Pregadores de ódio de Hamburgo perdem seu porto-seguro

Bjorn Hengst e Christoph Scheuermann

Hamburgo (Alemanha)

  • Sven Klein/AP

    Mesquita Taiba, em Hambugo, na Alemanha, foi fechada na segunda-feira (09)

    Mesquita Taiba, em Hambugo, na Alemanha, foi fechada na segunda-feira (09)

Extremistas islâmicos na Alemanha perderam um ponto de encontro importante na segunda-feira (09), quando autoridades de Hamburgo fecharam a Mesquita Taiba e a sociedade associada a ela. O piloto suicida de 11 de setembro Mohammed Atta costumava frequentar a mesquita, que os investigadores dizem ter apoiado o terrorismo por anos.

O nome da mesquita é um exagero impressionante. Masjid Taiba significa “bela mesquita” e localiza-se em um prédio sem graça, em uma rua no distrito miserável de St. George em Hamburgo, ao lado de uma academia de ginástica. Para chegar às salas de prece, a pessoa tem que atravessar um corredor mal iluminado e subir alguns degraus. O carpete na sala de prece está gasto e, no inverno, caem gotas de condensação pelas janelas.

Ainda assim, 250 muçulmanos lotavam a mesquita para as preces de sexta-feira –marroquinos, bósnios, russos e muitos alemães. Entre eles, havia alguns idosos, mas a maior parte era de jovens. Muitos deles tinham se convertido ao islã ou tinham voltado à religião após anos de distância. Em muitos casos, eram radicais em suas crenças.

Em torno das 6h da manhã de segunda-feira, a polícia de Hamburgo fez uma batida no local e na Sociedade Cultural Árabe-alemã ao lado, além das casas dos membros da sociedade. A mesquita foi fechada imediatamente, a sociedade foi proibida e seus bens e documentos confiscados.

Extremistas reuniam-se na mesquita, dizem as autoridades

O ministro do interior de Hamburgo, Christoph Ahlhaus, descreveu a mesquita como “ponto focal para a cena jihadista”. A sociedade de Taiba tinha “disseminado uma ideologia hostil à democracia” em sermões, cursos, seminários e via Internet, disse Ahlhaus.

A mesquita vangloriava-se de representar a única forma verdadeira e original do islã, não adulterada pelas tentações do mundo moderno. Por isso muitos fiéis não se incomodavam em ser chamados de islamitas e fundamentalistas. Afinal, argumentavam, ali estavam sendo ensinadas as fundações do islã.

Muitos deles estão convencidos que a maior parte dos países islâmicos é governada por tiranos. Um califado, como o que o Taleban estabeleceu no Afeganistão antes de 2001, é a única forma de governo verdadeiramente islâmica, disseram. Muitos visitantes aprovavam a “resistência islâmica” que está sendo travada contra as forças estrangeiras, inclusive tropas alemãs, no Afeganistão.

Sob vigilância

Os frequentadores deveriam saber que estavam sendo vigiados pela polícia assim que botavam os pés no prédio. De fato, este local foi de muita ajuda para o serviço de inteligência de Hamburgo, porque todos os islâmicos da cidade se congregavam ali. Isso talvez explique porque o vice-diretor do serviço, Manfred Murck, não tenha expressado satisfação com seu fechamento em uma conferência com a imprensa na segunda-feira.

A mesquita vinha sendo observada de perto desde os ataques de 11 de setembro porque alguns dos pilotos suicidas, inclusive Mohammed Atta, tinham frequentado o lugar. Ela atraiu maior atenção no ano passado, após um grupo de 10 jihadistas de Hamburgo viajarem para a região da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, aparentemente para receber treinamento terrorista. Um deles, um iraniano chamado Shahab D., entrou para o Movimento Islâmico do Uzbequistão e apareceu em um vídeo sob o nome de Abu Askar, no qual pedia aos muçulmanos alemães que ingressassem na luta armada.

O processo jurídico para proibir a sociedade de Taiba durou meses, até o dia 30 de julho, quando a alta corte administrativa de Hamburgo decidiu a favor da proibição. Após 11 de setembro, a mesquita se tornou um “lugar simbólico para jihadistas”, disse Murck na segunda-feira.

Boas conexões

O serviço de inteligência de Hamburgo estima em 45 o número de jihadistas morando em Hamburgo. Eles têm bons contatos com islamitas da mesma linha em outras cidades alemãs, inclusive Frankfurt, Berlim, Bonn e Bielefeld. Murck disse que havia uma forte sensação que os membros de Hamburgo queriam contribuir para a jihad. “Eles queriam se tornar heróis”, disse ele. Mas acrescentou que não havia indicações concretas de planos de ataques.

Autoridades dizem que a sociedade de Taiba tem entre 20 e 30 membros e que cerca de 250 pessoas participavam das preces de sexta-feira. Ocasionalmente, os sermões eram feitos por Mamoun Darkazanli, empresário alemão e sírio que há muito está no radar das autoridades alemãs por sua suposta associação com os pilotos suicidas de 11 de setembro.

Os investigadores, contudo, nunca acharam evidências de que ele havia fornecido apoio à Al Qaeda. Darkazanli está na lista de terroristas da União Europeia. Ele não tem permissão para abrir uma conta em banco ou dirigir uma empresa.

Lothar Bergmann, diretor de departamento de segurança pública no Ministério do Interior de Hamburgo descreveu-o como um “pregador de ódio”, na segunda-feira. A Espanha pediu sua extradição para ser julgado por terrorismo, mas a Alemanha não vai extraditá-lo. As autoridades disseram que ele vive com benefícios do governo.

Tradutor: Deborah Weinberg

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