Vítimas do bombardeio de Kunduz: "Os alemães mentiram para nós"

Matthias Gebauer

  • Rahat Dar / EFE

    Moradores da cidade de Kunduz, no Paquistão, fazem protesto contra atentado

    Moradores da cidade de Kunduz, no Paquistão, fazem protesto contra atentado

Um ano atrás, o agricultor afegão Nur Jan ficou gravemente ferido quando retirava gasolina de um caminhão-tanque capturado pelo Taleban. O ataque aéreo ordenado pelos alemães no Rio Kunduz o deixou incapacitado para trabalhar e ele diz que a indenização que lhe foi oferecida não cobre sequer as suas despesas com remédios.

Nur Jan, um agricultor afegão, diz que prefere morrer a continuar vivendo desta forma. O homem de face emaciada olha para o seu corpo. Do seu braço direito restou apenas um coto abaixo do cotovelo, que ele não consegue mais mover. No Afeganistão, uma deficiência física é algo do qual o indivíduo deve sentir vergonha, e por isso Nur Jan mantém o coto oculto sob a túnica suja. Ele diz que não é mais um homem, e sim apenas “uma meia pessoa”. Nur Jan conta que não é capaz de sustentar a mulher e os quatro filhos, que é um inútil e que sente vergonha de ser aleijado.

Nur Jan quase morreu um ano atrás, em 4 de setembro de 2009. Ele correu da sua vila, Omar Khel, até o Rio Kunduz carregando um recipiente de plástico. Isso foi pouco após o tradicional jantar da meia-noite durante o mês de jejum do Ramadã, quando os vizinhos o chamaram. Dois caminhões-tanques estavam atolados no cascalho e na lama de um banco no rio. Um grande grupo de moradores da vila, cerca de cem pessoas, já havia corrido até lá para retirar gasolina dos caminhões.

A boca de Nur Jan mal se mexe quando ele fala sobre aquela noite de setembro há quase um ano. Tudo do que ele se lembra é da explosão. Subitamente, houve um clarão semelhante ao de um raio, e depois disso tudo foi engolido pelas chamas. Quando Nur Jan acordou no dia seguinte, ele estava no hospital em Kunduz. A sua mão havia sido amputada em uma operação improvisada, a sua perna ficara seriamente queimada e ele sentia dores enormes. Uma pessoa lhe disse que duas bombas tinham sido lançadas por aviões de caça dos Estados Unidos. Até hoje Nur Jan não sabe praticamente mais nada a respeito daquela noite no Rio Kunduz.

Um presente da Bundeswehr

Nur Jan não sabe exatamente que idade tem. Segundo o seu título de eleitor, um pedaço de papel meio rasgado colocado em uma sacola de plástico, que ele sempre leva consigo, Nur Jan nasceu em 1982, o que parece ser correto. Na sacola estão também os seus poucos bens preciosos, uma pequena quantidade de dinheiro e, desde o início do Ramadã, uma carteira de identificação azul, de aparência moderna, com a sua foto. O nome dele está impresso na carteira em letras maiúsculas, e sobre o nome há um número de oito dígitos. Mas Nur Jan não é capaz de ler as informações contidas na carteira.

A carteira azul é uma espécie de presente que lhe foi dado pelas forças armadas alemãs, a Bundeswehr. Ela dá acesso a uma conta no Banco de Cabul, e a ideia é que seja vista com uma iniciativa humanitária alemã em relação às vitimas de Kunduz. Pouco antes do aniversário de um ano do bombardeio solicitado pelos alemães, os cartões de banco foram distribuídos como uma forma de proporcionar uma indenização aos vários civis que estavam aglomerados em volta dos caminhões quando as bombas foram lançadas. A Bundeswehr esperava acalmar as vítimas pagando US$ 5,000 (3.940 euros, R$ 8.800) a cada família dos 91 mortos e 11 feridos.

Mas Nur Jan e várias das outras vítimas não receberam ainda nenhuma indenização. Isso talvez se deva ao fato de a Bundeswehr quase não ter participado do processamento dos pagamentos. Quando a organização de direitos humanos AIHRC compilou a lista de indenizações junto às vítimas de Kunduz, ela baseou as suas informações principalmente na pesquisa feita por Christoph Reuter, um jornalista da revista alemã “Stern”. A Bundeswehr jamais realizou a sua própria pesquisa, e a AIHRC distribuiu os cartões da conta no Banco de Cabul. Os únicos oficiais da Bundeswehr que as vítimas viram foram aqueles que apareceram mais tarde na televisão, quando o coronel Reinhardt Zudrop, o comandante do quartel alemão em Kunduz, deu uma entrevista coletiva televisionada à imprensa para anunciar que as famílias das vítimas receberiam auxílio. Finalmente, meses após receber ordens do ministro da Defesa, o coronel encerrou o caso envolvendo a Bundeswehr para sempre.

Indenização e culpa

O agricultor Nur Jan compreende pouca coisa relativa ao cenário político em que ocorreu o bombardeio. Assim como a maioria das famílias das vítimas, ele jamais entendeu o que exatamente aconteceu em relação à disputa envolvendo uma possível indenização para ele e outros moradores. Eles de vez em quando pegam um táxi das suas vilas até o Hotel Kunduz ou a Casa de Hóspedes Lápis-lazúli, administrada pelos alemães em Kunduz, ao receberem telefonemas de visitantes da Alemanha. Primeiro foi Karim Popal, um advogado alemão nascido no Afeganistão que prometeu uma fortuna aos moradores, milhões de euros em indenização por parte do governo alemão.

A seguir vieram os políticos. Todos falavam de indenização e da culpa da Alemanha, e todo mundo prometia dinheiro. Mas depois eles voltaram a desaparecer. E, no entanto, nada aconteceu durante 11 meses. Nur Jan vira com os dedos da mão esquerda o cartão azul do Banco de Cabul. “Na verdade, os alemães mentiram para nós”, diz ele em voz baixa. Um dia após o ataque, ele teve que viajar para um hospital no Paquistão a fim de receber tratamento, depois que os médicos em Kunduz lhe disseram que não tinham mais como ajudá-lo. Ele pegou dinheiro emprestado, vários milhares de dólares, de parentes. Só a transfusão de sangue para a operação do seu ombro lhe custou US$ 800 (630 euros, R$ 1.408). Ele calcula que teve que pagar bem mais de US$ 5.000 (R$ 8.800) por todo o tratamento e ainda deve US$ 1000 (R$ 1.760).

Até hoje Nur Jan não entendeu vários detalhes relativos ao pacote de indenização alemão, que deveria ter sido implementado sem muita burocracia. Mais uma vez, ele está sentado em um sofá marrom velho no Hotel Kunduz. Sentado perto dele estão Abdul Rafa e o seu filho Lativ, de Yaqob Bai, uma outra vila pequena próxima ao rio. Nur Jan está cansado. Jejuar durante o Ramadã é algo que o deixa exausto. Porém, ele logo começa a falar com raiva. Latif, 16, só foi ferido por alguns fragmentos de metal quando as bombas explodiram em 4 de setembro, e segundo ele, se recuperou inteiramente há muito tempo. No entanto, o pai dele recebeu a mesma indenização que Nur Jan: US$ 5.000.

“Eu prefiro morrer como um homem-bomba”

“Que espécie de justiça é esta?”, questiona Nur Jan. “Nós pegamos o que estava disponível”, diz Abdul Rafa. “Não fomos nós que fizemos as regras”. Os meticulosos procedimentos alemães para indenização, embora criados com boas intenções, na verdade só acabaram confundindo muitos moradores. Nur Jan e outras vítimas ainda estão desnorteados com o sistema cuidadosamente concebido pela Bundeswehr para a distribuição de dinheiro. Em vez de cada família receber US$ 5.000 por cada indivíduo morto, uma complicada lista de distribuição foi preparada, quase que como se o incidente tivesse ocorrido na Alemanha. Quando um filho casado da família foi morto, o dinheiro foi pago à família da sua mulher, e não ao pai da vítima. Talvez isso seja justo, diz Abdul Rafa, mas esse sistema já gerou brigas nas vilas. Abdul Rafa pergunta o que ele deve dizer àquelas famílias que perderam três filhos e que não receberam nada, enquanto que o pai de uma vítima que sofreu ferimentos leves e que vive nas imediações recebeu US$ 5.000 dos alemães.

Para Nur Jan, o caso de Kunduz está longe de ser resolvido. Ele afirma que não está disposto a aceitar uma indenização de US$ 5.000. Ele tentou manter contato com a Bundeswehr várias vezes nos últimos meses. Quando finalmente falou com uma autoridade alemã no escritório da AIHRC, ele conseguiu convencê-la a determinar que o seu ombro, que passou por uma operação mal feita no Paquistão, fosse reexaminado no quartel alemão. Mas se não for atendido, ele diz que só lhe resta uma opção. “Em vez de continuar vivendo como um aleijado, eu prefiro morrer como um homem-bomba”, afirma ele, ameaçadoramente.
 

Tradutor: UOL

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