"Eu não penso sobre a morte", diz a montanhista Gerlinde Kaltenbrunner

A austríaca Gerlinde Kaltenbrunner escalou 13 das 14 montanhas mais altas do mundo. Em entrevista exclusiva à Spiegel, a montanhista de altitude falou pela primeira vez sobre o fracasso de sua recente expedição ao pico K2, que ela abortou depois de assistir o colega Fredrik Ericsson sofrer uma queda fatal de mil metros.

Spiegel: Senhorita Kaltenbrunner, o K2, com uma altura de 8.611 metros, é a segunda maior montanha da Terra. Seu pico fica numa zona da morte onde é quase impossível respirar por causa do ar rarefeito e onde há ventos com força de tempestade e temperaturas em torno de 40 graus negativos. Por que alguém desejaria ir até lá?

Gerlinde Kaltenbrunner: Sei que as pessoas acham difícil entender o que nós fazemos, e costumam me perguntar qual é o objetivo disso tudo. Mas esse é o nosso mundo; é o jeito que queremos viver. Aprendemos a nos mover de forma segura nesse mundo, embora sempre exista um elemento de risco.

Spiegel: Há alguns dias, você voltou de sua expedição mais recente ao K2, na cordilheira Karakoram ao longo da fronteira da China, Índia e Paquistão. Enquanto subia para o cume no começo de agosto, você perdeu seu companheiro de escalada e amigo, o montanhista sueco Fredrik Ericsson. Como você está?

Kaltenbrunner: Estou esgotada. Depois do acidente no K2, encontramos outro desastre em nossa viagem para casa.

Spiegel: A enchente no Paquistão, você quer dizer.

Kaltenbrunner: Nosso voo saía de Skardu, uma cidade no norte do Paquistão. No caminho para lá, passamos por um vilarejo que havia sido quase totalmente destruído por uma deslizamento de terra que matou 15 pessoas, arrastou casas inteiras e encobriu as ruas. Foi chocante.

Spiegel: Em maio, você havia acabado de escalar o Everest e, em junho, você e seu marido, Ralf Dujmovits, saíram para escalar o K2 depois de um breve período de descanso em casa. Você exige demais de si mesma.

Kaltenbrunner: Depois do Everest, eu ainda me sentia cheia de energia, e minha mente estava clara. Eu estava de fato ansiosa para escalar o K2.

Spiegel: Era sua terceira expedição à montanha, o último dos 14 picos mais altos que 8 mil metros que você ainda não havia conquistado. O que a atrai nessa montanha?

Kaltenbrunner: É um lugar bonito e mágico. Ele transpira força e poder. Em 1994, quando vi o K2 pela primeira vez, fiquei fascinada. Esta montanha entrou na minha cabeça; não consigo resistir à sua atração.

Spiegel: Para outras pessoas, ela tem sido um monstro. Quase todo ano morrem montanhistas no K2.

Kaltenbrunner: Tenho um grande respeito por esta montanha. Mas não tenho medo dela. Eu me debrucei sobre ela muito intensivamente, e a conheço em grande detalhe.

Spiegel: O que você quer dizer?

Kaltenbrunner: Por exemplo, na rota que escolhemos, precisamos esperar uma avalanche antes de começar a subida. Ela vem descendo entre os 7 mil e 5 mil metros numa nuvem maciça de neve. Dessa vez, eu quase consegui prever a hora exata que ela começaria.

Spiegel: Você começou esta subida com o seu marido como dupla. Quando vocês se encontraram com Fredrik Ericsson?

Kaltenbrunner: No acampamento base, a 5 mil metros de altitude. Ele estava lá com seu amigo Trey Cook. Fredrik era uma pessoa incrível, um montanhista de primeira classe. Nós nos conhecíamos há muito tempo, e éramos bons amigos há um ano.

Spiegel: Ericsson também era um esquiador extremo, e planejava descer o K2 esquiando.

Kaltenbrunner: Era o grande sonho dele. É estranho. Quando estávamos escalando, em nenhum momento eu pensei que algo poderia acontecer com ele no caminho para o cume. Mas, de certa forma, estava preocupada que ele sofresse um acidente ao descer esquiando a montanha. Há um ano, eu assisti de binóculos o parceiro de escalada dele cair 700 metros e morrer ao descer o K2 esquiando. Não conseguia tirar aquilo da cabeça.

Spiegel: Da última vez que tentou chegar ao cume do K2, você voltou porque havia muita neve na área do cume. Como estavam as condições desta vez?

Kaltenbrunner: A previsão do tempo estava boa, e quando saímos do acampamento base, estávamos praticamente eufóricos. O problema eram as pedras que caíam. Foi um verão muito quente na Karakoram, e até rochas grandes que normalmente ficam fixas por causa do solo congelado haviam se soltado. Era muito perigoso. Dava para ouvir o som das rochas caindo o tempo todo. No local onde montamos nosso terceiro acampamento, ficávamos de capacete até durante a noite.

Spiegel: Seu marido, que há escalou todos os picos acima de 8 mil metros, voltou antes de atingir o chamado “ombro” do K2, a 7.600 metros. Por quê?

Kaltenbrunner: Ele achou que era muito perigoso por causa das pedras caindo. Ele já havia escalado do K2; não precisava subir de novo.

“Eu estava determinada a chegar ao topo do K2”

Spiegel: Vocês discutiram isso?

Kaltenbrunner: Não. Nós concordamos há muito tempo que, numa situação como esta, nós aceitaríamos a decisão do outro. Tudo o que perguntei a ele foi: “Como você está? Você está se sentindo bem? Você consegue descer?”. Ele disse que estava tudo bem e que sentia muito. Por um momento, foi muito difícil. Nós nos despedimos, e eu não me senti aliviada até a noite, quando ouvi pelo rádio que ele havia descido em segurança.

Spiegel: Mas, apesar do risco, você continuou.

Kaltenbrunner: Eu estava determinada a chegar ao cume do K2, e achei que conseguiria.

Spiegel: Se você conquista uma certa fama no mundo do montanhismo, se todos estão observando, e se você está tão perto de chegar ao cume da montanha de 8 mil metros que falta, você tende a assumir riscos maiores?

Kaltenbrunner: Existe esse perigo. Mas, ao longo dos anos, aprendi a pesar os riscos. Eu ouço meu corpo. Se não tiver a sensação certa, não penso duas vezes em voltar atrás. Uma vez eu voltei a 100 metros de atingir o pico do Lhotse porque senti que os riscos eram grandes demais. E não permito me sentir pressionada pelas expectativas das pessoas.

Spiegel: Quando você se juntou a Ericsson e seu parceiro de escalada, Trey Cook, no K2? Foi quando vocês se encontraram no acampamento base?

Kaltenbrunner: Por coincidência, nós estávamos na mesma escala de dias de descanso e escalada, o que significava que já estávamos subindo em paralelo desde o acampamento base. Depois que Ralf decidiu voltar, nós continuamos escalando até o ombro, e montamos nossas barracas no último acampamento cerca de 16h. Isso foi aos 7.950 metros.

Spiegel: Você conseguiu dormir um pouco?

Kaltenbrunner: Não. Eu estava muito tensa. Derreti neve para ter o máximo de água possível; você se desidrata muito rápido naquela altitude. Eu também dei um litro de água para dois outros montanhistas porque o fogareiro deles não estava funcionando direito. À 1h15, eu já estava pronta para subir. A previsão do tempo era boa. O vento e a neve deveriam parar durante a segunda metade da noite, e o tempo deveria até ficar ensolarado durante o dia. Em outras palavras, deveria ser um dia perfeito.

Spiegel: A partir daquele ponto, vocês corriam contra o tempo?

Kaltenbrunner: Nós planejamos atingir o pico em dez horas. Não estava tão frio, apenas 23 graus negativos. Fredrik e Trey saíram um pouco antes de mim, mas eu os alcancei. Nós colocamos bandeiras de marcação a cada 15 ou 20 metros para encontrarmos nosso caminho de volta. Depois de algum tempo, Trey decidiu voltar porque não estava sentindo seus dedos e estava cansado.

Spiegel: Depois disso, eram apenas você e Ericsson?

Kaltenbrunner: Sim. Nós nos revezamos para abrir caminho na neve, que em alguns lugares ia até os joelhos, e estávamos progredindo. O amanhecer começou às 4h15. Pouco depois, nós chegamos a um penhasco íngreme. Há uma formação rochosa do lado direito que parece ter o formato de um coração quando vista à distância. No meio dela, há uma encosta chamada de “Gargalo da Garrafa” que é preciso atravessar.

Spiegel: Em 2008, 11 montanhistas morreram nesse exato local.

Kaltenbrunner: É um trecho perigoso. No final do Gargalo da Garrafa há uma torre de gelo em forma de couve-flor, conhecida como serac, que tem uma grande saliência. Você tem que passá-la pelo lado esquerdo. Primeiro, nós passamos a corda na fenda por causa das fissuras no gelo. Depois chegamos ao terreno de 45 graus, onde você pode continuar subindo sem cordas. Quando a fenda começou a ficar íngreme novamente, em até 80 graus, Fredrick quis “construir um lugar para ficar em pé” - ou seja, martelar pitons para se manter na posição (nota do editor: pitons são pinos de metal que os montanhistas colocam nas fendas para se ancorarem com uma corda e mosquetão). A rocha não era sólida o suficiente no primeiro ponto, então subimos um pouco mais. Fredrik estava 40 metros acima de mim, à minha direita. Por um momento, eu não estava olhando para cima. Acho que ele estava tentando colocar os pitons numa parte da rocha, mas algo deve ter partido. Aconteceu muito rápido, e a neblina estava muito densa. Tudo o que eu vi foi que, de repente, ele estava caindo. Ele soltou um grito breve. Pelo canto do olho, eu o vi passando por mim junto com algumas rochas.

Spiegel: Como você reagiu?

Kaltenbrunner: Eu gritei alguma coisa, embora não me lembre o quê. Fiquei lá como que congelada e pensei: “Por favor! Isso não pode estar acontecendo!” Eu me agarrei na minha ferramenta de gelo. Não queria acreditar naquilo.

Spiegel: Você pensou em continuar até o cume?

Kaltenbrunner: Em nenhum momento. Eu enviei uma mensagem de rádio para meu marido: “Ralf! Ralf! Fredrik caiu!” E então comecei a descer. Não sei por que, mas de certa forma eu imaginava que poderia encontrar Fredrik.

Spiegel: Havia alguma chance de que ele tivesse sobrevivido?

Kaltenbrunner: Uma chance muito hipotética. Abaixo de nós, havia uma superfície sobre a qual ele poderia ter parado. Mas tudo o que eu encontrei foi um esqui. Ele com certeza tinha caído rápido demais para se agarrar no gelo duro. Logo depois, Ralf me enviou um rádio dizendo que outro montanhista havia visto Fredrik deitado imóvel na neve no nível do acampamento 3. Ele havia caído mil metros ao longo de um enorme desfiladeiro.

Spiegel: Depois do acidente, você desceu mais de 3 mil metros sozinha até o acampamento base. Durante esse tempo, o que passava por sua cabeça?

Kaltenbrunner: Eu estava muito tensa, e tinha que me concentrar muito para evitar cometer qualquer erro. Eu não podia descer de rapel porque as pedras que caíam haviam danificado as cordas que havíamos levado conosco na subida. Então tive que escalar para baixo. Ralf queria que eu passasse a noite no Acampamento 2, mas eu não conseguia me imaginar fazendo isso. Pensei: “Preciso chegar lá embaixo hoje!” Mas fiz um intervalo em 6.300 metros. Esperei lá até o anoitecer, quando a temperatura cai e diminui o risco de caírem pedras. Foi o que eu prometi a Ralf. Onze horas depois do acidente, cheguei no acampamento base.

“Quando estou na montanha, estou sempre totalmente concentrada”

Spiegel: Como uma montanhista de altitude, você pensa muito sobre a queda? Ou sobre a morte?

Kaltenbrunner: Isso nem passa pela minha cabeça. Quando estou na montanha, estou sempre totalmente concentrada e tenho muito cuidado. Nunca tenho medo de cair. É claro, eu penso sobre o que posso esperar da montanha e o que pode acontecer lá. Mas, uma vez que começo a escalar, não penso sobre a morte. Isso não existe.

Spiegel: Há três anos, você foi soterrada por uma avalanche em Dhaulagiri. Como montanhista, você está acostumada a lidar com o medo da morte?

Kaltenbrunner: É uma história completamente diferente quando você está lutando por sua vida. Daquela vez, eu fui muito sortuda. Quando a avalanche me atingiu, eu estava em minha barraca. Fui arrastada e soterrada, mas ainda conseguia respirar e mexer minha mão numa pequena cavidade. Encontrei minha faca, rasguei a barraca e cavei para sair de lá. Depois disso, procurei dois montanhistas espanhóis que também haviam sido soterrados. Levei duas horas para desenterrá-los, mas era tarde demais. Foi extremamente doloroso.

Spiegel: Alguma coisa mudou para você desde então?

Kaltenbrunner: Eu fiquei ainda mais cuidadosa. Hoje, prefiro passar uma noite sem dormir do que montar acampamento num lugar onde há risco de avalanche.

Spiegel: Durante suas expedições nos picos acima de 8 mil metros, já houve algum momento de prazer?

Kaltenbrunner: É claro, do contrário eu provavelmente não seria atraída para eles tantas vezes. Já passamos muitos momentos bonitos no K2. O acampamento a 6.300 metros é muito seguro. Durante a tarde, quando o sol está se pondo, toda a cadeia de montanhas de Karakoram fica iluminada. É energia pura.

Spiegel: Esta é a recompensa, a paisagem?

Kaltenbrunner: A paisagem junto com o silêncio. Acho impressionante que eu, um pequeno ser humano, possa escalar esta montanha gigante e ver tudo lá de cima. Quando eu desço do cume e as nuvens de repente se abrem, sinto como se pudesse abraçar o mundo inteiro. Essas são as impressões que bastam para mim.

Spiegel: Você é uma das estrelas do mundo do montanhismo de altitude. Como os homens lidam com o seu sucesso?

Kaltenbrunner: Primeiro, eles não me notavam. Mas com o tempo, depois de aparecer várias vezes, fui finalmente aceita. Infelizmente, sempre me deparo com pessoas que nunca me encontraram e presumem que alguém abriu atalhos para mim na neve e que também recebo ajuda dos outros de outras maneiras.

Spiegel: Você ainda precisa provar a si mesma?

Kaltenbrunner: Não para mim. Mas percebo que a malevolência me incomoda. No Lhotse, alguém disse uma vez que eu tinha ido para o acampamento base de helicóptero e que dois sherpas estavam construindo acampamentos em alta altitude para mim. Isso foi totalmente inventado.

Spiegel: De onde vem toda a fofoca entre os montanhistas?

Kaltenbrunner: É inveja e ressentimento.

Spiegel: Há três meses, mesmo que por meios questionáveis, a alpinista Oh Eun-sun, da Coreia do Sul, tornou-se a primeira mulher a conquistar todos os picos acima de 8 mil metros. Você está desapontada por não ter sido a primeira?

Kaltenbrunner: Eu sempre disse que não estou interessada em bater nenhum recorde por escalar todos os picos acima de 8 mil metros. Fico contente que Oh Eun-sun tenha escalado todos eles. Mas é questionável.

Spiegel: Você pode imaginar desistir do K2?

Kaltenbrunner: Não tenho certeza disso ainda; ainda estou pensando sobre o assunto. Por enquanto, só quero esperar um tempo e ver como me sinto. Tenho tido conversas longas e frequentes com meu marido Ralf, para me ajudar a trabalhar as minhas experiências. Então vou ver. Em todo caso, não é algo que eu quero tentar a qualquer custo.

Spiegel: Senhorita Kaltenbrunner, obrigado por falar conosco.

Entrevista feita por Detlef Hacke e Gerhard Pfeil.

Tradutor: Eloise De Vylder

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