"Livro impresso ainda dominará por muito tempo", prevê diretor da Random House

Markus Brauck e Isabell Hülsen

  • Shutterstock

Em entrevista à Spiegel, o diretor da Random House Markus Dohle, 42, discute os planos da maior editora do mundo para a era do livro eletrônico, as duras negociações de sua companhia com a Apple e por que o livo impresso ainda continuará a dominar o mercado editorial.

Spiegel: Sr. Dohle, sua ascensão à direção da maior editora do mundo há dois anos foi vista com desdém na comunidade literária, especialmente em Nova York, onde a Random House está sediada. Você é visto como um forasteiro que fez sua carreira na Bertelsmann do grupo Random House na Alemanha, no setor de impressão de livros e logística. Você foi recebido com frieza?

Markus Dohle: Podemos dizer o seguinte: a comunidade criativa ficou muito surpresa. E eu também, a propósito. Havia muitas interrogações no começo, mesmo dentro da nossa companhia, e é por isso que eu falei imediatamente com tantas pessoas quanto pude. Depois disso, o primeiro choque dentro do establishment de Manhattan logo desapareceu.

Spiegel: Você passou pelo cânone literário para se preparar?

Dohle: Não houve tempo para isso. Eu fui para os Estados Unidos em poucos dias. Fui muito rápido. E quando comecei no novo cargo, estava no meio da leitura do livro “Você está Comando – E Agora?” da Random House. Com certeza foi um material de leitura apropriado.

Spiegel: Você não tem medo de passar vergonha ao conversar sobre literatura com autores e agentes?

Dohle: Por acaso eu tenho 15 Feiras do Livro de Frankfurt no meu currículo e passei minha vida profissional inteira no negócio de livros na Bertelsman. Conheci muitos grandes autores e editores nesse processo. O mercado dos livros é um ambiente muito criativo. No fim das contas, entretanto, diz respeito a ganhar dinheiro com livros.

Spiegel: Como editor, quais são os autores que você encontrou primeiro?

Dohle: Dan Brown...

Spiegel: … o autor bestseller que é uma das principais fontes de renda no mundo todo.

Dohle: Isso foi no meu primeiro dia de trabalho em Nova York. Eu cheguei no escritório as 8h. Dan Brown bateu na minha porta às 10h. Ele estava na cidade e tinha aproveitado a oportunidade para vir me encontrar. Em outras palavras, o autor estava dando as boas vindas ao novo chefe da Random House. Eu gostei disso, o que resultou num bom relacionamento pessoal.

Spiegel: Na época, a Roandom House já estava esperando pelo último livro de Brown, “O Símbolo Perdido”, há algum tempo.

Dohle: Foi por isso que vi a visita dele como um bom presságio. Em outras palavras, aquilo me disse que não deveria demorar muito. E foi exatamente o que aconteceu. “O Símbolo Perdido” foi lançado em 2009 e fez muito sucesso.

Spiegel: Você vê a si mesmo como um editor e não apenas um administrador?

Dohle: Eu me vejo como alguém que encontrou um equilíbrio entre a criatividade e a lucratividade. É claro, eu leio bem mais hoje em dia, o que também se deve ao fato de que eu sempre estou acompanhado pelos meus livros, nem sempre impressos, mas nos meus dispositivos de leitura digitais. Eu leio sempre que tenho alguns minutos livres.

Spiegel: Quando você vê pessoas lendo no trem, do que você gosta mais, do leitor com iPad ou daquele com um livro na mão?

Dohle: Dos dois...

Spiegel: … porque você ganha dinheiro com os dois.

Dohle: Mas é exatamente essa a nossa oportunidade. Tenho prazer em ver um leitor que está lendo em seu iPad ou Kindle. Sem esses dispositivos, talvez não fossemos capazes de ver aquela pessoa naquele exato momento, porque talvez ela tivesse deixado seu livro em casa. Mas sempre o teremos no dispositivo eletrônico. Aquele minuto de leitura é um presente.

Spiegel: Você parece muito entusiasmado.

Dohle: Sim. Eu cresci com o papel impresso, mas tenho que admitir que estou surpreso com a velocidade com que o mercado digital está crescendo, especialmente nos Estados Unidos. Entretanto, o livro impresso continuará dominando por muito tempo.

Spiegel: Quanto vocês ganham com os livros eletrônicos?

Dohle: Cerca de 8% nos EUA agora, o que representa um crescimento imenso. Imagino que ele fique acima dos 10% no ano que vem.

“Estamos longe de saber qual companhia ou dispositivos irão prevalecer”

 

Spiegel: A livraria online Amazon anunciou que vendeu 180 títulos digitais para cada 100 livros de capa dura em junho nos Estados Unidos. Os analistas estimam que em dez anos apenas um quarto dos livros chegarão em forma impressa para os leitores. Você acha que isso é realista?

Dohle: Eu não concordo com esse prognóstico. Acho muito agressivo, muito mentiroso. A fatia do mercado para livros eletrônicos, até nos Estados Unidos, ficará mais provavelmente entre 25 e 50% até 2015. Mas isso ainda representa uma enorme oportunidade para nós. Ela gera um novo crescimento. Eu encontro gente nos EUA que diz: comecei a ler novamente por causa do meu dispositivo de leitura – assim como meus filhos.

Spiegel: Sua euforia deve ter limites, entretanto. Quando a Apple lançou seu iPad em janeiro, cinco das seis maiores editoras dos EUA eram parceiras da loja online da Apple, iBookstore. Mas a Random House, a maior delas, ainda não faz parte desse esforço nos EUA. Por que você está hesitando?

Dohle: No mercado de língua inglesa, diferentemente da Alemanha, não há nada como um acordo para fixar o preço dos livros. O vendedor estabelece o preço de varejo. Na iBookstore da Apple, cabe às editoras estabelecerem preços para o leitor. A Apple fica de fora disso e recebe uma comissão. Temos que examinar isso muito bem para determinar se estamos dispostos a fazer essa mudança drástica em nosso modelo de negócio.

Spiegel: Por que é tão ruim em estabelecer os próprios preços?

Dohle: Nos mercado em que não há um acordo para os preços fixos dos livros, significa que as editoras entram numa competição de preços que foi previamente conduzida pelas livrarias. A questão, entretanto, é se as editoras têm capacidade de encontrar o verdadeiro preço de varejo para atingir tantos leitores quanto possível. Este não era o nosso negócio até agora.

Spiegel: Em outras palavras, você não quer livrar a Apple do risco que antes era assumido pelas livrarias, e que também é assumido pela Amazon?

Dohle: Exatamente, também é uma questão de distribuição do risco. Até agora, nós vendemos conteúdo, desenvolvemos e divulgamos talentos e calculamos nossos preços de acordo. Nos Estados Unidos, o mercado de livros estruturou preços de varejo de acordo com as condições individuais do mercado. Precisamos determinar se as editoras de fato podem, e devem, fazer ambas as coisas no futuro.

Spiegel: Você de fato acredita que consegue se sair bem sem a Apple?

Dohle: A transição para o digital deve levar cerca de cinco a sete anos, então 100 dias na iBookstore não vão determinar se algo é um sucesso ou um fracasso. É claro que queremos ter uma presença em todas as livrarias digitais. Você não deve se esquecer que nossos leitores nos Estados Unidos também podem ler nossos livros no iPad, usando muitos aplicativos diferentes, mesmo que eles não façam parte da iBookstore. Não acho que estamos perdendo muita coisa a longo prazo. Na verdade, acreditamos que temos que proceder de uma forma muito bem pensada, para encontrarmos um modelo de negócio simples que sobreviverá nos próximos anos.

Spiegel: Além da Amazon, da Apple e da Barnes & Noble, o Google também está entrando no novo mercado como vendedor de livros eletrônicos...

Dohle: Há muita coisa acontecendo, e é por isso que estamos longe de saber quais livrarias e dispositivos de leitura continuarão existindo no mercado a longo prazo.

Spiegel: Então você espera que a Apple por fim decidirá que não quer ficar sem grandes autores como Dan Brown, e desista?

Dohle: Naturalmente, temos conteúdo interessante, e é por isso que estamos confiantes e podemos negociar como iguais. Não queremos destruir nosso modelo de negócios, que deve durar durante os próximos anos, com alguns passos errados. Mas essencialmente temos os mesmos interesses.

Spiegel: Os mesmos interesses? Há alguns anos, Steve Jobs disse que ele não acreditava no futuro do livro. A Apple ganha dinheiro de várias formas, e Jobs provavelmente não liga se o livro sobreviver. Mas você sim.

Dohle: O mundo dos livros digitais é sem dúvida mais importante para nós do que para a Apple. Na Alemanha, entretanto, nossos livros já estão na iBookstore, porque há um acordo de preço fixo, que nós apoiamos abertamente, e porque é mais fácil fazer acordos nessa base. Em outras palavras, não há nenhum problema entre a Apple e nós.

Spiegel: Até agora, a plataforma online Amazon dominou as vendas no mercado de livros eletrônicos. A companhia tende a cobrar apenas US$ 9,99 por bestsellers nos Estados Unidos. O livro está se tornando um item de liquidação?

Dohle: Não é que a pressão sobre os preços só chegou por causa dos livros digitais. A mesma coisa acontece no mundo impresso. Muitos países não tem preços fixos para os livros, e então nós, como editora, não temos influência nos preços de varejo. Se a Barnes & Noble vende nosso bestseller “O Símbolo Perdido” de Dan Brown por US$ 18,99 ou US$ 14,99 é uma decisão que eles sempre tomaram por conta prórpia. É claro, não gostamos de ver uma livraria na Inglaterra cobrar apenas 5,99 libras (US$ 9,55), porque achamos que isso não reflete o valor apropriado de um bestseller absoluto.

Spiegel: Você não deve ficar satisfeito de ver um livro eletrônico custar tão pouco a ponto de prejudicar o valor do livro.

Dohle: Isso é verdade, mas não é verdade que os livros digitais são sempre mais baratos que os impressos. Às vezes os livros impressos são vendidos por menos no Wal-Mart, por exemplo, do que a versão digital numa loja de livros eletrônicos. Em outras palavras, não há motivos para dizer que o mercado digital esteja aumentando a pressão sobre os preços do mercado de livros.

“O livro como meio está mudando”

 

Spigel: No iPad, entretanto, o livro está recebendo todos os tipos de concorrência de videogames, vídeos e outras formas de mídia de entretenimento. Ele será capaz de acompanhar?

Dohle: Mas o livro também está mudando como meio. Há livros de culinária que explicam o que você deve fazer com um vídeo, ou que ditam as receitas em voz alta para você. Você nem precisa tocar no seu iPad no processo. Ainda assim, ninguém sabe se isso é algo que as pessoas de fato querem e se estão preparadas para pagar mais caro por isso.

Spiegel: Até agora, entretanto, a maioria dos editores viam a si mesmos principalmente como fornecedores de livros de qualidade, e não como profissionais multimídia.

Dohle: Com certeza, o setor só poderá continuar se os editores mudarem. E isso só funcionará se eles investirem em competências digitais e não em ter um departamento de tecnologia de um lado fazendo livros eletrônicos e a equipe que coordena o negócio tradicional do outro, com um longo corredor entre eles.

Spiegel: Você agora enfrenta uma nova concorrência em seu principal negócio. A Amazon deixou de ser apenas uma livraria online, e agora atua também como editora. Stephen Covey, autor norte-americano de livros de não ficção como “Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficientes”, virou as costas para sua editora, a Simon & Schuster, e vendeu os direitos digitais de seus próximos livros para a Amazon. Quem é que ainda precisa das editoras?

Dohle: Existe, sem dúvida, o risco de que as editoras quebrem, mas temos muita confiança nesse sentido. Estamos convencidos de que o mercado conjunto de impressos e direitos digitais será a abordagem mais bem sucedida para nossos autores no futuro. E as editoras são as que tem mais capacidade de fazer com que isso aconteça.

Spiegel: Também é uma questão de como você pode garantir que os autores permaneçam leais à sua companhia.

Dohle: A confiança tem um papel importante. E ter paciência também faz parte. Não sei se as livrarias têm a paciência e a capacidade de desenvolver um novo talento e pagar adiantado. Afinal, os bestsellers não são escritos numa linha de montagem. Como editor, você precisa saber dos ciclos do negócio e oferecer apoio quando há lapsos de criatividade, e às vezes você simplesmente precisa ser capaz de manter a pressão longe de quem cria.

Spiegel: Mas a Amazon às vezes paga aos autores 70% do valor das vendas, enquanto as editoras tradicionais costumam pagar apenas 10%. Você sabe o que fazer para evitar que os autores vão embora?

Dohle: É claro, este é um assunto que abordaremos nas conversas com os autores e os agentes. Mas quando você chega a um acordo exclusivo com um vendedor, você tem que garantir direitos extensivos sem saber o quão importantes eles serão nos próximos anos.

Spiegel: Você acredita que sobreviverá à digitalização melhor do que a indústria da música?

Dohle: Estamos num ponto pelo qual a indústria da música já passou e os jornais e revistas ainda estão passando. É onde as pedras fundamentais são sedimentadas para o futuro e os modelos de negócio são desenvolvidos. É nosso trabalho transferir o modelo de negócio das editoras para o mundo digital, com uma parte justa para os autores, agentes, editores e livrarias.

Spiegel: No que diz respeito à indústria da música, se os consumidores conseguissem o que queriam, não iram pagar por mais nada.

Dohle: A pirataria é uma ameaça, mas estamos funcionando com uma base boa, diferente da indústria da música há alguns anos. A pirataria já era um fator muito importante no mercado quando tentaram introduzir modelos de pagamento. No nosso caso, os leitores estão acostumados e preparados para pagar por conteúdo. Temos só que tomar cuidado para não deixar a pirataria entrar. Esta é uma necessidade importante para o futuro do mercado editorial.

Spiegel: Sr. Dohle, obrigado pela entrevista.

Tradutor: Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos