Novo livro faz Alemanha mergulhar em debate de imigração

  • Remy de la Mauviniere/ AP

    Imigrantes na europa: mulher muçulmana vestindo o niqab mostra passaporte francês

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Os imigrantes muçulmanos atravancam o progresso alemão? Para o novo livro do provocador Thilo Sarrazin, membro do conselho do Banco Central Alemão, sim. Seus comentários exagerados geraram mais um debate sobre imigração no país.

Thilo Sarrazin nunca foi um sujeito de medir suas palavras. O membro do conselho do Banco Central Alemão que já foi uma alta autoridade em Berlim há muito é um crítico estridente das políticas de imigração alemãs, chegando ao ponto de dizer em uma entrevista no último outono que os imigrantes se aproveitam do Estado, são incapazes de se integrar na sociedade alemã e “produzem constantemente menininhas com lenços na cabeça”.

Na entrevista, publicada pela revista cultural “Letre International”, ele também disse que “um grande número de árabes e turcos (em Berlim) não tem função produtiva além do comércio de frutas e legumes”. Na mesma entrevista, ele alegou que os turcos estavam “conquistando a Alemanha... por meio de um índice de natalidade mais elevado”.

Nesta semana, contudo, o social democrata (do SPD) parece ter se superado. A mídia alemã, inclusive o “Spiegel”, publicou trechos de seu futuro livro sobre a suposta derrocada da Alemanha. Como Sarrazin deixa abundantemente claro, essa derrocada resulta da imigração. A rudeza com a qual ele apresenta suas ideias gerou um debate na Alemanha e dentro do SPD, que é um partido de centro-esquerda, se Sarrazin não teria cruzado os limites do racismo e não deveria ser censurado.

Nos trechos publicados, Sarrazin escreve que as famílias imigrantes muçulmanas na Alemanha se aproveitam da segurança social mais do que contribuem para a prosperidade alemã. Ele também levantou o temor de um processo de tomada muçulmana do país, devido a um índice de natalidade muito mais alto entre imigrantes, superando o da população “autóctone” do país – um termo que se aproxima de “indígena”.

“Se a taxa de natalidade dos autóctones alemães continuar no mesmo nível que está há 40 anos, o número de alemães vai afundar para 20 milhões no curso das próximas três ou quatro gerações”, escreve no livro. “E, incidentalmente, é absolutamente realista que a população muçulmana, por uma combinação de um índice de natalidade mais alto e continuação da imigração, pode crescer para 35 milhões até 2100”. Em outra passagem, ele escreve: “Não quero que o país dos meus netos e bisnetos seja de maioria muçulmana, ou que o turco ou o árabe sejam falados em grandes áreas, que as mulheres usem lenços na cabeça e o ritmo diário seja ditado pelo chamado dos muezzin. Se eu quisesse vivenciar isso, tiraria férias no Oriente.”

Em outra passagem, Sarrazin parece sugerir que os imigrantes muçulmanos preferem trabalhar por debaixo da mesa a trabalhar legalmente. Pelos termos usados em sua polêmica, Sarrazin parece ter como meta aproximar o debate -altamente polarizado, sobre a imigração e a integração- dos populistas de direita de outras partes da Europa, como Geert Wilders, na Holanda.

“Estamos ficando mais burros”

Em uma contribuição para o tablóide de alta circulação “Bild”, Sarrazin escreveu em referência à relativa falta de sucesso que os imigrantes tiveram nas escolas alemães e às baixas taxas de natalidade do país, “estamos simplesmente aceitando que a Alemanha esteja se tornando menor e mais burra”. Dois meses atrás, Sarrazin gerou manchetes similares ao dizer “estamos ficando em média mais burros” e associou essa declaração com a integração com a “Turquia, Oriente Médio e África”.

As respostas nesta semana foram rápidas e ao ponto. O presidente do SPD, Sigmar Gabriel, chamou os comentários de Sarrazin de “linguisticamente violentos” e disse: “Se você me perguntasse por que ele ainda quer ser membro de nosso partido, tampouco saberia”. Ele planeja ler o livro para saber se há indicações de racismo. Outros no partido exigiram que Sarrazin deixasse o SPD imediatamente.

Os comentários de Sarrazin também criaram ondas fora do SPD. O presidente do Partido Verde, Cem Özdemir, chamou Sarrazin de “líder tribal nos moldes de Bin Laden”, em uma entrevista com o “Spiegel Online” e disse que ele fez um “desserviço aos esforços para melhorar as desigualdades sociais dramáticas em nosso país, e não apenas entre imigrantes”. Ele disse que estava desapontado porque “o debate sobre expectativas mútuas de alemães e imigrantes é muito mais racional do que Sarrazin faz parecer”.

A chanceler Angela Merkel tampouco ficou bem impressionada. Por meio de seu porta-voz, Steffen Seibert, ela disse na quarta-feira que as propostas de Sarrazin eram “extremamente ofensivas, difamatórias e muito polêmicas”. Ela também as chamou de completamente inúteis e disse que “é necessário outro tom”.

Possíveis consequências?

O Conselho Central de Judeus na Alemanha sugeriu que Sarrazin se unisse ao partido de extrema direita, Partido Nacional Democrático da Alemanha. “Isso ao menos deixaria mais claro onde ele está no debate e tiraria um peso do SPD.” Em um comunicado à imprensa no site do partido, Jürgen Gansel, um parlamentar do NPD no Estado da Saxônia, elogiou Sarrazin dizendo que seus “comentários sobre estrangeiros levantam o espírito das preocupações democráticas nacionais sobre a superação por estrangeiros”.

Após os comentários de Sarrazin no outono, o SPD iniciou um processo para expulsá-lo do partido, mas a tentativa fracassou em março. Ele, porém, foi disciplinado pelo Banco Central Alemão, que o afastou da administração do dinheiro vivo como resultado da entrevista à “Lettre Internacional”. Não está claro se o SPD vai fazer outro esforço para tirá-lo de suas fileiras. O Banco Central Alemão disse meramente que “o livro é um assunto privado do doutor Sarrazin. É uma expressão de sua opinião pessoal”.

Antes de deixar o cargo de senador de finanças de Berlim, Sarrazin ficou conhecido por seus comentários bruscos e muitas vezes controversos sobre uma variedade de assuntos. Ele famosamente chamou os servidores públicos de “pálidos e fedorentos” e disse sobre Berlim: “Em nenhum lugar se vê tantas pessoas se arrastando em público usando roupas esportivas”. Ele também chamou os estudantes de “estúpidos” e disse sobre o plano de resgate da fabricante de automóveis alemã Opel: “Ninguém precisa de um Opel”.

Em 2008, ele sugeriu que os pensionistas da Alemanha poderiam viver saudavelmente com apenas 3,76 euros por dia e sugeriu que o benefício de 4,25 euros por dia para alimentação era alto demais.

Tradutor: Deborah Weinberg

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