"Descobrimos onde guardam dinheiro", diz militar dos EUA sobre ação anti-EI

Entrevista conduzida por Matthias Gebauer

  • Khalid Mohammed/AP

    30.mai.2016 - Militares iniciam ofensiva em Fallujah (Iraque) para retomar a cidade do Estado Islâmico, na terceira fase da operação para expulsar jihadistas da região

    30.mai.2016 - Militares iniciam ofensiva em Fallujah (Iraque) para retomar a cidade do Estado Islâmico, na terceira fase da operação para expulsar jihadistas da região

Os Estados Unidos obtiveram alguns sucessos contra o Estado Islâmico com o envio de forças especiais. Em uma entrevista para a "Spiegel", o emissário anti-EI do presidente Barack Obama, Brett McGurk, diz que a milícia terrorista está encolhendo e pede pela ajuda da Otan no combate aos radicais islâmicos.

Spiegel: Embaixador McGurk, nos últimos dias, nós temos ouvido anúncios de um ataque em Raqqa, na Síria, uma fortaleza do Estado Islâmico (EI), e um avanço na direção de Fallujah, no Iraque. Está tendo início uma grande investida contra o EI?

McGurk: Estamos passando para uma nova fase da campanha contra o Estado Islâmico. Nossa meta é atacar o inimigo e aplicar simultaneamente pressão em múltiplos pontos. Grandes ofensivas estão tendo início em Fallujah e Raqqa para encolher o território do autoproclamado califado do Estado Islâmico e para mostrar que ele não está mais se expandindo.

Spiegel: Já se fala de ofensivas há algum tempo. Por que estão começando apenas agora?

McGurk: Precisávamos de tempo. Demorou um pouco para o desenvolvimento da capacidade militar em solo, para o recrutamento de forças locais, combatentes da região, para treiná-los e orientá-los. Agora estamos em um ponto onde podem assumir a luta.

Spiegel: Quão forte está o Estado Islâmico hoje?

McGurk: Ele está substancialmente degradado. No Iraque, perdeu 45% do território e 20% na Síria. Estamos eliminando um de seus comandantes em campo de batalha quase a cada três dias, porque estamos dentro de suas redes. Sabemos onde eles estão e podemos atacá-los cada vez com mais precisão. Após algum trabalho intensivo por parte dos serviços de inteligência, também estamos atacando o sistema financeiro deles. Nós descobrimos onde estão guardando seu dinheiro. Após algum trabalho por parte das forças especiais americanas em solo, nós sabemos de onde estão extraindo seu petróleo, como o transportam, e atacamos esses locais.

Spiegel: Ataques aéreos serão suficientes para combatê-los?

McGurk: Você não precisa acreditar em mim, basta ouvir o que eles dizem. Em 2014, o líder deles, Abu Bakr al-Baghdadi, anunciou que seu califado estava se expandindo por todo o Oriente Médio e chegaria à Europa. Agora, o principal porta-voz deles transmite uma mensagem muito diferente, reconhecendo que o território deles está encolhendo, que seus líderes estão sendo mortos um por um, até mesmo Raqqa e Mosul cairão. É uma mensagem muito diferente. Eles não podem mais alegar que são um movimento divino; eles são uma organização terrorista criminosa. Nós expusemos suas mentiras ao começarmos a derrotá-los no campo de batalha.

Spiegel: Ao mencionar "nós", está se referindo às unidades das forças especiais dos Estados Unidos?

McGurk: Esses americanos corajosos exercem um papel extremamente importante. As forças especiais começaram com 50 homens no norte da Síria, começaram a encontrar combatentes locais dispostos a assumir a luta contra o Estado Islâmico, eles os treinaram e os orientaram sobre como conduzir suas operações. Eles pegaram o diretor financeiro do Estado Islâmico, mataram seu emir militar de guerra. Com as forças especiais, nós aumentamos a pressão e não afrouxaremos.

Spiegel: A missão era difícil, já que Washington disse por muito tempo que os Estados Unidos não empregariam tropas terrestres na Síria.

McGurk: Eu me recordo de um dia em maio de 2015 em que me encontrei com o presidente Obama. Estávamos juntos na Sala de Situação na Casa Branca. O Estado Islâmico tinha acabado de tomar Ramadi, perto de Bagdá, e estávamos avaliando nossas ações possíveis. Finalmente, o presidente autorizou a abertura de uma pequena base das forças especiais perto de Ramadi. Por estarmos lá, tivemos a chance de contatar os líderes tribais locais e ajudar as forças iraquianas a planejarem um contra-ataque para retomada de Ramadi. Foi um sucesso. Nós aprendemos com esse incidente que, onde tínhamos presença, mesmo que pequena, onde éramos capazes de coletar conhecimento local, onde construíamos relacionamentos por meio de contato com os líderes locais, podíamos ter sucesso.

Spiegel: Isso significa que mais unidades serão enviadas em breve à Síria?

McGurk: O envio de mais forças é sempre uma possibilidade. Acho que o presidente Obama é muito claro ao dizer que investiremos apenas em coisas que estão funcionando. Se algo está funcionando, nós consideraremos se mais investimento pode resultar em um resultado mais rápido. Queremos acelerar e fazer o máximo que pudermos, o mais rápido que pudermos. O número de 300 [soldados das forças especiais] nos dá muita capacidade. Veremos onde isso dará.

Spiegel: Os curdos no norte do Iraque e Síria ainda são considerados parceiros confiáveis pelos Estados Unidos. Mas os grandes grupos curdos, YPG e os peshmerga, não querem libertar Mosul ou Raqqa, cidades dominadas por árabes.

McGurk: Os curdos serão os primeiros a lhe dizer que não querem entrar em Raqqa. Esse é o motivo para trabalharmos arduamente no recrutamento de forças locais inclusivas, com diversidade étnica. No norte da Síria, nós formamos uma força dessas. Dos 6.000 combatentes, cerca de 2.500 não são curdos. Essa é a forma de seguirmos adiante.

Spiegel: Um repórter da "Spiegel" viajou recentemente para perto de Mosul. Ele relatou que possíveis parceiros locais –curdos, xiitas, sunitas– já estão brigando pela futura divisão de poder na cidade.

McGurk: Nós não chegamos ao ponto de podermos iniciar um avanço para Mosul. Assim como na província de Anbar, queremos recrutar uma força de 15 mil combatentes. No lado político, tentamos que os curdos e o governo central conversem mais entre eles. Precisamos desenvolver um plano geral abrangente com o qual todos concordem antes do início da última fase.

Spiegel: Enquanto isso, qual é o plano?

McGurk: Estamos tentando isolar Mosul por todos os lados, o que está praticamente feito; ela está quase isolada. Agora estamos visando seus líderes. Estamos destruindo os locais onde guardam dinheiro, para que não possam mais pagar os combatentes. Ao espremermos e isolarmos Mosul, nós realizamos ataques aéreos contra alvos e trabalhamos com forças dentro de Mosul que combatem o Estado Islâmico. Esperamos que não chegue a acontecer um combate de rua em rua. No final, queremos degradar tanto o Estado Islâmico que ele imploda por dentro.

Spiegel: Durante sua visita recente à Alemanha, o presidente Obama pediu por um maior apoio militar da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental]. O que a aliança poderia fazer para fortalecer a coalizão?

McGurk: A Otan tem um papel muito importante a exercer. A aliança deu início a uma iniciativa de construção de defesa com oficiais iraquianos na Jordânia e esperamos que isso seja expandido. As plataformas do Sistema Aéreo de Alerta e Controle da Otan podem exercer um papel importante e seriam de grande ajuda à coalizão. Espero que, quando chegar a hora da cúpula da Otan em Varsóvia, no início de julho, teremos alguns objetivos concretos para essa nova missão.

Spiegel: Até o momento, a Alemanha está apenas treinando e equipando as forças locais curdas em torno de Erbil. Isso é suficiente?

McGurk: A Alemanha preencheu algumas lacunas em um momento crítico. A chanceler Angela Merkel equipou as forças curdas rapidamente com armas antitanque. Esses foguetes MILAN foram cruciais na ajuda aos peshmerga para rechaçar artefatos explosivos improvisados em veículos.

Spiegel: Nos últimos dias, Moscou tem falado sobre a possibilidade de ataques aéreos conjuntos com os Estados Unidos. Essa é uma opção realista?

McGurk: Nós não cooperamos militarmente com a Rússia. Nós fazemos ligações telefônicas diárias para evitar conflitos no espaço aéreo, para assegurar que não ocorram incidentes com nossos caças. E só. A Rússia deveria usar sua influência sobre o regime sírio para assegurar que cumpra o processo de Viena e cesse as hostilidades. Estamos conversando com os russos sobre isso, mas não sobre operações conjuntas.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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