueceu as imagens da inquietação sangrenta na Tailândia. Na época parecia que a Tailândia estava à beira da guerra civil. Que medidas o governo está tomando para reconciliar os dois campos políticos?

Quem é Kasit Piromya

  • Kasit Piromya, nascido em 1944, é o ministro das Relações Exteriores da Tailândia. Após estudar Direito, ele ingressou no serviço diplomático e já foi designado para a Bélgica, União Soviética, Indonésia, Alemanha, Japão e Estados Unidos.

    O rei Bhumipol o nomeou ministro das Relações Exteriores no governo do primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva, em dezembro de 2008.

Kasit: Não se trata de uma questão de dois campos. A interpretação de um país dividido não reflete a situação real na Tailândia. Em vez disso, ela foi criada há apenas seis meses pelos líderes do protesto para incitar as pessoas a participarem das manifestações contra o governo. Os Camisas Vermelhas protestavam visando apoiar o ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, para trazê-lo de volta à Tailândia sem que cumprisse a pena de prisão que recebeu por corrupção e conflito de interesse enquanto ocupava seu cargo.

Spiegel: Além da postura política em relação a Thaksin, os agricultores do norte acreditam que não estão se beneficiando do crescimento econômico do país.
Kasit:
Nos últimos 30 anos, nós passamos por um crescimento da classe média e um aumento da urbanização na Tailândia. A pobreza foi enormemente reduzida. Se você analisar isso estatisticamente, os números mais recentes da ONU mostram que o nível de desigualdade econômica na Tailândia não difere do de outros países em desenvolvimento e é até melhor do que o de alguns países desenvolvidos. Dito isso, em toda sociedade sempre há pessoas insatisfeitas.

Spiegel: Qual é sua explicação para os protestos?
Kasit:
A interpretação marxista-leninista foi usada por alguns líderes do protesto para pintar um quadro de desigualdade na sociedade tailandesa -entre ricos e pobres, áreas rurais e urbanas- para atrair simpatizantes. Essa noção também foi aceita pela mídia esquerdista ao redor do mundo.

Spiegel: Mas os manifestantes em si não são marxistas.
Kasit:
Alguns de seus líderes são. De fato, alguns são ex-membros do Partido Comunista da Tailândia.

Spiegel: Como os líderes tiveram sucesso em conseguir tamanho apoio?
Kasit:
O protesto é coordenado, organizado e financiado por Thaksin e seu pessoal. Não é algo que aconteceu naturalmente como em outros países, onde as manifestações são espontâneas, como na Grécia.

Spiegel: Talvez os Camisas Vermelhas tenham aprendido com os Camisas Amarelas? Os Camisas Amarelas ocuparam o aeroporto de Bancoc.
Kasit:
Os Camisas Amarelas protestavam contra o governo de Thaksin por causa da corrupção. Os Camisas Vermelhas protestam contra este governo em particular, visando ajudar Thaksin. As duas causas não são iguais.

Spiegel: Eles culpam o governo das mesmas coisas.
Kasit:
Os problemas enfrentados pela sociedade tailandesa se acumulam há anos. Apesar de não terem começado durante nosso governo, nós estamos tentando resolvê-los de modo sustentável.

Spiegel: Qual é o mal da Tailândia?
Kasit:
Ética e questões de boa governança. A interferência do dinheiro na política. E aquele que instigou toda essa corrupção foi o ex-primeiro-ministro, que atualmente está viajando pelo mundo com passaportes estrangeiros.

Spiegel: Não seria melhor realizar novas eleições?
Kasit:
Por que não? Mas primeiro as condições devem ser propícias.

Spiegel: E quanto às eleições em novembro?
Kasit:
No início de maio, o primeiro-ministro ofereceu realizar eleições antecipadas em novembro se todos os lados aceitassem seu plano de reconciliação, mas Thaksin recusou. E então ele deu início a essa insurreição armada.

Spiegel: Não há mais conversa sobre eleições em novembro?
Kasit:
Não. Isso agora não está mais na mesa já que os líderes do protesto rejeitaram o plano de reconciliação do primeiro-ministro. Mesmo assim o governo está dando andamento ao seu plano de cinco pontos, e comitês já foram montados. Todos podem participar da construção de uma nova Tailândia.

Spiegel: Mas muitos na mídia estão sendo censurados, como Prachathai.
Kasit:
Bem, se for uma mídia que fica promovendo campanhas de ódio e veiculando notícias que violam a vida privada dos outros...

Spiegel: Então vocês acham que é necessário bloquear milhares de sites?
Kasit:
Esses sites estão atacando o primeiro-ministro e a família real de uma forma muito imprópria. Isso seria permitido na Alemanha?

Spiegel: O governo alemão não bloqueia milhares de sites.
Kasit:
A mídia alemã não usa linguagem imprópria como a mídia tailandesa.

Spiegel: O senhor acha que algum progresso foi conseguido com o plano de reconciliação?
Kasit:
Todos os comitês já foram estabelecidos para promover a reconciliação e a reforma de acordo com o roteiro de cinco pontos do primeiro-ministro, incluindo uma apuração independente, reforma econômica e social, questões de mídia e emendas constitucionais. Eles terão que apresentar as recomendações até o final do ano. Mas ao mesmo tempo, é preciso perguntar a Thaksin quando ele vai parar de contratar empresas de consultoria em Londres e Washington para promover campanhas na mídia e distorcer as notícias.

Spiegel: Por que o governo teme Thaksin?
Kasit:
Nós não temos medo dele. Ele fugiu. Ele teme a lei. Mas ele tem instigado a inquietação e tenta derrubar o governo de forma inconstitucional. Eu não fugi de meus casos na Justiça. Há muitos casos contra mim. Eu não estou foragido sob fiança.

Spiegel: Qual é o papel que o rei pode exercer neste processo de reconciliação?
Kasit:
Ele está acima da política.

Spiegel: Muitas pessoas dizem que ele tem poder de unir o povo.
Kasit:
Esta não é sua obrigação constitucional.

Spiegel: Qual é o papel da monarquia na Tailândia?
Kasit:
É o símbolo do país.

Spiegel: Nos Estados Unidos, o senhor disse: “Eu acho que temos que discutir a instituição da monarquia, como ela teria que reformar a si mesma para o mundo moderno globalizado”. Como a monarquia deveria reformar a si mesma?
Kasit:
A instituição da monarquia é uma que se autodesenvolve. Sua Majestade, o Rei, introduziu a filosofia da suficiência econômica para o povo tailandês enfrentar os desafios globais, ele tem muitos pensamentos a respeito da preservação do meio ambiente. Quanto ao problema da lei de “lèse majesté” (nota do editor: a legislação que proíbe insultos contra a família real), há cerca de seis meses, quando ocorreram críticas internacionais à lei, nós criamos um comitê consultivo para orientar o departamento de polícia, visando impedir interferências políticas ou que a lei fosse usada para fins políticos.

Spiegel: Então ocorreram abusos no passado?
Kasit:
É claro que ocorreram abusos! Muitas pessoas cometeram abusos em todos os lados. Um dos líderes da oposição me acusou de “lèse majesté” por causa do meu discurso em Washington. Agora terei que responder a um tribunal.

Spiegel: Ocorreram 18 golpes militares desde 1932. É possível realmente chamar a Tailândia de uma democracia?
Kasit:
Essa é uma pergunta injusta. Leva muito tempo para se tornar uma sociedade plenamente democrática. Nós estamos lutando com nós mesmos. Dito isso, apesar dos desafios que enfrentamos, nós nunca nos desviamos demais da estrada para a democracia, que é o que o povo tailandês deseja. Olha para a Alemanha: como vocês acabaram com Hitler?

Spiegel: Você está comparando Thaksin com Hitler?
Kasit:
Bem, é minha opinião política. Ele pode me atacar. Ele interferiu no processo judicial. Ele misturou negócios com política, ele nomeou seu primo como chefe do exército. Ele nomeou seus amigos para todos os órgãos independentes. Ele começou a monopolizar as atividades econômicas. Ele estava a caminho de obter o poder absoluto.

Spiegel: Por isso o senhor o chama de terrorista?
Kasit:
Por suas ações, ele é um terrorista segundo a lei tailandesa.

Spiegel: Ele usou armas para derrubar o governo?
Kasit:
Ele apoiou pessoas. Não deveria haver diferença entre atirar nas pessoas você mesmo e fazer com que outras pessoas atirem por você.

Spiegel: Durante esse conflito, mais de 80 pessoas morreram, mais de 2 mil pessoas ficaram feridas. Acredita-se que muitas foram baleadas pelo exército...
Kasit:
Eu não sei a respeito disso. É preciso aguardar pelos resultados da investigação. Nós não temos nada a esconder. Vamos deixar que a verdade apareça. Mas não se deve pré-julgar o resultado da investigação. Não vamos especificar que o exército matou pessoas sem evidências.

Spiegel: O que o senhor acha? Quem atirou nas pessoas, se não o exército?
Kasit:
Olhe para a história alemã: o que aconteceu quando Joschka Fischer esteve nas ruas de Frankfurt? Não ocorreram disparos naquela época? Também é possível que os Camisas Vermelhas estivessem atirando contra si mesmos visando culpar o governo.

Spiegel: Quais poderiam ser as consequências políticas do resultado da investigação? O senhor acha que o governo poderia renunciar?
Kasit:
Nós somos um país com Estado de Direito. Não somos uma república de banana. O processo judicial prosseguirá e o profissionalismo de nosso processo judicial não fica a dever ao de ninguém. Não tenha dúvida a respeito disso.

Spiegel: Nós estamos falando sobre responsabilidade política.
Kasit:
Se houver um julgamento e se o primeiro-ministro estiver errado, ele irá para a prisão. Se eu estiver errado, então eu irei para a prisão. Eu não vou fugir como Thaksin.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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