Dançando em Auschwitz: sobrevivente do Holocausto torna-se astro no YouTube

Henryk M. Broder

  • Janek Skarzynskyi/AFP

    Inscrições na entrada no antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia

    Inscrições na entrada no antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia

Adam Kohn, sobrevivente do Holocausto, tornou-se um astro improvável do YouTube com um vídeo em que ele dança em Auschwitz, ao som do clássico sucesso "disco" "I Will Survive", de Gloria Gaynor. Mas nem todo mundo acha de bom gosto esse testemunho à sobrevivência.
Conhecido como "Adolek", Adam Kohn, nunca pretendeu ser famoso. Mas hoje é uma celebridade. A revista de fofocas australiana "Who" considerou sua história digna de duas páginas inteiras, mais do que ela dedicou à aventura amorosa de Salma Hayek e George Clooney.

Kohn, 89 anos, está casado com a mesma mulher há 65, é pai de duas filhas, tem seis netos e dois bisnetos, com um terceiro a caminho. Sua mulher, Maria "Marysia" Kohn, nascida Wojdyslawska, é três anos mais moça que o marido, o que não altera o fato de que é ela quem manda na casa. "Adolek, você não terminou o jantar", ela o repreende. "O peixe pode esperar", Adolek diz para sua mulher na cozinha. Ele acaba de receber alguns e-mails que acha que deve ler imediatamente. "Tem sido assim há semanas", diz Marysia, "tudo por causa do vídeo."

O vídeo a que ela se refere é um curta de 4 minutos e 20 segundos produzido pela filha de Adolek, a artista australiana Jane Korman. Ele foi exibido em uma galeria em Melbourne no final de 2009 e provavelmente teria passado ao esquecimento se Korman não o tivesse colocado no YouTube algumas semanas atrás. O vídeo, que desde então foi retirado do YouTube devido a questões de direitos autorais, foi visto meio milhão de vezes em poucos dias. As pessoas o assistiram em países como Austrália, EUA, Alemanha e Israel - lugares onde a palavra "Auschwitz" ainda é uma metáfora de algo tão monstruoso que desafia a compreensão.

Rompendo tabus

À primeira vista, "Dancing Auschwitz" - o título da pequena obra de arte de Korman - é um filme que rompe um tabu. Ao segundo olhar é uma provocação e ao terceiro, uma resposta inteligente à pergunta de como se pode comemorar algo que há muito tempo foi moído como cascalho histórico na mina da "cultura da memória" - em conferências e seminários, filmes e séries de televisão, em demonstrações e eventos comemorativos, onde os oradores, com décadas de atraso, pedem que seus ouvintes "cortem o mal pela raiz". Em outras palavras, é uma tentativa de oferecer uma abordagem que contraria os rituais sem sentido, celebrando o poder da vida mais que comemorando a morte como apogeu do fracasso humano. Korman, 55, conseguiu o impossível. Ela viajou para Auschwitz com seu pai e seus filhos até o lugar onde seus pais estiveram um dia na "linha de montagem" da morte.

O antigo campo de extermínio nazista, hoje chamado Museu Auschwitz, recebe centenas de milhares de visitantes por ano. Para a região próxima à cidade polonesa de Cracóvia, Auschwitz é tão significativo como atração turística quanto o refúgio de Hitler na montanha em Obersalzberg para a região de Berchtesgaden, na Baviera. Alguns vão para Auschwitz para lembrar seus parentes assassinados, enquanto outros são fascinados pelos horrores que o lugar evoca. Mas ninguém vai lá para dançar, provavelmente porque festejar em um cemitério simplesmente não é a coisa certa a se fazer. Ou é?

"V" de vitória

A música "I Will Survive" da diva pop Gloria Gaynor foi um enorme sucesso no final dos anos 1970. Até hoje inúmeras versões dela são tocadas em clubes e festas. É irônico que Korman tenha feito seu pai e seus filhos dançarem ao som desse clássico "hino" gay. Eles o fazem com hesitação no início, como se tivessem consciência de estar fazendo algo proibido. Aos poucos ficam mais descontraídos, até que finalmente acabam tão exuberantes quanto uma equipe esportiva amadora que derrota um time de profissionais em um campeonato.
Em uma cena, o avô Adolek, usando uma camiseta branca com a palavra "Sobrevivente" estampada no peito, para diante de um dos fornos onde os corpos eram cremados e faz o "V" da vitória. A mensagem não poderia ser mais clara: "Vejam, estou vivo!" No final do vídeo, Kohn, falando em "off", diz: "Se alguém me dissesse aqui naquela época que eu voltaria 63 anos depois com meus netos, eu diria: 'Do que você está falando?' Mas aqui estamos. É realmente um momento histórico".

Como era de se esperar, nem todo mundo ficou igualmente feliz com esse passeio familiar a Auschwitz. Houve muitas acusações de mau gosto. Um porta-voz do Museu e Centro de Pesquisa do Holocausto Judeu, em Melbourne, disse que seu museu não exibiria o vídeo de modo algum, porque ele pretendia diminuir "a importância de Auschwitz". Abraham Foxman, diretor nacional da Liga Antidifamação em Nova York, que tem um papel importante em punir antissemitas e negadores do Holocausto, disse que entende "a necessidade de comemorar a sobrevivência", mas que infelizmente a sobrevivência "se limita àqueles que sobreviveram" - um truísmo que fez pouco mais que revelar a impotência de Foxman para lidar com a comemoração.

Enquanto os trabalhadores profissionais da memória ainda estavam tentando encontrar as palavras certas para confrontar o vídeo, os usuários comuns do YouTube já estavam um passo à frente. Korman recebeu centenas de e-mails de pessoas lhe agradecendo por "Dancing Auschwitz". Especialmente os filhos de sobreviventes, que cresceram à sombra do Holocausto, hoje sentiam, como disse uma pessoa, "mais alegria que tristeza", e que o filme era "uma declaração de amor à vida após a morte".

Cercado por memórias

Mas não há duas pessoas no mundo tão felizes e orgulhosas quanto os pais de Korman. Adolek e Marysia Kohn vivem em uma casa em um bairro de classe média-alta em Melbourne, cercados por lembranças de mais de 60 anos. Cada objeto conta uma história, e cada história começa - onde mais? - na Polônia na década de 1930. "Aquela mulher ali", diz Adolek, apontando para um quadro que comprou em um mercado de pulgas em Melbourne vários anos atrás, "parece minha mãe, Genia." Jane recebeu o nome em homenagem à avó. A filha mais velha, Celina, leva o nome da mãe de Marysia. Nenhuma das duas sobreviveu à guerra.

Adolek teve sorte. Ele era jovem e apto a trabalhar. Nascido em 1921 em Praszka, cidade perto de Opole, no sul da Polônia, ele frequentou uma escola vocacional em Lodz até 1939. Depois que os alemães invadiram a Polônia, os judeus foram colocados em um gueto que havia sido criado para eles. A partir de agosto de 1944, as "áreas residenciais judias" foram gradualmente "reduzidas" e os moradores que ainda não tinham morrido de fome ou doença foram deportados.

A última viagem

A viagem de trem para Auschwitz levou três dias. Foi a última viagem da mãe de Adolek. Ele foi destinado a uma equipe de trabalho e enviado para uma fábrica operada pela empresa metalúrgica Vereinigte Deutsche Metallwerke em um campo externo perto de Halbstadt, hoje a cidade de Mezimesti na República Checa, onde eram fabricadas hélices de avião. Depois que o Exército Vermelho russo liberou os campos, em maio de 1945, Adolek foi a pé até Lodz. No caminho ele conheceu três mulheres que "pareciam fantasmas". Uma delas era Marysia.
Um rabino os casou algumas semanas depois, sob um baldaquim feito com quatro vassouras e um velho cobertor. Só havia uma aliança, que o rabino tinha levado. "Então fomos para Munique." Por que Munique? "Não faço ideia. Apenas aconteceu."

Viagem para uma nova vida

Munique, na zona americana da Alemanha, era na época um ponto de reunião de "pessoas deslocadas". Elas eram registradas pela Agência das Nações Unidas para Ajuda e Reabilitação (UNRRA), recebiam um lugar para morar e às vezes empregos como tradutores ou funcionários de escritório. Adolek trabalhou na "divisão de buscas" até que um parente distante em Xangai conseguiu os documentos necessários para a Austrália para Marysia, Adolek e Celina, que nasceu em Munique em 1947. A viagem no MS Eridan, um velho navio de transporte militar que a UNRRA havia fretado em Marselha, levou quase três meses, e as condições a bordo eram catastróficas. Quando o navio finalmente chegou ao porto de Sydney, em 19 de janeiro de 1949, os 528 passageiros a bordo haviam experimentado tudo o que poderia acontecer às pessoas nesse percurso, incluindo um assassinato. Os Kohn terminaram o último trecho de sua viagem, de Sydney a Melbourne, de trem. Então começaram uma nova vida a partir do zero.

Adolek trabalhou duro em uma fábrica têxtil e economizou cada centavo que pôde. A segunda filha, Jane, nasceu em 1955. Antes mesmo que ela pudesse andar, seu pai havia aberto sua empresa, chamada Emporium Knitwear, começando com uma máquina de tricô usada. Os 12 prêmios que ele recebeu do Conselho Australiano da Lã são prova de uma carreira empresarial de sucesso. Ele vendeu a empresa em 1985 e se aposentou.

"Eu venci"

Como a maioria dos imigrantes que chegaram a um novo país com nada além de suas vidas, os Kohn são gratos ao país que os aceitou, apesar de terem recebido pouca assistência e terem lutado por conta própria. Adolek lembra que a primeira coisa que comprou em Melbourne foi um mapa da cidade, para poder ver a distância do trajeto do "apartamento" - um quarto mobiliado - até a fábrica onde trabalhava. Era "longe, muito longe", diz. Hoje ele está feliz por ter permitido que Jane o convencesse a fazer a longa viagem até Auschwitz. Dançar com seus netos no lugar onde sua mãe foi assassinada foi o maior triunfo de sua vida, ele diz. "Desde então não sou mais uma vítima. Eu sobrevivi. Eu venci." Todo ano, em 19 de janeiro, aniversário de sua chegada à Austrália, Adolek e Marysia Kohn dão uma festa, para a qual convidam algumas das pessoas que estavam com eles no MS Eridan. A cada ano há menos convidados. Este ano só vieram 20 pessoas. Pode ter sido a última festa.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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