Tristeza e alegria para os sobreviventes das enchentes do Paquistão

Hasnain Kaim

em Multan (Paquistão)

  • Mohammad Sajjad/AP

    Sobreviventes das enchentes no Paquistão<br> fazem fila para receber alimento

    Sobreviventes das enchentes no Paquistão<br> fazem fila para receber alimento

Muitas das vítimas no Paquistão perderam tudo, e milhares fugiram para os abrigos de emergência em escolas na cidade de Multan. Elas estão traumatizadas e desesperadas – mas encontraram esperança na história de um órfão que encontrou novos pais no meio do caos.

Todo mundo adora o Adil. O menino é a estrela do abrigo de refugiados – todos o conhecem, fazem carinho em sua cabeça, fazem-no sorrir. Algumas vezes, contudo, ele começa a chorar – é muita gente, um pouco demais para o menino de dois anos, que não entende porque todos olham para ele e apertam suas bochechas.

Cerca de 500 pessoas estão morando atualmente na Escola de Ensino Médio do Governo Muçulmano em Multan, uma cidade na província de Punjab. “Todos os dias chegam mais pessoas”, diz Mohammed Mushtaq Naser, escoteiro de Multan. Além do grupo de meninos que ele acompanha, ele cuida das vítimas da enchente, garantindo que recebam remédios e alimentos duas vezes por dia – às 3h da manhã e às 19h. “As pessoas ainda estão tentando observar o mês de jejum do Ramadã, apesar da situação de emergência”, diz Naeem Akhbar, do escritório de bem estar local, que está ajudando Naser a administrar o acampamento. “Felizmente, estamos no meio das férias de verão e pudemos converter a escola em abrigo de emergência.”

Multan é uma metrópole cheia e caótica, um centro de praticantes do sufismo no Punjab. As cercanias são verdes e o cenário é dominado por campos de cana-de-açúcar, trigo, milho e arroz, assim como fábricas de algodão, silos de grãos e tendas. A cidade não foi atingida pela enorme enchente e tornou-se um imã para quem está fugindo dos rios violentos. Os abrigos de emergência foram montados em 22 escolas em Multan pelas autoridades, escoteiros e organizações de caridade e internacionais.

A cidade se localiza perto da região de catástrofe no Sul e se tornou um centro para os esforços de alívio de emergência. Hoje, os aviões militares japoneses pousaram em Multan com suprimentos de emergência. Enquanto os soldados japoneses exaustos voltavam para o hotel à noite, as pessoas na estrada se maravilham com os estrangeiros em seus uniformes de camuflagem verde oliva. Enquanto os japoneses acenavam, os paquistaneses sorriam e retribuíam o gesto.

“Essa enchente criou uma situação difícil para todos nós”


Adil mora no abrigo há duas semanas. As pessoas que estão cuidando dele demoraram vários dias para chegar de uma aldeia próxima da cidade de Dera Ghazi Khan, que foi lavada no início de agosto pelas enchentes ao longo do rio Indus.

“Perdemos tudo e estávamos prestes a partir quando vimos o corpo de uma mulher boiando no rio”, diz Anwar Bibi, 55. “Ao lado dela, havia dois outros corpos –de uma criança e de um bebê”, diz ela, lembrando-se da cena em sua aldeia devastada. “Foi um milagre – os dois estavam vivos”, diz ela. “Chamei meu filho Waseem que tirou as crianças da água.”

O bebê estava com hipotermia e a família levou-o ao hospital. Uma mesquita em uma cidade próxima anunciou que duas crianças sem pai haviam sido encontradas, na esperança de identificar parentes que pudessem levá-las. “E um segundo milagre ocorreu”, diz Waseem. “Um homem veio e disse que era o pai”. Mas em vez de abraçar as crianças, disse que não tinha mais posses e que não podia mais tomar conta delas. Aí desapareceu.

Enquanto Waseem conta a história, cerca de 30 pessoas com quem a família agora está dividindo uma sala de aula abanam a cabeça. “Impossível”, diz uma senhora. “Pare. Essa enchente criou uma situação de emergência tão difícil para todos nós que não devemos julgar os outros! Quem sabe? Talvez o homem achou que não teria forças para cuidar dessa criança”.

Waseem e sua mãe colocaram um pedaço de papel com seu número de telefone celular nas mãos do pai, caso quisesse ter seu filho de volta. Mas nas duas semanas desde que a família está morando no abrigo na escola, ele ainda não entrou em contato. “Isso não importa, porém, decidimos que ele vai crescer conosco”, diz Waseem, segurando firmemente o menino. Adil murmura para ele. Waseem diz que já tem três filhos e que não terá nenhum problema em adotar outro. Até a enchente destruir seu modo de vida, ele tinha um emprego e ganhava o suficiente para cuidar da família.

Sem dinheiro para recomeçar

A sala de aula ao lado está lotada com 50 pessoas, e muitas crianças estão pulando pela sala enquanto os pais sentam-se em cobertores espalhados pelo chão. Alguns estão deitados, dormindo, apesar do barulho. Mohammed Ramzan, 30, levanta-se. Cheio de orgulho nos olhos, mostra dois bebês deitados no cobertor. “Um é meu filho e o outro é da minha irmã”, diz ele sorrindo. Ele diz que os dois meninos nasceram no abrigo nos dias 13 e 20 de agosto.

A família Ramzan já está aqui há três semanas e não sabe quanto tempo mais terá que ficar. “Não tenho ideia do que vai acontecer conosco, como vamos seguir com nossas vidas”, diz ele. “Não temos mais nada – nossa casa desapareceu na água e minha lojinha também.” Ele diz que não tem dinheiro para comprar o material de construção que precisaria para recomeçar. “Mas não quero reclamar. Dou graças a Deus por ter me dado um filho e um sobrinho”. Ele diz que está feliz de ter algo para comer e beber todos os dias e que estão recebendo atendimento médico. “Ainda temos esperanças.”

Algumas pessoas no abrigo, especialmente as crianças, ficaram doentes – sofreram com diarreia e problemas de pele. “No geral, as coisas estão sob controle”, diz Ishfaq Ahmed, técnico de medicina responsável pela distribuição dos medicamentos. Pílulas, garrafas e sachês de pó estão arrumados em sua mesa. Uma folha de papel pendurada na parede atrás dele lista nomes de mulheres. “Estamos esperando mais nascimentos para os próximos dias”, diz ele, sorrindo enquanto olha para os nomes das mulheres grávidas.

Não há fim à vista para o desastre


Não há sinais nesta escola de que as pessoas estejam desanimadas e prontas para cair nos braços de extremistas islâmicos, como informaram alguns artigos nos jornais ocidentais. E as alegações de que o governo é corrupto tampouco agitam as pessoas no abrigo. Mas está claro que o ambiente é tenso e poderia mudar rapidamente, porque essas pessoas precisam ver que receberão uma oportunidade para um futuro melhor. E isso só pode acontecer com ajuda externa.

No resto do país, a revolta das vítimas da enchente com a lentidão e a ineficácia da assistência irrompeu na forma de protestos e bloqueios nas ruas. Na cidade de Sialkot, uma multidão irada matou dois jovens, acusados de roubar, e gerou um debate acalorado no Paquistão se as pessoas estão se tornando brutais como resultado do caos.

Na terça-feira (24/9), o governo em Islamabad anunciou que ia fornecer compensações às vítimas das enchentes. Cada família afetada pelas águas receberia 20.000 rúpias (em torno de R$ 400), disse um porta-voz do governo. Acredita-se que vinte milhões de pessoas tenham sido afetadas pelas cheias e que ao menos 1.500 pessoas morreram nas enchentes que começaram há um mês.

O presidente Asif Ali Zardari estima que serão necessários ao menos três anos para que grandes partes do país possam se recuperar da enchente devastadora. E não há sinal do fim do desastre. Nas cidades de Shadad Kot e Qambar, na província de Sindh no Sul, equipes de emergência estão trabalhando fervorosamente para reforçar diques para segurar as águas que se avolumam ao longo das margens do rio Indus.

Devastação no centro do país

O Punjab é o coração do Paquistão. Cerca de 60% da produção econômica do país vem da região, que abriga 90 milhões de pessoas – mais do que a população total da Alemanha. Muitos dos ricos e poderosos do país também são originários desta província, inclusive o chefe do exército Ashfaq Parvez Kaani e o primeiro-ministro Yousuf Raza Gilani. Tanto a região do Punjab quanto a de Sindh, ao Sul, são consideradas relativamente prósperas. Por esta razão, há poucos parceiros para as organizações internacionais de alívio, uma situação que está gerando problemas no momento. Como a região há muito é auto-suficiente, faltam estruturas de assistência. Os danos, porém, foram significativos.

Ghulam Shabir, 37, também está no abrigo há duas semanas com sua mulher e três filhos, em uma sala de aula que agora foi forçada a acomodar 30 pessoas. Sua aldeia, Mehmookdkot, foi destruída. Primeiro a família fugiu para a cidade de Muzaffarharh, mas apenas uma semana depois as enchentes chegaram lá.

“Multan parece segura”, diz ele. Antes da enchente, ele trabalhava como cabeleireiro. Agora, tornou-se o barbeiro do campo de refugiados. Ele se recusa a aceitar dinheiro por seus serviços, porém, gratidão e porque ninguém tem dinheiro mesmo.

Ele se despede, dizendo que precisa fazer mais alguns cortes de cabelo. Afinal, essas pessoas precisam estar com boa aparência – suas fotos estão aparecendo no mundo todo.
 

Tradutor: Deborah Weinberg

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