Retirada do Iraque é ótimo negócio para Obama, sem benefício para os iraquianos

Bernhard Zand

  • Maya Alleruzzo/AP

    Última brigada de combate dos EUA no Iraque faz fila para deixar o país rumo ao Kuwait

    Última brigada de combate dos EUA no Iraque faz fila para deixar o país rumo ao Kuwait

No dia 1º de maio de 2003, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciou o fim das operações de combate no Iraque. Neste mês, o presidente Barack Obama encerrará a luta pela segunda vez. Mas, afinal, quem venceu? Sem dúvida não foram os iraquianos.

Tudo começou com um ultimato, com a arrogância de um homem que não só comandava a maior força militar do mundo, mas que também parecia ter mais controle sobre a situação com o passar do tempo. “Saddam Hussein e os seus filhos têm que deixar o Iraque dentro de 48 horas”, ordenou George W. Bush na noite de 17 de março de 2003. “A sua recusa em fazer isso resultará no início de um conflito militar no momento que acharmos melhor”. Bush fez tudo isso desprezando totalmente a Organização das Nações Unidas, cujo Conselho de Segurança era o único fórum que possuía a autoridade legítima para declarar tal guerra. E aos aliados que recusaram-se a participar da invasão, o presidente dos Estados Unidos só mostrou desdém.

Os Estados Unidos escolheram o momento do ataque, e também a ocasião do discurso apropriado da vitória, que foi proferido por Bush mais tarde a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln: missão cumprida.

O que ocorreu depois disto – o terrorismo, a guerra civil, os 100 mil mortos, as viúvas, os indivíduos que perderam braços e pernas e a minúscula parcela de otimismo que se seguiu – não foi mais uma escolha norte-americana. Os fatos posteriores foram consequência do excesso de confiança de Bush e dos seus erros crassos cometidos desde o início da ocupação. Hoje em dia esses erros continuam a causar problemas para o Iraque. Atualmente não existe um fim à vista para a guerra – o que ocorre é que nós estamos gradualmente deixando de prestar atenção nela.

Agora temos mais um episódio do tipo “no momento em que acharmos melhor”, o penúltimo que Bush negociou antes de deixar a presidência. Barack Obama está aderindo com prazer ao cronograma que herdou porque isto o beneficia na campanha parlamentar deste ano: em 31 de agosto a missão de combate será oficialmente encerrada pela segunda vez. Na última quinta-feira, a última brigada de combate deixou o país. Um total de 50 mil soldados norte-americanos, um contingente que agora é chamado de “tropas de treinamento”, permanecerá no país até o final de 2011. “Iraque! Nós vencemos! América””, berrou um soldado quando o seu veículo militar Humvee cruzou a fronteira.

Quem venceu?

A guerra do Iraque acabou? Ela valeu a pena? Quem venceu? Temos que admitir que, conforme os Estados Unidos avisaram, Saddam e os filhos dele foram de fato liquidados. Um parlamento foi eleito no país em três ocasiões – essas foram as únicas eleições relativamente livres do mundo árabe. Isso é de fato uma façanha.

Mas não existe segurança no Iraque, a menos que declaremos “seguro” um país no qual centenas de pessoas continuam a ser assassinadas todos os meses. Em julho houve 222 assassinatos, segundo estatísticas compiladas pelos norte-americanos. Os iraquianos, que agora assumiram eles próprios a responsabilidade pelo problema, e que, portanto, não tendem a exagerar, contabilizaram 535 mortos.

A liberdade da qual eles atualmente gozam se constitui em uma realização abstrata para a maioria dos iraquianos. Na última sexta-feira, a temperatura em Bagdá chegou a 47º Celsius. Os ventiladores elétricos rodaram em apenas dois momentos – um pouco antes do amanhecer e um pouco durante à noite –, totalizando apenas duas horas de funcionamento.

O Iraque, o gigante de recursos energéticos cujo enorme potencial os Estados Unidos se propuseram a materializar, está produzindo atualmente menos petróleo do que durante o regime de Saddam Hussein. Somente 1% da força de trabalho está empregada na indústria petrolífera, que produz 95% das receitas do governo.

Um ótimo negócio para Obama

Os Estados Unidos não foram capazes de criar uma base que mantivesse esse país unido. Os norte-americanos esmagaram com muita precipitação um exército que eles agora estão tentando penosamente reconstruir. Mas atualmente os oficiais do exército iraquiano falam abertamente a respeito de quais pontes sobre o Rio Tigre eles bloquearão caso haja um golpe de Estado. O comandante das forças armadas iraquianas afirmou em meados de agosto: “O exército dos Estados Unidos precisa permanecer aqui até que o exército iraquiano conte com plenas capacidades operacionais, o que só ocorrerá em 2020”.

A Guerra do Iraque provocou uma grande agitação no Oriente Médio, mas ela não resultou em progressos. Ela teve um vencedor que ninguém desejava: o Irã, cujo arqui-inimigo, Saddam Hussein, foi eliminado. E ela teve um perdedor: a reputação dos Estados Unidos como potência capaz de restaurar a ordem. Essa reputação foi maculada. E a guerra resultou em um país que encontra-se tão dividido hoje em dia quanto no dia em que foi criado.

O rei Faisal, que foi colocado no poder pelos britânicos, reclamou de que no Iraque “ainda não existe uma nação, mas sim uma massa inadministrável de pessoas que são avessas à ideia patriótica, que estão mergulhadas em absurdos de ordem religiosa, que não se encontram unidas por nada em comum, que são susceptíveis à anarquia e que encontram-se preparadas para revoltarem-se contra qualquer tipo de governo”. A dinastia dele durou 37 anos, sobreviveu a duas tentativas de golpe, e é atualmente reconhecida como o período mais estável da história moderna do Iraque.

Qual é o significado para este país, nesta parte do mundo, da declaração norte-americana, feita pela segunda vez, de que a guerra acabou? O significado disso é um ótimo negócio para Obama – e nada para o Iraque.

Tradutor: UOL

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