Um ano após o ataque aéreo em Kunduz, governo alemão não conduziu nenhuma investigação séria

  • Kai Pfaffenbach/Reuters

    Soldados alemães patrulham área de Kunduz

    Soldados alemães patrulham área de Kunduz

Após o ataque aéreo letal em Kunduz, ordenado por militares alemães, em 4 de setembro de 2009, a chanceler alemã Angela Merkel prometeu uma investigação completa. Mas, um ano depois, questões relativa ao bombardeio continuam sem respostas e muitos detalhes sobre o incidente permanecem classificados como sigilosos.

A chanceler assumiu o compromisso pessoal de resolver o caso. Em 8 de setembro de 2009, após ter feito declarações vagas depois do terrível ataque aéreo contra dois caminhões-tanques que estavam atolados em um banco de areia no Rio Kunduz, Angela Merkel finalmente deu uma declaração clara. “Eu e todo o governo temos certeza de que as causas desse incidente serão inteiramente descobertas”, prometeu a chanceler à nação. “As forças armadas alemãs farão tudo o que estiver ao seu alcance para contribuírem com a investigação”.

A promessa de Angela Merkel foi inteiramente justificada. Em 4 de setembro de 2009, o coronel alemão Georg Klein ordenou o bombardeio de dois caminhões-tanques na província afegã de Kunduz. O ataque matou 142 pessoas, incluindo vários civis. O incidente trouxe a realidade da guerra para a Alemanha.

Mas o governo empenhou-se ao máximo em garantir que esta realidade chegasse ao país de uma forma altamente filtrada. As notícias sobre o ataque aéreo em Kunduz foram encobertas, suprimidas ou minimizadas ao máximo. E, quase um ano depois, pouca coisa mudou.

Um ano após o ataque, documentos internos da Chancelaria Alemã, do Ministério das Relações Exteriores e do BND (Bundesnachrichtendienst, ou Serviço Federal de Inteligência), a agência de inteligência externa da Alemanha, revelam como Berlim sabia, ao contrário do que indicava a reação oficial, que muitos civis estavam entre os mortos em Kunduz. Esses documentos revelam como ficou rapidamente claro para o governo alemão que um erro horrível havia sido cometido em Kunduz.

Provas insuficientes

Já no dia do ataque aéreo, um diplomata alemão alertou em um relatório interno: “Esta onda que está varrendo o povo alemão poderá atingir o nível de um tsunami durante a eleição”. O governo, que enfrentaria uma eleição em 29 de setembro do ano passado, estava determinado a evitar a todo custo que isso acontecesse.

Os documentos, que o ministro da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg, desejava revelar à população, ainda se encontram inacessíveis ao público, devido à sua classificação de sigilo. A investigação do coronel Klein, o oficial que ordenou o ataque aéreo que vinha sendo conduzida pela procuradoria-geral do país, foi abandonada. As ações de Klein teriam sido consideradas justificadas segundo os critérios relevantes da lei humanitária internacional. Mas não houve nenhum julgamento que proporcionasse uma oportunidade de examinar esta avaliação.

Após quatro meses de investigação, o inspetor-geral das forças armadas alemãs, a Bundeswehr, concluiu que as evidências eram insuficientes para justificar uma corte marcial. O comandante da missão e o oficial de imprensa, que descreveram o incidente de 4 de setembro como “uma missão bem sucedida contra insurgentes na área de Kunduz”, ainda mantêm os seus cargos.

No dia do ataque aéreo, diplomatas do Ministério das Relações Exteriores já tinham assumido que a versão do incidente disseminada pelo Ministério da Defesa era incorreta. Um relatório da agência de notícias “DDP” (“Deutscher Depeschendienst”) divulgado na tarde de sexta-feira, 4 de setembro, cerca de 17 horas após o bombardeio, circulou no Ministério das Relações Exteriores.

A agência de notícias, citando o Ministério da Defesa, anunciou que o bombardeio aéreo evitou um ataque suicida do Taleban e que o vice-ministro da Defesa, Thomas Kossendey, declarou que a reação foi justificada, porque o que se tinha era um “caso de perigo iminente”. Um dos diplomatas envolvidos no caso escreveu em uma mensagem eletrônica, à qual não faltou ironia: “Se esta tentativa de esclarecer o caso for completamente lógica e razoável, em breve nós veremos vacas voando... Na minha opinião, Kossendey está completamente errado quanto a isso. Isso é muito irritante!”.

“Os moradores da nossa vila estão mortos!”

Autoridades da chancelaria foram também informadas antecipadamente de que uma parte da versão apresentada pelo Ministério da Defesa poderia não ser verdadeira. Dois dias após o ataque aéreo, o oficial militar de maior patente da chancelaria, Erich Vad, prestou informações ao assessor de política externa de Angela Merkel, Christoph Heusgen. Após entrar em contato com o comando da Bundeswehr, Vad redigiu: “Ao contrário do que dizem os atuais comunicados à imprensa do Ministério da Defesa, não se pode afirmar categoricamente que não houve mortes de civis”.

O governo também recebeu outros alertas antes de discurso de Angela Merkel ao parlamento alemão, o Bundestag, em 8 de setembro.
O BND, por exemplo, menciona uma conversa interceptada entre dois moradores da área. “Cinco mujaheddin e cerca de 30 civis foram mortos”, diz um dos homens, amaldiçoando um dos comandantes locais do Taleban. “Foi como se Abdul Rahman, aquele idiota, tivesse colocado os caminhões-tanques lá... Os cinco mujaheddin mortos faziam parte do contingente comandado por Maulawi Abdul Rahman. Mas os moradores da nossa vila estão mortos! Eles retiraram de 10 a 15 corpos só em Isa Khel. Todas as casas da vila perderam duas ou três pessoas!”.

Os documentos continuam no mesmo estilo, com transcrições de gravações de telefonemas sucessivos que foram interceptados. Um dos afegãos mencionou “cerca de 150 moradores mortos” e reclamou: “Ah, Deus, ah, Deus, que catástrofe enorme!”. A pessoa com quem ele falava chamou o episódio de um “desastre inacreditável'. O BND interceptou várias dezenas de conversas similares e enviou as cópias a Berlim, onde elas agora se encontram nos arquivos da agência com classificação de sigilo “ultrassecreto”. E não há nenhuma indicação daquela investigação integral que foi prometida.
 

Tradutor: UOL

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