Anarquia no Daguestão: Islâmicos conseguem predomínio na República russa

Matthias Schepp

No Daguestão (Federação Russa)

Em nenhum lugar da Rússia a situação é tão explosiva quanto nesta república autônoma do Daguestão. Uma rebelião islâmica mergulhou a região, já atacada pela corrupção, em uma quase guerra civil. Algumas autoridades russas de alto escalão acreditam que levará anos para derrotar os extremistas, se é que será possível.

Um velho volta para casa pelas ruas estreitas e empoeiradas de Gubden, levando no bolso da calça a última lembrança do filho assassinado. A foto de seu filho mais velho, que o homem guardou no telefone celular, mostra um buraco junto de seu olho esquerdo. "Eles o mataram quando ele não podia mais se defender", diz o homem, que se chama Magomedshapi Vagabov.

Vagabov tira o gorro cinzento de lã de carneiro. Sua casa fica à sombra de uma mesquita que se ergue como uma fortaleza sobre Gubden, uma aldeia nas montanhas do Daguestão, república russa na região do Cáucaso. Representantes do governo central em Moscou raramente vêm a Gubden sem a proteção de veículos blindados e helicópteros. Não é a lei criminal russa, mas a lei islâmica xariá que se aplica nesta aldeia de 4 mil habitantes, muitos dos quais simpatizam com os rebeldes islâmicos que há mais de uma década tentam estabelecer uma teocracia que se estenderia do mar Negro ao mar Cáspio.

Cerca de 9 milhões de pessoas vivem nas repúblicas russas autônomas do norte do Cáucaso. Desde o colapso da União Soviética, todas essas repúblicas, especialmente a Chechênia, foram abaladas pelo terrorismo e a guerra. Mas em nenhum lugar a situação é tão explosiva hoje quanto no Daguestão. Essa faixa de terra desesperadamente pobre na margem ocidental do mar Cáspio, que é menor que o estado americano da Virgínia Ocidental, abriga várias dezenas de grupos étnicos que discordam do governo sobre delimitações e pastagens, enquanto uma insurgência islâmica trava a guerra contra Moscou e o governo do Daguestão controlado pela Rússia.

Quase ingovernável
A resistência contra as campanhas militares das tropas czaristas começou no Daguestão há mais de 150 anos. A Rússia precisou de uma força de mais de 300 mil homens para finalmente subjugar a região, depois de uma guerra que durou cerca de 30 anos. O espírito da resistência continua dominando a república hoje. Duas décadas depois do colapso da URSS, o caos predomina no Daguestão, principalmente por causa das atividades dos islâmicos radicais. A república do Cáucaso tornou-se quase ingovernável.
Daqui a menos de quatro anos o mundo se reunirá na região para as Olimpíadas de Inverno de 2014, que serão realizadas na cidade de Sochi. O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, insiste que não haverá problemas, mas seu Ministério do Interior acaba de relatar que o número de ataques terroristas no norte do Cáucaso mais que duplicou. Na última quarta-feira, homens armados invadiram uma usina hidrelétrica na república de Kabardino-Balkar, onde detonaram três bombas. Às vezes os ataques atingem a capital russa. No final de março, um grupo de jovens mulheres-bomba do Daguestão se explodiu no metrô de Moscou, matando a si mesmas e a outras 40 pessoas.

Na capital do Daguestão, Makhachkala, há relatos diários de ataques. Somente nas últimas duas semanas, um juiz graduado, um padre cristão, três policiais e um prefeito foram mortos a tiros; policiais ficaram feridos quando uma bomba explodiu e outra causou o descarrilamento de um trem.

"Meu filho pregava o islã puro"
Magomedali, o filho de Vagabov, o velho de Gubden, também se tornou uma baixa da guerra civil quando foi vítima de uma emboscada em 18 de julho de 2007. A polícia suspeitava que ele fosse um rebelde e ordenara que ele comparecesse para interrogatório na capital do distrito, Karabudakhkent. Quando ele voltava para casa, atacantes desconhecidos abriram fogo contra seu velho automóvel Lada.

Magomedali foi ferido, mas não seriamente, como os médicos relataram mais tarde. Foi levado para o hospital de Karabudakhkent, que a polícia havia isolado. Eles nem sequer permitiram que seu pai o visitasse. Quando o velho Vagabov finalmente viu seu filho ele já estava morto, com um buraco de bala perto do olho.
"Tudo o que meu filho fazia era pregar o islamismo puro", diz Vagabov. "Ele não era um rebelde."

Desde a morte de Magomedali Vagabov, o conflito entre o governo e os islâmicos em Gubden se expandiu para uma guerra entre clãs locais.

Solução com as próprias mãos
Vagabov aponta para um buraco do tamanho de um punho na parede de sua sala. Um policial da aldeia foi morto pouco depois da morte de seu filho. A família do policial imediatamente supôs que o clã Vagabov fosse o culpado e decidiu resolver a questão com as próprias mãos. O filho do policial lançou uma granada contra a casa de Vagabov, causando uma explosão tão poderosa que as janelas de seis casas próximas se partiram.
Pouco depois, o filho do policial incendiou uma casa recém-construída por parentes de Vagabov. Então a viúva e a filha do policial foram mortas por uma mina quando visitavam seu túmulo.

"Nós não tivemos nada a ver com isso", afirma Vagabov. Ele tem 85 anos e é um homem respeitado na aldeia. Mas não tem dedos suficientes nas mãos para contar as mortes em seu clã. Recentemente, tropas de elite de Moscou mataram um de seus sobrinhos em uma missão de contraterrorismo.

Moscou tenta conquistar a população
A situação no Cáucaso ainda pode ser controlada? O presidente russo, Dmitri Medvedev, apresentou um novo plano para solucionar os problemas da região. Ele quer que Moscou use outros meios para conquistar a população, que é 90% muçulmana.

Para o Kremlin, o Daguestão é a frente mais importante nessa batalha para conquistar o apoio dos caucasianos. A república de 2,7 milhões de habitantes já foi a mais movimentada do norte do Cáucaso. Uma década atrás, lá havia mais cassinos e bordéis do que mesquitas e escolas islâmicas. Muito poucas mulheres usavam lenços na cabeça, mas hoje elas são a maioria.

O presidente do Daguestão, Magomedsalam Magomedov, foi recentemente empossado por Moscou. Magomedov, cujo pai governou o Daguestão durante quase 20 anos, procura se retratar como o mais zeloso guerreiro religioso da república. Ele considera o islamismo do Daguestão "um dos mais puros do mundo" e diz que isso fica evidente nos esforços de seu governo "para erradicar os antros de jogo, drogas e alcoolismo". Ele está tentando minar as bases dos insurgentes islâmicos por meio de um programa apoiado pelo governo para melhorar a imagem do islã. O novo rumo é arriscado, porque a política governamental poderia dar errado e criar um terreno ainda mais fértil para o radicalismo.

Potência em retirada
Mas Moscou já parece uma potência ocupante em retirada. Os policiais de trânsito colocados nas principais ruas de Makhachkala têm de ser protegidos por unidades de elite do Ministério do Interior em veículos blindados. Cinquenta e oito policiais foram mortos só no ano passado. Como a polícia se tornou um alvo popular para os rebeldes, o Ministério do Interior hoje só permite que seus membros usem roupas civis para ir e voltar do trabalho. No entanto, parentes de policiais mortos se queixam da "inércia das autoridades" e, em folhetos anônimos, anunciam sua intenção de caçar pessoalmente os assassinos dos policiais.

"Eles mataram meu marido Yusup só porque ele era um policial de trânsito", diz Zumrud Vazirkhanova, segurando nos braços seu filho de 11 meses. Yusup morreu junto com outros cinco policiais quando um homem-bomba se explodiu na frente de uma delegacia em janeiro. A viúva recebeu o equivalente a 3.500 euros de indenização. Ela diz que não sabe o que vai acontecer quando o dinheiro acabar.

Na outra extremidade da cidade, Gulnara Ramazanova está sentada em sua pequena casa de dois cômodos, rodeada por seus poucos pertences. A energia é constantemente desligada, e quando isso acontece seu hijab preto, o véu que recobre o corpo inteiro, se funde com a escuridão da sala.

Um importante tablóide imprimiu recentemente sua foto, referindo-se a ela como "uma ajudante dos terroristas". Desde então, Ramazanova está desesperada para deixar a cidade. Uma placa pendurada na cerca diante de sua casa anuncia que está à venda.

Em busca de vingança
Os investigadores da polícia deixaram vazar uma lista de "viúvas negras" para o jornal. O termo é usado na Rússia para as mulheres cujos maridos ou irmãos foram mortos pelas forças de segurança, e, portanto, são suspeitas de buscar a vingança oferecendo-se para os islâmicos como mulheres-bombas. Nos últimos dez anos, as viúvas negras foram responsáveis por pelo menos 16 atentados, dois dos quais resultaram na queda de aviões.

Ramazanova entrou na mira dos investigadores por causa de seu irmão Vadim, que foi morto dois anos atrás em uma batida policial em Makhachkala. "Eles nem sequer devolvem os corpos para nós", ela diz. "Dizem por aí que eles vendem os órgãos das pessoas que matam."

Ela conta histórias da violência policial e de parentes e amigos que foram torturados com choques elétricos e com a "baklashka", uma garrafa plástica cheia de água que a polícia usa como arma especialmente dolorosa para espancar as pessoas. "Meu irmão não teve opção", diz Ramazanova. Ela insiste que ele foi levado para a insurgência porque estava constantemente sob suspeita e sofrendo o assédio das autoridades.

Um vídeo obtido pela segurança do Estado russo mostra Vadim em um apartamento. Durante 16 minutos e 7 segundos, ele dá instruções detalhadas sobre como cometer um atentado suicida. Enumera os ingredientes para um cinturão explosivo e cita uma loja em Makhachkala que vende um dos ingredientes, acetona, e outra loja onde se podem encontrar as peças para o detonador. "O mais importante é que você faça isso por Alá. Leve o caos para as fileiras dos infiéis e mate o maior número possível deles", diz Vadim, alegando a fé para cometer assassinatos.

Uma luta invencível
"Cada um tem sua própria verdade", diz um general russo que durante anos comandou o esforço de combate aos islâmicos no Cáucaso. O general, que não quer que seu nome seja citado, diz que não acredita mais que a luta contra os extremistas possa ser vencida rapidamente, apesar das dezenas de milhares de tropas de elite, policiais e agentes que hoje estão mobilizados na região. Para cada terrorista morto, diz o general com um suspiro, dois novos se erguem para ocupar seu lugar. "Vai levar anos para mudar a situação aqui."

Segundo o general, os islâmicos não podem ser controlados pelos meios normais que um Estado baseado no regime da lei tem a sua disposição. Ele acha que é ingênuo os europeus ocidentais esperarem que o islamismo radical seja forçado a recuar pela melhora das condições sociais. "Se essas pessoas tomarem o poder, vamos ter um fascismo revestido de religião", prevê o general.

Outro problema é que as frentes na república multiétnica do Daguestão são especialmente imprecisas. Além dos islâmicos, o subterrâneo consiste em uma mistura de criminosos comuns, estelionatários e falsários. Mas também é um paraíso para dependentes de drogas que não conseguem pagar suas dívidas e assassinos viciosos que temem a retaliação dos parentes de suas vítimas.

Dinheiro por proteção
A máquina de propaganda russa não se cansa de afirmar que os islâmicos são financiados do exterior. Na realidade, porém, eles geralmente levantam suas próprias verbas roubando bancos e empresas. "Der Spiegel" obteve um vídeo que mostra um grupo de rebeldes dividindo o saque depois de roubar uma loja de telefones celulares.

A extorsão em forma de "proteção" é a principal fonte de renda dos islâmicos. Em muitos casos, basta intimar a vítima com uma mensagem de texto lembrando sobre o "zakat", o princípio de dar esmolas aos pobres, descrito no Corão. Os alvos dos islâmicos vão de proprietários de padarias, quiosques e lojas de artigos esportivos até os oligarcas locais. As vítimas temem por suas vidas, mas ao mesmo tempo sentem que ao se submeter ao esquema de proteção também estão se precavendo para o caso de os islâmicos tomarem o poder em sua aldeia ou região.

Por outro lado, os agentes de Moscou tentam subornar os islâmicos com dinheiro, e assim convencê-los a voltar para o lado russo. Mas os êxitos são poucos e espaçados. O Estado secular está perdendo o atrativo, agora que o Daguestão não é mais capaz de garantir a prosperidade e a segurança de seus cidadãos.

"Corrupção sem paralelos"
"Quinze minutos bastam para você?", perguntou recentemente o ministro do Interior russo, Rashid Nurgaliyev, a um de seus oficiais que estava prestes a relatar a situação no Daguestão. Mas o coronel demorou três vezes mais para descrever uma letania de problemas, incluindo a prática generalizada de comprar o acesso a cargos públicos, assassinatos por encomenda, tomada de reféns, esquemas de proteção, tráfico de drogas e de armas. Mas o coronel não estava descrevendo as atividades de bandos criminosos: falava sobre as condições no Ministério do Interior do Daguestão.

O ministro da Justiça russo, Yury Chaika, disse em Moscou, a portas fechadas, que a culpa pelos crimes não solucionados é simplesmente atribuída aos islâmicos, que as estatísticas são manipuladas e que o "nível de corrupção não tem paralelo".

No Daguestão, subordinados relataram que o tenente-coronel Shamil Omarov, chefe de uma unidade de polícia em Makhachkala, se apossou do dinheiro da indenização para as famílias de policiais que foram mortos em ação, sob seu comando. Ele também vendeu a gasolina dos veículos policiais e pagou salários para parentes que nem sequer precisavam se apresentar para o trabalho.

Policiais estacionados na rodovia que passa pelo norte do Cáucaso receberam ordem para entregar para seus superiores US$ 2 mil das propinas que haviam recebido. Até os tribunais estão cheios de corrupção. No final de 2008, os casos envolvendo terrorismo foram retirados do sistema de julgamento por júri, porque parentes, apoiadores e defensores estavam comprando ou intimidando os jurados.

Conversão ao islamismo
Os problemas sociais no Daguestão também estão se mostrando excessivos para a Rússia solucionar. Cerca de 18.500 estudantes se formam nas universidades locais a cada ano, mas somente um em cada seis encontra trabalho. O Daguestão, que tem um índice de desemprego oficial de 20%, está em 79º entre os 83 membros da Federação Russa em termos de desemprego. A situação hoje é tão desesperadora que os jovens do Daguestão não pagam para deixar de prestar o serviço militar obrigatório, uma prática comum no restante do país. Em vez disso, pagam US$ 500 para ser recrutados.

No Bon Appetit, no centro de Makhachkala, provavelmente o café mais moderno do Daguestão, rapazes sentam-se à mesa perto da vitrine na hora do almoço. Bem vestidos e penteados, eles esperam pelas estudantes da escola de magistério vizinha. A metade das meninas usa lenços na cabeça, mas a outra metade veste minissaias e sapatos de salto.

Amina, a gerente do café, também usa um lenço cinza na cabeça. Um ano atrás ela trabalhava para um dono de restaurante milionário na sofisticada Moscou, mas então mudou-se para o Daguestão. Mesmo aqui no Bon Appetit, um oásis de estilo de vida ocidental em Makhachkala, a Rússia parece estar em baixa. Amina, que era cristã ortodoxa, se converteu ao islamismo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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