"Mulheres não são chimpanzés", diz Elisabeth Badinter

A filósofa francesa Elisabeth Badinter entrou para o movimento de liberação feminina nos anos 70. Numa entrevista à Spiegel, ela discutiu seus temores de que um novo movimento de volta à natureza esteja persuadindo muitas mulheres ocidentais a abandonarem as conquistas da emancipação e em vez disso abraçarem os valores de suas avós.

Spiegel: Você tem três filhos já crescidos. Foi uma boa mãe?

Elisabeth Badinter: Que a verdade seja dita, como a maioria das outras mães, eu fui uma bem medíocre. Sempre tentei fazer o máximo que eu podia para meus filhos. Mas, a partir de uma perspectiva mais atual, também fiz muitas coisas erradas. Então, eu descreveria a mim mesma como uma mãe totalmente comum.

Spiegel: Você é uma seguidora da escritora feminista francesa Simone de Beauvoir, que rejeitou categoricamente a maternidade. Você nunca achou que havia nenhuma contradição entre ser uma feminista e uma mãe?

Badinter: Não. Eu quis aquelas crianças, e quis tê-las na sequência. Eu ainda era estudante na época, e toda vez que tive filhos foi bem no meio das provas finais. Ou seja, eu estava grávida sempre durante minhas provas escritas, e tinha o bebê antes das provas orais. Foi por isso que eu fui reprovada várias vezes. Pertenço a uma geração de mulheres que tinha filhos sem pesar os prós e contras; era simplesmente uma coisa natural. E lembro das três vezes que fiquei grávida como a melhor época da minha vida. Mas teve uma coisa que eu nunca fiz: nunca me perguntei se eu seria uma boa mãe ou se eu conseguiria atender às demandas, como muitas mulheres jovens fazem hoje em dia.

Spiegel: Em seu último livro, “Le conflit, la femme et la mère” (“O conflito: A Mulher e a Mãe”), você escreve que as mulheres de hoje estão sob uma pressão cada vez maior para ter filhos e que não é mais suficiente apenas ser mãe, elas precisam ser uma mãe perfeita que só amamenta no peito, que fica em casa com os filhos por bastante tempo e que os criam da melhor forma que podem.

Badinter: Estamos vivendo atualmente uma fase complicada de nosso desenvolvimento, uma volta a um tempo que já passou. Na França, chamamos esse fenômeno de “a criança rei”, ou “a criança é o rei”. De acordo com essa visão, os interesses da mãe são claramente menos importantes do que os da criança; eles são secundários. E isso, por sua vez, traz consigo o desejo de que a criança seja perfeita. Muitas das jovens mães de hoje acreditam que se fizerem o esforço de ficarem em casa e se dedicarem completamente a seus filhos, querem que eles sejam perfeitos também: perfeitamente educados, inteligentes, equilibrados, em harmonia com a natureza. Eu honestamente me pergunto como isso afeta a criança a longo prazo.

Spiegel: Você se opõe particularmente à amamentação, que as mulheres são levemente pressionadas a fazer.

Badinter: Levemente pressionadas? Claro, com a ajuda de uma culpa gigantesca! “Você não quer amamentar? Mas, senhora, você não quer o melhor para seu filho?”, dizem as enfermeiras se você diz que prefere dar a mamadeira. Sabe quando foi que eu tive a ideia para escrever este livro? Foi em 1998, quando Bernard Kouchner, que era ministro da saúde da França na época, não só implementou uma norma da União Europeia proibindo propagandas de leite em pó para bebês, mas também proibiu a distribuição de amostras grátis de leite em pó nas maternidades dos hospitais.

Spiegel: Qual é o problema com a amamentação?

Badinter: Absolutamente nenhum. Só acho que é uma das decisões mais íntimas e pessoais que você pode tomar. Se uma mulher quer fazê-lo, é ótimo; se não, tudo bem, também. Isso não é da conta dos políticos. Infelizmente, a França adotou a orientação da Organização Mundial da Saúde que diz que as crianças deveriam ser exclusivamente amamentadas durante os primeiros seis meses e, se possível, por mais 12 meses com alimentos suplementares. Essas orientações fazem sentido nos países em desenvolvimento onde as pessoas tiveram experiências ruins com leite em pó e água contaminada. Mas por que em nome de Deus isso deveria ser aplicado em Paris e Berlim? Isso nos catapulta de volta para a época de nossas avós.

Spiegel: Então você considera o simples fato de recomendar que as mulheres amamentem seus filhos um passo atrás para a liberação feminina?

Badinter: Vou repetir: acho que é ótimo se uma mulher decide amamentar. Mas isso deve ser voluntário. Há vários anos venho observando com muito espanto o movimento de volta à natureza, que vê a si mesmo como a vanguarda de hoje. Ele encoraja as mulheres a dar à luz sem uma epidural e ficarem em casa com seu bebê pelo maior tempo possível porque dizem que isso é bom para a ligação entre mãe e filho. Eles querem que nós usemos fraldas laváveis porque é melhor para o ambiente. Há dois anos, o ministro do meio ambiente chegou a sugerir seriamente a cobrança de um imposto sobre fraldas descartáveis.

Spiegel: Você vê nisso uma medida maior do que simplesmente proteger o ambiente?

 

Badinter: Sim, porque seria suficiente promover a fabricação de fraldas biodegradáveis. Esse movimento é ideologicamente motivado e está nos levando de volta para o século 18, para Jean-Jacques Rousseau e seu modelo de mãe ideal. É um pouco como tentar reavivar o mamífero adormecido dentro das mulheres. Mas mulheres não são chimpanzés.

“Os primeiros sinais de uma tendência alarmante”

Spiegel: Você não está exagerando um pouco?

Badinter: O que estou descrevendo são os primeiros sinais de uma tendência alarmante. Se levarmos todas essas recomendações a sério, onde é que isso vai nos levar? As mulheres serão cada vez mais forçadas a ficarem em casa. Como elas podem trabalhar se devem amamentar por seis meses ou mais? Será que terão que chamar um táxi, com a bomba de leite na mão, a cada duas horas? Até durante esta crise econômica, cada vez mais mulheres estão optando por ficar em casa. E isso inclui muitas mulheres altamente capacitadas que agora só querem ser a mãe perfeita.

Spiegel: Nem toda mulher quer continuar a defender a causa da emancipação depois que se torna mãe.

Badinter: Claro, mas há duas outras coisas que preocupam todas as mulheres no ocidente – e de forma muito pessoal. Primeiro, metade dos casais se separam entre três e sete anos de relacionamento. Então, isso significa que a mulher que passa sete anos sem uma posição firme no mercado de trabalho e cujo futuro econômico está sob um grande risco é repentinamente abandonada e precisa cuidar de seus filhos e de si mesma. Segundo, a parte ativa de cuidar de uma criança consome cerca de 10 a 15 anos de sua vida inteira, mas a expectativa de vida média de uma mulher está acima dos 80 anos. Será que as mulheres precisam dedicar sua vida inteira apenas a criar filhos? O que acontece depois, quando os filhos saem de casa, e talvez o marido também? O que acontece então?

Spiegel: Você está fazendo um retrato muito pessimista de seu país. As taxas de natalidade na França ainda são as mais altas da Europa: em média, as mulheres francesas têm dois filhos, enquanto o número na Alemanha é de apenas 1,38. E elas continuam a trabalhar em tempo integral depois de ter filhos.

Badinter: As mulheres francesas têm filhos porque é mais fácil para elas serem mães e continuarem trabalhando e fazendo outras coisas. Elas podem deixar os filhos com outras pessoas, e nem sua sogra, marido ou mãe irá repreendê-las por fazer isso. Na França, ter alguém que tome conta de seus filhos não é algo fundamentalmente ruim. Ainda assim, acho assustador quando as mulheres são encorajadas a adotarem outro modelo, ostensivamente em nome da ciência e pelo bem dos filhos. É também um argumento contra a sociedade materialista e egocêntrica. “Vamos voltar às nossas raízes!”, dizem os defensores do movimento verde. “Vamos ouvir a natureza! Vamos amamentar! Vamos ficar em casa com nossos filhos!” E, surpreendentemente, muitas jovens mulheres acham isso interessante.

Spiegel: Será que é porque elas viram suas mães se matando de trabalhar para conciliar empregos, filhos e maridos?

Badinter: É claro. O que estamos experienciando agora são as filhas se vingando de suas mães. Eu também não queria ser como a minha mãe – ou seja, ficar em casa esperando papai chegar, esperando que ele me desse algum dinheiro. Eu queria ser independente. A atual geração de mulheres jovens é feita de filhas das feministas dos anos 70. Elas não querem ser como suas mães – divididas entre o emprego e a família, constantemente estressadas, constantemente cansadas. Elas acham que terão muito mais satisfação se dedicarem-se inteiramente a seus filhos. Essa perspectiva é sedutora para muitas mulheres. E o que é interessante é que é particularmente popular entre as mulheres com boa escolaridade e aquelas com pouco treinamento profissional.

Spiegel: O modelo das mães delas de fato tornou as mulheres felizes?

Badinter: Embora com certeza não seja perfeito, é um imenso passo adiante. Nós pudemos ter filhos e trabalhar – e ninguém fez com que nos sentíssemos mal por isso. Acho que é uma das maiores diferenças entre as mulheres francesas e as alemãs. As mulheres francesas sempre foram mulheres antes e acima de tudo, e só então mães. Pouco depois de ter filhos elas não ficavam simplesmente em casa com seus filhos; elas saíam e voltavam a trabalhar logo. Elas querem voltar a suas vidas e fazer parte da sociedade, e também precisam ser uma mulher novamente, serem sedutoras – que é o que os homens franceses esperam. Não se trata apenas de um fenômeno superficial. Está em nossos genes. Até no século 17 e 18, as mulheres tinham uma vida além da vida de seus filhos – uma vida comunal, uma vida social, uma vida amorosa.

Spiegel: Por mais deprimente que você considere a situação na França, você provavelmente acha que a Alemanha é um inferno para as mães.

Badinter: Estou muito interessada com o que está acontecendo atualmente na Alemanha, uma vez que são os primeiros sinais do que nos espera. As mulheres – especialmente as que estudaram e têm carreiras interessantes – não estão mais tendo filhos, e estão questionando o modelo alemão da mãe. Por exemplo, 28% de todas as graduadas em universidades no oeste da Alemanha escolhem não ter filhos, o que é inédito na história humana. Isso significa que, pela primeira vez em muitos séculos, não podemos mais dizer que ser uma mulher significa ser uma mãe. Dadas as dificuldades de encontrar berçários na Alemanha e as expectativas sociais colocadas sobre as mães, essas mulheres optam por uma vida sem filhos. No processo, elas estão redefinindo o que significa ser uma mulher – e mostrando que isso também pode deixar as mulheres felizes. Isso é uma revolução.

Spiegel: Mas uma revolução positiva?

Badinter: Bem, eu preferiria que as mulheres pudessem ter filhos sem ter de sacrificar suas carreiras. Mas toda mulher tem o direito de decidir não ter filhos. As mulheres não são mais uma frente unida; há campos diferentes. Da mesma forma, não somos os mamíferos controlados por hormônios em que esse movimento de volta à natureza quer que acreditemos.

Spiegel: Durante anos você disse que não existia nada parecido com o “instinto materno” que é frequentemente citado.

Badinter: Eu soube disso antes de engravidar pela primeira vez. E graças a Deus! Eu nunca me perguntei se era normal não ter vontade de passar 24 horas por dia só com um bebê pequeno. Tenho certeza de que há mulheres que gostam disso, mas não sou uma delas. E posso dizer outra coisa que aprendi ao longo dos anos olhando pela minha janela e observando mães passearem no parque do Jardim de Luxemburgo: passei horas observando seus rostos vazios e suas expressões de Deus-como-eu-odeio-tudo-isso. Essas mulheres se sentam entediadas do lado do tanque de areia, olhando para a esquerda e a direita, enquanto seus filhos brincam sozinhos na areia. Por que as mulheres não podem admitir que pode ser insuportável ter que passar o dia inteiro com uma criança pequena? Isso não a torna uma mãe ruim automaticamente.

Spigel: Então, o que é uma boa mãe?

Badinter: O etnologista francês Claude Lévi-Strauss disse que você deve sempre manter a distância certa entre duas culturas. Acho que uma boa mãe é alguém que consegue manter uma boa distância entre ela e seu filho – não perto demais, não longe demais – e dar a ele o que precisa, sem sufocá-lo, não estar constantemente ausente nem constantemente presente. Ela precisa estar no meio disso. Mas, infelizmente, isso é extremamente raro.

Spiegel: Sra. Badinter, obrigada por conversar conosco.

*Elisabeth Badinter, 66, é uma escritora, feminista e filósofa francesa. Até recentemente, ela dava aulas na École Polythecnique em Paris. Ela também faz parte do conselho da agência de publicidade francesa Publicis, que foi fundada por seu pai, Marcel Bleustein-Blanchet. Seu marido, Robert Badinter, foi ministro da justiça do presidente François Mitterrand. Juntos, eles têm três filhos, dois homens e uma mulher, que nasceram no espaço de três anos e meio. Seguidora de Simone de Beauvoir, Badinter se juntou ao movimento de liberação feminina no começo dos anos 70. Ao longo dos anos, ela publicou vários livros sobre o assunto, incluindo uma história do amor materno.
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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