Berlusconi usa recesso para preparar sobrevivência na política italiana

Fiona Ehlers

em Roma (Itália)

  • Tano Pecoraro/ AP Photo

    Silvio Berlusconi, discursa na "Festa da Liberdade", em Benevento (Itália), em outubro de 2009

    Silvio Berlusconi, discursa na "Festa da Liberdade", em Benevento (Itália), em outubro de 2009

Silvio Berlusconi já sobreviveu a uma série de escândalos sexuais e de corrupção. Agora, a revolta de um ex-aliado pode impor uma séria ameaça ao primeiro-ministro italiano, que muitos acreditam estar com os dias contados na política. Berlusconi terá o recesso de verão para preparar sua sobrevivência.

A cena na noite de quarta-feira (04/8) na Câmara dos Deputados da Itália mostrou o que acontece quando os governos italianos desmoronam ou quase desmoronam: os membros do Parlamento pularam de suas cadeiras de couro vermelho, acusaram uns aos outros, gritaram, forjaram alianças de último minuto ou brigaram. Um partidário de Berlusconi até bateu no rosto de um desertor da facção de Fini com seus documentos de campanha.

A crise foi gerada pela expulsão do presidente da Câmara dos Deputados, Gianfranco Fini, do partido de Berlusconi, Povo da Liberdade (PDL). O primeiro-ministro Silvio Berlusconi estava por trás da expulsão de Fini no final de julho. Foi o fim de uma amizade de 16 anos entre os dois homens. Berlusconi decidiu que Fini era inaceitável e “incompatível” com seu partido.

A briga entre Fini e Berlusconi ficou clara, mas a situação no Parlamento não. Até agora, 33 membros da câmara baixa do parlamento e dez senadores acompanharam Fini para seu novo grupo parlamentar, rapidamente formado, Futuro e Liberdade para a Itália (FLI). O primeiro-ministro está com seis votos a menos do que precisaria para obter a maioria.

Rebelde liberal


Ironicamente, é justamente o príncipe herdeiro de Berlusconi que agora está dificultando extraordinariamente o governo do primeiro-ministro. Fini é um antigo neo-fascista que critica o premier por seu estilo “monarquista” de liderança, seu conceito duvidoso de moralidade e seus problemas com a lei.

Fini, 16 anos mais jovem do que Berlusconi, tornou-se um rebelde, um “traidor” aos olhos de seu ex-chefe ofendido. Por meses, Fini fez o possível para atacar o projeto predileto do primeiro-ministro, a chamada “lei da mordaça” que visa limitar a capacidade da justiça e dos investigadores de grampearem comunicações e restringir a cobertura da mídia em investigações correntes.

Fini foi se tornando cada vez mais liberal e de esquerda, apoiando o direito ao aborto e o reconhecimento legal de parcerias homossexuais e criticando duramente a xenófoba Liga Norte, uma das parceiras na coalizão de Berlusconi. Acima de tudo, ele fez o impensável: repreendeu Berlusconi em público e exigiu maior respeito às leis na política.

Talvez Fini tenha tido a coragem para dar esses passos audaciosos porque acredita que Berlusconi há muito está nas últimas politicamente. Ele esteve à sombra de Berlusconi por tempo demais e, agora que a estrela do primeiro-ministro está minguando, Fini reconhece sua oportunidade. Ele está atingindo Berlusconi em seu ponto mais vulnerável, acusando-o de fazer parte de uma rede criminosa que tem um único objetivo em mente: enriquecer. Fini sabe que isso toca os italianos, que provavelmente ficarão eletrizados com a perspectiva de finalmente derrubarem um primeiro-ministro cuja popularidade mergulhou, especialmente após uma série de promessas quebradas, reformas que nunca foram implementadas e dois anos marcados por uma falta de liderança.

"Duce" contra "Judas"


Na tarde de quarta-feira, a Câmara dos Deputados não deu voto de confiança para Giacomo Caliendo, 67, um subsecretário do Ministério de Justiça acusado de ser membro de uma sociedade secreta e de ter influenciado juízes e pago propina. Fini argumentou que o partido não poderia tolerar alguém que estava sob investigação e, com isso, provocou a cisão com Berlusconi.

Fini é o presidente da Câmara dos Deputados. Ele presidia a sessão de seu pódio com rosto resoluto e olhar gelado, quando Berlusconi adentrou o salão na quarta-feira. Os deputados chamaram “Silvio, Silvio”, e o primeiro-ministro levantou a mão direita como cumprimento. “Il Duce”, gritaram do lado esquerdo e, quando Fini tocou sua sineta de prata, os que estavam na direita gritaram: “Judas”. Fini sorriu e pediu ordem na sala. A política italiana voltou ao que sempre foi: um grande teatro político vazio de conteúdo. No final da sessão tumultuada, Berlusconi tinha perdido sua maioria estável. Mas como os partidários de Fini se abstiveram, Berlusconi pode ficar no cargo ao menos até a próxima votação, após o recesso parlamentar.

Preparando-se para a luta

Para Berlusconi, as semanas entre hoje e o final do recesso no dia 8 de setembro serão difíceis, diferentemente, digamos, das semanas que passou de férias na Sardenha com acompanhantes femininas no ano passado. Desta vez, ele vai se retirar para as terras da família Borghese em Roma, um castelo de verdade, com torre própria. Ele vai preparar seu partido para a campanha e se armar contra seu rival.

“Precisamos sair do atoleiro no qual Fini nos colocou, ou vamos terminar como os americanos no Vietnã”, teria dito Berlusconi.
 

Tradutor: Deborah Weinberg

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