Exclusivo para assinantes UOL

A luta virtual de um jovem contra a deportação

Uwe Buse

Um jovem de 19 anos foi deportado dos Estados Unidos, onde morou a maior parte da sua vida, para Bangladesh, juntamente com a sua família, em janeiro deste ano. Agora ele está lutando para poder voltar ao Texas – e a arma que escolheu para isso foi o YouTube. O quarto pouco mobiliado contém uma cama, um armário, uma mesa de trabalho e um laptop. O aposento não parece muito acolhedor. Na verdade, o quarto parece mais um abrigo temporário, como se o seu ocupante, Saad Nabeel, estivesse apenas de passagem. Saad, um rapaz magro e frustrado, de 19 anos de idade, com um corte de cabelo no estilo dos Beatles, está sentado na cama. Ele espera que a energia elétrica volte após mais um apagão, para que possa reiniciar o laptop e voltar à Internet. Esta é a sua conexão com os Estados Unidos e com a sua vida antiga – uma vida que era significativamente melhor do que a atual em Bangladesh. Na sua vida antiga Saad tinha amigos e uma bolsa de estudos, e estudava em uma faculdade. Em outras palavras, ele tinha um futuro. Aqui em Dhaka, a capital bengalesa, o que ele mais tem é tempo – tempo de sobra. “Eu peço ajuda a vocês” Ele usa esse tempo para fazer uploads de vídeos para o YouTube e outros sites da Internet. Os vídeos o mostram neste quarto, contra uma parede branca, usando uma camiseta com a foto de John Lennon. São vídeos que ele espera que o mundo todo veja. Neles, Saad diz o quanto deseja voltar para casa. Saad pede ajuda, e solicita às pessoas que façam contato com ele via Facebook. “”Eu peço ajuda a vocês”, diz ele, falando inglês com um sotaque estadunidense. Ele ainda passa grande parte do seu tempo no país em que morava, só que agora Saad faz isso virtualmente. Em troca, Saad recebe vídeos nos quais adolescentes norte-americanos falam sobre ele. Uma das adolescentes é Emily, uma garota loura, usando uma camisa regata preta, e cujo apelido na Internet é “firedancingrose”. Ela fala sobre a calamidade pela qual Saad está passando, e afirma que ele deveria receber permissão para retornar para casa. Saad Nabeel, um rapaz de Bangladesh, quer voltar para a sua residência em Frisco, no Estado do Texas. No início do ano, Saad estava morando em Frisco com os seus pais, como membro ambicioso da classe média norte-americana, e um modelo de imigrante. Os pais dele tinham uma casa e dois automóveis, e ambos trabalhavam. Ele deixaram Bangladesh 15 anos atrás, quando Saad tinha três anos de idade. O pai dele lhe falou sobre os problemas que enfrentou com políticos, e sobre a perseguição e as ameaças que fizeram com que ele deixasse Bangladesh. A família foi para os Estados Unidos e pediu asilo político. Mas, oito anos depois, o pedido foi rejeitado e a agência de imigração dos Estados Unidos informou à família Nabeel que ela deveria deixar o país imediatamente. Em vez de obedecer essa determinação, o pai de Saad mudou-se com a família de Los Angeles para Frisco, um subúrbio de Dallas, no Texas. Mas não foi como se ele tivesse ido para aquele Estado para esconder-se das autoridades. Ao contrário, os pais dele compraram uma casa lá, arrumaram empregos e deram entrada em um pedido de visto de residência permanente, que é informalmente conhecido como green card. As autoridades norte-americanas não intervieram. Naquela época Saad tinha 11 anos e não se lembrava de praticamente nada de Dhaka. Segundo Saad, no final de 2009 o pai dele recebeu uma notificação da agência de imigração informando que os green cards da família lhes seriam enviados em janeiro de 2010. Mas, antes que isso acontecesse, fiscais da imigração bateram inesperadamente à porta da família, levaram o pai para um centro de detenção e ameaçaram deportá-lo. A família ainda não sabe o motivo disso. A mãe de Saad deixou o Texas com o filho, e os dois embarcaram em uma odisseia que durou várias semanas e terminou com a deportação, marcando o início da nova vida de Saad. Lamentando uma vida perdida Durante o dia Frisco geralmente é silenciosa, e à noite a cidade é sempre muito quieta. Mas nunca há silêncio no apartamento em que a família de Saad atualmente mora em Dhaka, até porque o apartamento fica no meio de uma cidade superpopulosa que parece a ponto de explodir, um lugar no qual 14 milhões de pessoas competem por cada migalha de afluência. E, além disso, o apartamento dele fica próximo a um canteiro de obras onde trabalhadores enfiam no solo estacas que serão a fundação de um novo edifício, usando um bate-estacas com um motor que não tem sistema de amortecimento de ruído. Os homens fazem a maior parte do trabalho à noite, quando o ar é mais fresco. Em Frisco, não há mendigos nas calçadas, e tampouco aleijados e pessoas com defeitos congênitos que exigem as suas próteses, cicatrizes e corpos grotescamente deformados aos transeuntes – pessoas como Saad, que usam calças jeans, tênis e camisetas. Em Frisco não há mulheres que seguram bebês desnutridos que choram aos gritos, e tampouco indivíduos que usam muletas e que parecem seguir com os olhos leitosos quem quer que pareça ter dinheiro. Em Frisco há um estádio chamado Pizza Hut Park e uma Dr. Pepper Arena. Saad poderia encarar o seu período em Dhaka como uma oportunidade. Poucas pessoas aqui têm o nível de educação dele. Mas Saad ainda lamenta a perda da sua vida anterior de norte-americano, e, para ele, a vida em Bangladesh é uma imposição. Uma vida que ele procura evitar o máximo possível. Ele não frequenta escolas, não tem amigos, não deseja aprender a língua e raramente sai de casa – e quando sai, é sempre com o telefone celular na mão. Saad movimenta-se de maneira cautelosa e hesitante nas ruas, como se esperasse ser atacado a qualquer momento. “Nenhum Plano B” Tão logo retorna ao seu quarto, ele senta-se em frente ao laptop e procura novos aliados na Internet, divulgando os seus problemas para o mundo. Uma garota norte-americana, que filiada ao Partido Republicano, coloca um vídeo no YouTube. Ela diz que ele deveria receber permissão para retornar aos Estados Unidos, e que o que fizeram com Saad foi uma injustiça. Saad espera que, gerando uma pressão pública suficiente e provocando um movimento de massa na Internet, ele seja capaz de voltar para casa. O seu apelo por ajuda no YouTube foi visto mais de 10 mil vezes nos últimos quatro meses. Um advogado de Nova York está trabalhando no caso dele. Mas as últimas notícias não são boas. O seu pedido de um visto de estudante foi negado. Agora ele está depositando as suas esperanças no advogado de Nova York. E se isso não der resultado? E se Saad Nabeel tiver que ficar em Bangladesh? Qual é o seu Plano B? “A resposta é fácil”, diz Saad. “Não existe um Plano B”.

UOL Cursos Online

Todos os cursos