Instituição de caridade alemã acusada de corrupção no Paraguai

Jens Glüsing

Coronel Oviedo (Paraguai)

Por anos, a instituição de caridade alemã Sociedade Kolping Internacional tem apoiado projetos de ajuda no Paraguai, graças em parte a subsídios do governo alemão. Mas parece que os fundos nem sempre chegaram a quem eram destinados e há numerosas irregularidades. Um suposto “centro de treinamento” era na verdade um bordel.

O prédio que os moradores locais chamavam de “Casa de Citas” fica nos arredores da cidade paraguaia de Coronel Oviedo. A estrutura de dois andares e 300 metros quadrados, com fachada externa em um cor-de-rosa desbotado, era oficialmente um centro de treinamento vocacional da Fundaciòn Kolping Paraguay.

Extraoficialmente, entretanto, de 2005 até o início de 2008, o centro, que era financiado pelo Ministério do Desenvolvimento e Cooperação Econômica (BMZ) da Alemanha, fez pouco para promover programas de treinamento e mais para apoiar pessoal com uma área de atividade muito específica. No Paraguai, o termo “casa de citas” (casa de encontros) é uma gíria para bordel.

Cerveja e destilados aparentemente eram servidos no andar térreo, enquanto as camas ficavam no segundo andar. Em certa ocasião, um time inteiro de futebol teria sido entretido na Casa de Citas. Foi uma “verdadeira orgia”, diz a atual diretora da Fundaciòn Kolping Paraguay, que faz parte da organização social católica Sociedade Kolping Internacional, com sede em Colônia.

“Às vezes casais também frequentavam a Casa de Citas”, diz Adelina Ayala, que era a faxineira. Seus deveres incluíam colocar no lixo as garrafas vazias pela manhã, limpar a casa e lavar as roupas de cama.

Pago com fundos do governo alemão

Ayala, que tem 74 anos, trabalhou para a Fundaciòn Kolping Paraguay por 20 anos. Segundo as declarações financeiras da fundação, que a “Spiegel” obteve, ela recebia um salário mensal pelo serviço de limpeza na casa de má reputação – pago com fundos do governo alemão.

Uma prostituta também receberia salário da Kolping, supostamente para administrar uma ótica no prédio. O Ministério do Desenvolvimento alemão e funcionários da sede em Colônia da Sociedade Kolping Internacional disseram desconhecer completamente o que estava acontecendo no Paraguai.

A nova diretora da Fundaciòn Kolping Paraguay, Brigitte Fuzellier, diz que quando ela visitou o prédio pela primeira vez, em março de 2008, tudo o que ela encontrou foi uma única máquina de costura velha. Cursos de treinamento vocacional não ocorriam lá, diz Fuzellier. Ela acrescenta que informou as condições para o diretor em Colônia responsável pela América Latina, Peter Schwab, em 2008. Schwab diz que não se recorda de ter recebido o relatório de Fuzellier.

“Eu abri uma fonte de problemas”, diz hoje Fuzellier. “Eu não tinha ideia daquilo em que eu estava me metendo quando aceitei a posição de diretora.” Seu antecessor, Máximo Samaniego, deixou a fundação em dezembro de 2007 e atualmente está escondido.

Calúnia e difamação

Hans Drolshagen, diretor administrativo da Ajuda Social e para Desenvolvimento da Sociedade Kolping (SEK), com sede em Colônia, diz que há sinais de irregularidades desde 2007. “Foi por isso que enviamos a sra. Fuzellier para o Paraguai”, diz Drolshagen. “Para olharmos mais de perto o que estava acontecendo lá.”

Mas talvez ela tenha realizado seus deveres de forma mais diligente do que o esperado. A SEK acabou impetrando um processo criminal contra Fuzellier por calúnia e difamação. Fuzellier acusou os diretores na sede da Kolping em Colônia de obstruírem a investigação dos supostos abusos.

O Ministério do Desenvolvimento alemão fornece fundos para atividades de autoajuda realizadas por “grupos demográficos destituídos” no Paraguai. Desde 1999, o ministério pagou mais de 3,6 milhões de euros para a SEK em Colônia, que é responsável pelos projetos de ajuda. A União Europeia também contribuiu com fundos para o programa até 2009.

Uma das metas declaradas da Sociedade Kolping é “permitir aos seus membros provar serem cristãos no mundo”. A organização apoia o treinamento vocacional e projetos voltados a ajudar pessoas a ajudarem a si mesmas em mais de 60 países. Os beneficiários dos programas são pequenos agricultores e pobres, que unem forças para formar as chamadas “famílias Kolping”. No Paraguai, a Fundação Kolping dirige nove escolas vocacionais para mais de 3 mil estudantes, e apoia centenas de agricultores, que recebem microempréstimos da organização religiosa.

‘Eles confiaram no bom nome da Kolping’


Mas segundo as declarações de alguns dos supostos beneficiários, assim como documentos obtidos pela “Spiegel”, alguns dos projetos de ajuda só existiam no papel. “Nós tivemos que assinar documentos em branco”, diz Antonia Olmeda, uma agricultora. Os agricultores acreditavam que estava tudo em ordem. “Eles confiaram no bom nome da Kolping e na Igreja Católica”, diz Mario López, um padre que está orientando os agricultores.

Máximo Samaniego, o então diretor da Fundaciòn Kolping Paraguay, supostamente utilizou os fundos do Ministério do Desenvolvimento alemão destinados aos empréstimos para os pequenos produtores rurais para comprar um casarão em ruínas ao lado da sede local da Kolping. Aparentemente, ninguém notou o que estava acontecendo, nem os diretores da sede da SEK, em Colônia, nem as autoridades no Ministério do Desenvolvimento – apesar do ministério ser obrigado por lei a realizar uma revisão de eficiência após a conclusão de cada programa de assistência.

Enquanto isso, funcionários do Ministério do Desenvolvimento, em Berlim, requisitaram uma auditoria externa para examinar a possibilidade de “apropriação indébita de fundos federais”. Os auditores planejam viajar ao Paraguai em meados de agosto para examinar os livros da fundação. Um relatório final é esperado para meados de setembro. O ministério diz que este é um procedimento perfeitamente normal e que três funcionários foram designados para o caso.

Parte 2: Fundação não paga impostos há anos

Em abril, a empresa internacional de auditoria PricewaterhouseCoopers realizou uma “revisão de orientação” da Fundaciòn Kolping Paraguay em nome do Ministério do Desenvolvimento. Os auditores sul-americanos relataram que encontraram “indícios de fraude” e recomendaram uma maior investigação. Eles também disseram que receberam informação sugerindo que “a Kolping na Alemanha pode ter conhecimento do que se passa no Paraguai”.

Na verdade, as contas da fundação estavam em grande desordem. Documentos e declarações de prestação de contas estavam faltando ou incompletas, diz Fuzellier, e os livros internos da organização estavam mal organizados e confusos. Fuzellier descobriu que a fundação não podia mais emitir faturas oficiais, porque não pagava impostos há anos e não apresentava prestação de contas.

Fuzellier encontrou 323 cheques assinados no valor aproximado de 164 mil euros no cofre de seu antecessor. Samaniego assinou a maioria dos cheques e, em alguns cheques, o número da conta foi recortado. Eles foram emitidos pela Fundação Kolping, com as palavras “União Europeia” em parênteses.

Fuzellier acredita que os cheques visam ocultar as falhas nas declarações dos fundos vindos da UE. O contador da fundação, Jorge Enrique Caballero, aparentemente colocou fotocópias dos cheques nas faturas para simular gastos. “Os cheques eram então listados nos balancetes internos”, diz Fuzellier, acrescentando que o dinheiro nunca entrou nas contas da Kolping. E o que aconteceu com ele?

“Eu não tenho nenhuma ideia”, disse o diretor para América Latina, Peter Schwab, à “Spiegel”. “Seja qual for o motivo para a existência daqueles cheques, eles não foram sacados, o que significa que não resultaram em nenhum mal.”

‘Nós temos que estar preparados’


Mas até mesmo Schwab devia saber há algum tempo que algo estava errado. Em uma carta de maio de 2008, ele pediu ao contador da fundação para não apresentar todas as prestações de contas de uma só vez. “Você pode imaginar que estamos todos muito preocupados”, escreveu Schwab. “É claro, nossa intenção é evitar ter que reembolsar o Ministério do Desenvolvimento alemão (...) Por este motivo, nós pedimos que aguarde para apresentar a versão final.” Soa como se Schwab estivesse com a consciência pesada, no mínimo. Em um e-mail de outubro de 2008 para Fuzellier, Schwab alertou que o assunto poderia até mesmo interessar à imprensa. “Nós temos que estar preparados”, ele acrescentou.

A “Spiegel” também soube que aparentemente também havia discrepâncias financeiras na construção, ampliação e operação das casas Kolping no Paraguai. A UE forneceu grande parte dos fundos para os projetos de construção, que, no papel, representavam um suposto investimento de cerca de 1,5 milhão de euros. Mas avaliadores estimaram o valor de mercado de todas as propriedades combinadas como sendo de apenas 650 mil euros. Elas sofreram forte desvalorização, foi um mau investimento ou simplesmente uma fraude?

Em fevereiro, Jorge Enrique Caballero, o ex-contador da fundação no Paraguai, também desapareceu, assim como o ex-diretor Máximo Samaniego antes dele. Caballero supostamente levou alguns documentos consigo. Fuzellier estima que o total de prejuízos até o momento para o Ministério do Desenvolvimento alemão, pela UE e pela Fundaciòn Kolping Paraguay como sendo de mais de 2 milhões de euros.

Cursos vocacionais, finalmente


Enquanto isso, a SEK nega todas as acusações e se distanciou de Fuzellier, mas apoia a auditoria do Ministério do Desenvolvimento. Além disso, como Hans Drolshagen, o diretor da SEK, disse à “Spiegel”, a organização há muito pede a Fuzellier para “impetrar um processo criminal caso ela tenha evidências substanciais”. Ela seguiu esse conselho em novembro de 2009.

Até mesmo o Vaticano agora está envolvido. Em Roma, o cardeal Stanislaw Rylko sugeriu que “os responsáveis por irregularidades devem ser expulsos da fundação imediatamente”.

As coisas mudaram em Coronel Oviedo. Hoje, a ex-Casa de Citas finalmente oferece cursos vocacionais, como uso de computadores e de costura. Nos últimos dois anos, Adelina Ayala, a faxineira, está recebendo o salário mínimo legal de 350 euros. São 300 euros a mais do que ela costumava receber.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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