Quem é o responsável pela tragédia da Love Parade?

Jörg Diehl, Florian Gathmann, Barbara Hans e Julia Jüttner

  • AP

    Imagem de canal de TV mostra participantes da Love Parade subindo morro em momento de pânico

    Imagem de canal de TV mostra participantes da Love Parade subindo morro em momento de pânico

Quem pode ser responsabilizado pelo desastre ocorrido na Parada do Amor em Duisburg? Quatro dias após o festival, ninguém ainda assumiu responsabilidade pelo ocorrido. “Spiegel Online” identificou as principais questões referentes ao episódio e tentou fornecer respostas para elas. Entre todas as contradições, desculpas e mentiras, já está claro que nenhum indivíduo que ocupa cargo de autoridade está inteiramente isento de culpa.

O número de mortos do desastre ocorrido na Parada do Amor, no último sábado, em Duisburg, subiu para 21 na quarta-feira (28/07), quando uma mulher de 25 anos de idade morreu devido aos ferimentos que sofreu durante o tumulto, segundo informou o procurador estadual de Duisburg, Rolf Haverkamp.

Enquanto isso, o prefeito de Duisburg, Adolf Sauerland, que tem sido alvo de uma enxurrada de críticas devido à organização inadequada do evento, anunciou que não participará da cerimônia em memória às vítimas no próximo sábado. Um porta-voz da prefeitura de Duisburg afirmou que o prefeito não deseja “ferir os sentimentos dos familiares das vítimas ou provocá-los com a sua presença”. Mas acredita-se que preocupações relativas à sua segurança também influíram na decisão do prefeito. Segundo reportagens publicada na mídia, foram registradas ameaças de morte contra ele.

Quatro dias após o desastre, a Alemanha quer saber quem é o responsável pela tragédia. Mas os políticos, a polícia, o governo municipal e os organizadores do evento não estão fornecendo respostas para essa questão. Em vez disso, eles estão trocando acusações entre si.

“Spiegel Online” reconstruiu os fatos grotescos que se seguiram ao evento no qual 21 pessoas morreram e mais de 500 foram feridas, esmagadas e pisoteadas porque a única entrada para a Parada do Amor, através de um túnel, transformou-se em um gargalo letal e também porque as autoridades subestimaram drasticamente o número de visitantes que participariam do festival.

Os fatos parecem refutar aquilo que as autoridades vêm dizendo a respeito de quase todas as questões centrais relacionadas ao desastre de Duisburg:

Por que houve tamanho congestionamento?

O organizador da Parada do Amor, Rainer Schaller, que também é dono do principal patrocinador, a rede de academias de ginástica McFit, fez sérias acusações contra a polícia. Schaller, 41, afirmou que o desastre foi desencadeado por uma “ordem fatal” dada pela polícia no sentido de que fosse aberta a extremidade oeste do túnel. Antes disso, os organizadores tinham fechado dez dos 16 portões que davam acesso à entrada devido ao risco de que o festival recebesse um excesso de pessoas, explicou Schaller.

A polícia de Colônia, que assumiu os trabalhos de investigação, afirmou que as críticas feitas aos seus colegas de Duisburg são prematuras. “Neste momento, nós ainda não podemos dizer qual foi o fator que desencadeou todo o episódio. Ainda não é possível determinar seriamente o que provocou isso”, informou uma porta-voz da polícia de Colônia. “Nós preferiríamos que o senhor Schaller não fizesse especulações”.

Policiais que estavam trabalhando no evento disseram a “Spiegel Online” que tiveram a impressão de que os seguranças que identificavam os convidados na entrada perderam o controle devido ao tamanho da multidão, e que isso provocou o congestionamento maciço de pessoas dentro do túnel e na rampa que liga o túnel ao local do festival, em uma estação de trens de carga desativada.

“Todos estavam aguardando ordens, mas ninguém recebeu ordem alguma”, disse um dos 1.080 seguranças ao jornal “Bild”. “Subitamente, havia corpos por toda parte. As saídas de emergência no topo da rampa só foram abertas pela polícia quando já era muito tarde para evitar a tragédia”, disse o segurança ao “Bild”.

O sistema de comunicação falhou?

Bombeiros e policiais que estavam de serviço em Duisburg no sábado disseram que tiveram problemas com os seus rádios analógicos. A comunicação entre os policiais foi no mínimo difícil, e em determinados momentos impossível. Teria havido uma falha no sistema de comunicação? Será que os policiais que estavam nas entradas do túnel não sabiam que havia pessoas sendo esmagadas na rampa? Até o momento ninguém quer fazer comentários quanto a essas questões.

“Os rádios utilizados pelos policiais são, em alguns casos, tão velhos que não se consegue sequer peças de reposição para eles”, diz Andreas Nowak, membro da federação de polícia do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, onde fica Duisburg. Os policiais viram-se repetidamente em zonas de silêncio de rádio, que estavam fora de alcance para recepção e transmissão, e não podem ser alcançadas durante emergências. “Os policiais levam consigo frequentemente telefones celulares próprios, porque esta é a única maneira de se comunicarem com os seus colegas”, explicou Nowak. Mas a rede de telefonia celular entrou em colapso no sábado, de forma que isso também não teria ajudado em nada.

Qual era o tamanho da multidão?

A cada dia surgem novas estimativas. O porta-voz da polícia de Duisburg, Ramon van der Maat, disse que havia no máximo entre 300 mil e 400 mil pessoas no sábado no festival ou a caminho dele. Já o organizador da Parada do Amor, Rainer Schaller, declarou que havia apenas 187 mil visitantes no local do festival.

O ministro do Interior do Estado da Renânia do Norte-Vestfália afirmou na última segunda-feira que havia 350 mil pessoas na cidade e 120 mil no local do festival.

“A estimativa de 1,4 milhão de pessoas que estariam em Duisburg, fornecida por Schaller e pelo prefeito, Adof Sauerland, no dia do desastre, é matematicamente impossível”, afirmou van der Maat, o porta-voz da polícia. “Teria sido impossível que tanta gente chegasse à cidade em um intervalo de tempo tão curto com as opções de transporte disponíveis. E não havia espaço suficiente na estação de trem para acomodar uma multidão desse tamanho”. O local tem uma área de 230 mil metros quadrados, mas a metade dela consiste de prédios.

A polícia segue uma estimativa baseada no fato de que até quatro pessoas podem ficar de pé, apertadas, em uma área de um metro quadrado. Fotos aéreas feitas no sábado mostraram que o terreno em que foi realizado o festival não estava completamente lotado, de forma que estimativas de cerca de 200 mil pessoas parecem ser plausíveis.

Houve também estimativas extremamente divergentes do número de visitantes em Paradas do Amor anteriores. Em 2006, em Berlim, os organizadores do evento calcularam que o número de ravers era de cerca de 1.2 milhão. A estimativa da polícia foi de 500 mil pessoas.

Em 2008, a cidade de Dortmund gabou-se de que 1,6 milhão de pessoas participaram da sua Parada do Amor – o que seria um recorde. Mas esse número também foi questionado. Os jornais de Dortmund estimaram que havia cerca de metade dessa quantidade de pessoas no festival.

Quantos policiais havia em Duisburg?

As estimativas do número de policiais presentes em Duisburg naquele dia fatídico também variam. “Spiegel Online” descobriu que um total de 2.200 policiais estavam presentes no evento. Mas o ministro do Interior da Renânia do Norte-Vestfália assegurou que havia 4.000. Já a polícia de Duisburg garante que 3.000 policiais estavam no local. De qualquer maneira, o número de policiais disponíveis parece pequeno em relação às centenas de milhares de visitantes, especialmente porque acredita-se que muitos destes indivíduos estavam intoxicados com drogas e álcool. “O clima era explosivo desde o início”, disse um policial a “Spiegel Online”. “Muitos dos ravers pareciam estar drogados”.

Advertências prévias

Um oficial de polícia da cidade de Colônia que inspecionou o local antes do festival disse ao jornal “Express”: “Foram conduzidas 12 ou 13 inspeções. E em todas as vezes que estivemos lá nós concluímos que o plano resultaria em caos, e que pessoas sairiam feridas e mortas”, disse ele. Mas as advertências deles foram ignoradas. “Nos responderam sempre que essa questão não estava aberta a discussões. O governo municipal estava determinado a prosseguir com o plano da Parada do Amor”.

Segundo reportagens de jornais, o comandante da brigada de incêndio local advertiu o prefeito em uma carta, em outubro de 2009, que o local era “fisicamente inapropriado” para um evento de tal magnitude.

Michael Böcker, o diretor do sindicato de brigadas de incêndio do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, disse a “Spiegel Online”: “As regulamentações referentes aos locais de reunião de pessoas foram criminosamente ignoradas. As pessoas que assinaram a aprovação são as responsáveis pelo que aconteceu”.

O prefeito Adolf Sauerland, que está agora sob proteção policial devido a ameaças que foram feitas contra ele, disse ao jornal “Rheinische Post” na terça-feira: “Eu não estou sabendo de advertência nenhuma”.

Acusações contra o prefeito

O portal da Internet DerWesten.de anunciou na terça-feira que Sauerland foi informado sobre as preocupações dos policiais quatro semanas antes da Parada do Amor. O website publicou aquilo que, segundo ele, seriam minutas de uma reunião na qual as objeções ao plano da prefeitura foram feitas e também enviadas a Sauerland.

Segundo o DerWesten, as minutas documentam uma reunião em 18 de junho entre os organizadores da Parada do Amor, a brigada anti-incêndio, o departamento municipal de saúde e segurança e Wolfgang Rabe, a principal autoridade encarregada de saúde e segurança de Duisburg. Houve discórdia quanto às saídas de emergência disponíveis. A transcrição das minutas indicam que Rabe, na reunião, pressionou o departamento de planejamento e construções no que se refere à execução das obras para o festival. “O senhor Rabe afirmou na ocasião que o prefeito desejava que o evento ocorresse, e que uma solução deveria ser encontrada para isso. Ele não aceitou as demandas do departamento de planejamento e construções de que o organizador deveria apresentar um projeto apropriado”, dizem as transcrições, segundo o DerWesten.

O diretor das obras para a Parada do Amor, Jürgen Dressler, escreveu nas transcrições que rejeita qualquer responsabilidade pelo evento. “Isso não representa de forma alguma um comportamento administrativo ordeiro e um planejamento apropriado”, escreveu ele à mão na transcrição.

Uma porta-voz da prefeitura de Duisburg recusou-se na terça-feira a tecer comentários sobre essas transcrições.

Como foi que as vítimas morreram?

Segundo Hannelore Draft, a nova governadora do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, todas as vítimas foram esmagadas até a morte. “Todas as 20 vítimas (nota do editor – o número de mortes já subiu para 21) morreram devido à compressão ou ao esmagamento do tórax”, informou ela na terça-feira. Essas conclusões refutam alegações iniciais de que as mortes teriam sido provocadas por queda de uma escada estreita que dava acesso à rampa. Sauerland sugeriu que as pessoas morreram ao cair.

Tradutor: UOL

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