"Precisamos de mudança em Cuba", diz Marieta Castro

Manfred Ertel

  • AFP

    Os sete ex-presos políticos em Cuba foram os primeiros dos 52 autorizados a deixar o país

    Os sete ex-presos políticos em Cuba foram os primeiros dos 52 autorizados a deixar o país

Marieta Castro, filha do presidente cubano, fala sobre reformas econômicas e direitos humanos em seu país, seu relacionamento com a família e a revolução sexual em Cuba.

Pergunta: A senhora propõe uma política moderna de Aids e sexualidade, um tipo de política que se vê mais nas democracias modernas. Será este um arauto de reformas e de uma liberalização atrasadas em Cuba?


Marieta Castro: Pode ser.

Pergunta: Por que estão levando um tempo tão infinitamente longo? Até o presidente, seu pai, admite abertamente que a situação, na agricultura por exemplo, está pior do que jamais esteve. Ele criticou fortemente a ineficiência das operações estatais. Em outras palavras, as reformas são críticas para a sobrevivência de Cuba.


Castro:
Nosso povo defende a forma de socialismo cubano, mas agora (a situação) deveria ser melhor que antes. Somos suficientemente autocríticos para saber disso e saber que nosso povo quer mais flexibilidade e liberalidade. Como isso pode acontecer agora é assunto de discussão em muitos comitês. É um processo lento, mas algo está se movendo.

Pergunta: Não há muitas evidências disso.


Castro: Ainda assim, se move, como disse Galileu. Mas temos que ser cuidadosos. Cuba é um país que sempre teve inimigos e agora está sob pressão de grupos poderosos nos EUA, que buscam dominar nosso país economicamente.

Pergunta: Muitos membros da oposição perderam a paciência. Em fevereiro, o dissidente preso Orlando Zapata morreu após uma greve de fome de 85 dias, com a qual buscava obter a soltura de outros presos políticos. Os governos dos EUA e da União Europeia criticaram fortemente o comportamento de Havana.

Castro: Não havia um fundo político para aquela greve. Zapata queria obter privilégios pessoais na prisão: um telefone, uma televisão e uma cozinha. É claro que ninguém queria que ele morresse, mas as pessoas no exterior, em Miami, estimularam-no a prosseguir e manter sua campanha até o fim. Ele foi usado para uma campanha da mídia contra Cuba.

Pergunta: A senhora está simplificando a questão. Mesmo artistas cubanos renomados muitas vezes fazem campanha contra as restrições à liberdade de expressão. O compositor e cantor popular Pablo Milanês, por exemplo, recentemente fez um apelo ao regime quando disse: “Pode-se discutir e combater ideias, mas não trancá-las”.

Castro: Ninguém é punido por liberdade de expressão em Cuba. Se pensamentos livres e inconvenientes fossem um crime em nosso país, eu teria sido uma boa candidata à prisão, com minha defesa pela autodeterminação sexual. Essas pessoas estão na prisão porque são mercenárias pagas por Washington.

Pergunta: Se todos fossem verdadeiramente culpados de traição, vocês não poderiam soltá-los tão facilmente. Alguns dos 52 presos políticos acabam de ser libertados.


Castro: Esta não é a primeira vez que mercenários e terroristas tiveram permissão de emigrar após negociações políticas. Isso mostra que Cuba está sempre disposta a ter conversas razoáveis. Mas tomamos nossas próprias decisões.

Pergunta: O governo de Cuba é o único no mundo a ter essa opinião de que são mercenários e terroristas. Sem reformas, como vocês pretendem deter o êxodo de jovens cubanos com boa formação?

Castro: Cuba é um país pobre. A maior parte dos cubanos que saem só fazem isso porque encontram melhores condições econômicas fora. Por isso precisamos de mudanças. Temos que oferecer incentivos para manter as pessoas aqui. Temos que criar políticas mais atraentes para os jovens, para que a permanência deles também faça sentido econômico. Precisamos de crescimento e melhor qualidade de vida para todos.

Pergunta: Acima de tudo, vocês precisam de maior liberdade: por exemplo, telefones celulares melhores e uso ilimitado e acessível de Internet e novas mídias.

Castro: Os cubanos são curiosos, como as pessoas no resto do mundo. Queremos experimentar tudo, mas também queremos decidir por nós mesmos o que é bom para nosso país e o que não é.

Pergunta: Por que Cuba é tão audaciosa em relação aos direitos dos homossexuais? Afinal, seu tio, o líder revolucionário Fidel Castro, alegou que o homossexual não tinha a “força de caráter de um revolucionário”.

Castro: A luta bem sucedida por direitos iguais do movimento das mulheres abriu a porta para combater ofensivamente outros preconceitos em nossa sociedade. É como uma nova revolução, que Fidel também teve que reconhecer.

Pergunta: Há alguma razão pessoal para sua campanha pelos direitos de gays e lésbicas em particular?

Castro: Para mim, a orientação sexual é um direito humano, que também deve ser aceito pela ONU. É claro que inovações nesta área provocam contradições, especialmente em uma sociedade como a nossa, que tem tantos processos revolucionários.

Pergunta: Os revolucionários de Cuba sempre gostam de se ver no papel de matadores de mulheres e verdadeiros machos. Eles eram homofóbicos?

Castro: Não mais do que outros em outras sociedades da época na Europa e nas Américas. Os ideais de nossa revolução eram muito progressivos em algumas frentes, mas não em outras.

Pergunta: Por muitas décadas, os homossexuais em Cuba eram enviados para campos de reeducação. Até hoje, a polícia ainda conduz batidas em locais populares entre gays. As reformas ainda não se sedimentaram?


Castro: A polícia nem sempre age com métodos totalmente legais. Por isso ainda temos tanto trabalho à frente, inclusive o de educar a polícia.

Pergunta: Seu sucesso se deve ao nome de sua família?

Castro: Não sei. É claro que houve e ainda há resistência no Partido, assim como há oposição na população e por parte de algumas igrejas. E algumas vezes é justamente o nome Castro que provoca a oposição.

Pergunta: Por que a senhora retirou um projeto de lei para legalizar as parcerias de mesmo sexo para homens e mulheres? Ele ia longe demais para seu pai?

Castro: Não, ele compreendia e apoiava o projeto. Mas há pessoas em seu ambiente e em alguns corpos governantes da Igreja que não entendem. Continuamos na luta. Onde há pessoas, há diferenças sexuais e homossexualidade, mesmo no Partido Comunista. Os opositores devem reconhecer que nossa política também beneficia muitos membros do Partido, permitindo que eles tenham carreiras políticas.

Pergunta: A senhora discute política com seu pai, Raul?


Castro:
Tínhamos mais tempo para conversar sobre política antes de meu pai se tornar presidente. Ele me apoiava em meu trabalho na época, mas agora ficou muito mais difícil. Ele tem o direito de dizer: esta luta é sua, e você tem que vencê-la sozinha.
Pergunta: Como está seu tio? Ainda está envolvido em política?

Castro:
Não vejo Fidel desde que adoeceu. Mas meu pai conta que está muito melhor. Também estiveram com ele alguns visitantes estrangeiros.

Pergunta: O jornal do partido, Granma, regularmente publica as “reflexões” controversas dele. Recentemente, ele previu o fim prematuro da Copa do Mundo, porque achava que haveria uma guerra contra o Irã.

Castro: Ele ainda tem muita energia. Ele escreve muito e, se as coisas seguissem o desejo dele, ainda estaria mudando o mundo. Mas ele está cada vez menos envolvido na política diária. Há outros que fazem isso agora.

Pergunta: Aos 79, seu pai Raul não é exatamente muito jovem tampouco. A senhora se imaginaria sendo sua sucessora política?


Castro:
Não. Fiz meu papel na política, profissionalmente e como cidadã. Meus pais até me impediram de ser nomeada para outras tarefas, porque a política também é muito estressante emocionalmente. Suponho que queriam me proteger.

Pergunta: Como será Cuba após a era Castro?

 

Castro: Espero que o bloqueio econômico, financeiro e comercial contra Cuba seja suspenso, para que a economia e os salários possam crescer. Mas também espero que não comprometamos nossa independência e nos tornemos fracos e que nunca traiamos nossos ideais de igualdade e justiça social. Por isso lutaram nossos pais, e devemos isso a eles.

Tradutor: Deborah Weinberg

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