Presidente de Uganda critica "arrogância" ocidental diante da África

Susanne Koelbl e Jan Puhl

  • AFP

    Yoweri Museveni acena ao público pouco dias antes da eleição, em novembro de 2011

    Yoweri Museveni acena ao público pouco dias antes da eleição, em novembro de 2011

O presidente Yoweri Museveni, que governa Uganda há três décadas, falou sobre o papel do Ocidente na promoção do terrorismo islâmico africano, sua oposição ao Tribunal Penal Internacional e se ele mesmo está abusando de seu poder.

Yoweri Museveni: Meus críticos sempre esquecem de mencionar que eu fui eleito democraticamente, os outros não. Todo mundo em Uganda pode me desafiar, todo mundo pode votar, as eleições são livres. Não muitos países conseguiram o que nós conseguimos. Um terço dos assentos no Parlamento é reservado às mulheres, cinco para jovens, cinco para trabalhadores, cinco para deficientes e dez para o Exército. Quantas democracias você conhece com esse histórico?

Spiegel: Até hoje, o sistema de partidos políticos ainda não vigora em Uganda. Seu único concorrente sério, Kizza Besigye, foi preso diversas vezes. Observadores internacionais afirmaram que a última eleição foi injusta, e um dia, durante a campanha eleitoral, o senhor esteve na televisão por 12 horas, enquanto seu adversário teve apenas 4 minutos. Isso é democracia?

Museveni: Nossas leis e instituições são excelentes, mas a população ainda não está pronta. Ela precisa desenvolver suas opiniões e precisa receber a informação certa. Agora também temos emissoras privadas e muitas delas são muito críticas a mim, até hostis, mas operam livremente.

Spiegel: O senhor não tem medo de uma rebelião africana semelhante à Primavera Árabe? A população de Uganda, em rápido crescimento, é jovem, está conectada globalmente e seu maior problema é a falta de empregos e a sensação de não poder romper as antigas estruturas de liderança.

Museveni: Nossa população está crescendo rapidamente por causa de nossa boa política de saúde. Quando cheguei ao cargo, havia 14 milhões de ugandenses; hoje são 38 milhões, apesar da catástrofe da aids, que também enfrentamos. Os ugandenses sabem e valorizam isso, especialmente os mais velhos. Isto torna muito improvável que a Uganda enfrente um cenário caótico semelhante ao da Síria ou de outros lugares. Incidentalmente, médicos, cientistas, engenheiros e enfermeiros são muito procurados e encontram empregos imediatamente.

Spiegel: No ano passado, 1,3 milhão de refugiados chegaram à Alemanha, principalmente da Síria, do Iraque e do Afeganistão, mas também da África. Muitos acreditam que isto é apenas o começo de um êxodo para a Europa. O que o senhor sugere para conter essa onda de migrantes?

Museveni: Houve erros. Mas eu preferiria falar sobre essas questões em detalhe com seus líderes políticos.

Spiegel: Isto se refere às guerras no Oriente Médio ou aos levantes na Tunísia e na Líbia?

Museveni: Quando começaram os problemas na Líbia, a União Africana montou uma comissão para enfrentar a situação. Nós aconselhamos urgentemente os europeus a não intervir. Vocês intervieram de qualquer maneira. Agora estamos vendo o caos absoluto lá.

Spiegel: O que os europeus deveriam fazer para conter a crise dos refugiados?

Museveni: Os problemas dos refugiados não podem ser resolvidos só na região [de origem], talvez uma certa ajuda da ONU. Os governos devem fornecer algo a seus países. Eles precisam produzir. Trinta anos atrás, Uganda estava entre os quatro países que tinham o maior número de refugiados no exterior, juntamente com Etiópia, Afeganistão e Sudão. Nós resolvemos isso. Hoje as pessoas ficam porque encontram uma vida melhor aqui.

Spiegel: Hoje em dia, é dos fanáticos islâmicos que muita gente foge, e não da pobreza. Seu país já enviou milhares de tropas à Somália para combater a milícia islâmica Al-Shabab. A África é o campo de batalha do futuro para os jihadistas?

Museveni: Estamos ajudando nossos irmãos somalis a se livrarem desses agressores de mentalidade estreita. O povo somali não apoia os extremistas, eles estão do lado de nossos soldados.

Spiegel: Alguns já estão falando sobre um novo "eixo do terror", que vai da Mauritânia, no oeste, até a Somália, no extremo leste do continente, passando por Mali, Nigéria, Níger e Sudão. Quão realista é essa ameaça?

Museveni: A situação caótica na Líbia está definitivamente criando uma ameaça. A Líbia hoje conecta os jihadistas da África aos do Oriente Médio e do Afeganistão. Isto poderia ter sido evitado.

Spiegel: A União Europeia acaba de cortar em 20% suas verbas para as tropas da União Africana na Somália. A Europa compreende os riscos emergentes na África e os leva suficientemente a sério?

Museveni: Nós certamente gostaríamos de mais ajuda, mas não ao preço da condescendência e da arrogância. Se os europeus acreditam que podem se comprometer menos na Somália, por favor, podemos lidar com isso sozinhos. Os islamistas controlavam um território igual à metade da República Federal da Alemanha. Durante anos colocamos na linha a vida de nossas tropas, sofremos perdas enormes, e os europeus cortam o orçamento? Se dinheiro é mais importante que a vida de nossos filhos, o que mais é isso senão a arrogância e a superficialidade de sempre? E de onde vem todo esse terror? É o resultado de erros que o Ocidente cometeu no Paquistão e no Afeganistão nos anos 1980, quando armaram os rebeldes islâmicos contra as tropas soviéticas. O extremismo na Somália está associado causalmente a esses acontecimentos.

Spiegel: O Tribunal Penal Internacional em Haia pretende pôr fim à impunidade dos criminosos nessas guerras. Em 2008, o senhor apoiou o mandado de prisão contra o presidente sudanês Omar al-Bashir por crimes contra a humanidade. Alguns dias atrás, ele esteve em Kampala na sua cerimônia de posse, onde o senhor o recebeu calorosamente. O senhor não demonstrou o menor interesse em prendê-lo. Como aconteceu essa mudança de ideia?

Museveni: Eu fui um dos primeiros a assinar o Estatuto de Roma, que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional. Fui contra a impunidade quando se trata de violações dos direitos humanos. Mas muitos de nós, líderes africanos, hoje querem sair do Estatuto de Roma assim que possível, por causa da arrogância ocidental.

Spiegel: A oposição africana ao TPI vem aumentando desde que o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, poderia ser indiciado. O senhor parece se sentir mais próximo de Kenyatta do que seu homólogo sudanês. Mas um crime é um crime, e a lei é a lei. Isso não se aplica a amigos e inimigos igualmente?

Museveni: Quando pedimos que a ONU suspendesse o julgamento durante um ano, o que os estatutos permitem, para que pudéssemos realizar as eleições no Quênia, isso simplesmente foi rejeitado. Os preparativos para o indiciamento continuam. Hoje eu mudei de ideia, mesmo contra Omar al-Bashir. Se ele tem de ser acusado ou não, os sudaneses devem decidir, ou os africanos. O TPI perdeu toda a credibilidade. Este é o nosso continente, e não o seu. Quem são vocês para ignorar a voz dos africanos?

Spiegel: O presidente Uhuru Kenyatta é acusado de inflamar propositadamente os conflitos tribais durante a campanha eleitoral de 2008, que levou a mais de 1.100 mortes. Isso deve ficar impune?

Museveni: Os problemas dos conflitos tribais no Quênia são muito mais antigos, causados pela antiga potência colonial. Um ex-embaixador americano lá, certa vez, escreveu sobre como a CIA contribuiu para as divisões entre os quenianos. Você colhe o que semeia.

Spiegel: Mas se os 34 países africanos se retirarem do Estatuto de Roma, o TPI terá falhado.

Museveni: E daí? Julguem a vocês mesmos, e não a nós.

Spiegel: Em outros casos, a Justiça internacional foi útil para o senhor, como no processo do famoso presidente da Libéria Charles Taylor ou o mandado de prisão internacional contra Joseph Kony, o líder da milícia cristã fanática do Exército da Resistência do Senhor, que durante anos aterrorizou a Uganda.

Museveni: Kony está escondido em algum lugar na República Centro-Africana. Ele não é mais uma ameaça. Já o punimos. Nós fornecemos nossa própria segurança. Não dependemos de vocês.

Spiegel: Do ponto de vista militar, Uganda opera estreitamente com os EUA e a França. Como essa cooperação se encaixa com questões de segurança e seu desejo de ser autônomo?

Museveni: É claro que há colaborações. Mas em reuniões oficiais com diplomatas ocidentais dos EUA e da UE, os principais problemas de nossas relações simplesmente não são discutidos. Os temas são sobre mudança climática ou qualquer outra questão que eles queiram que nós concordemos com eles. Mas nunca discutem como podemos desenvolver um relacionamento igualitário. Eles deveriam parar de usar cúpulas orquestradas com pompa e começar um diálogo sério, com pequenas reuniões.

Spiegel: Se o senhor quiser disputar as eleições de novo, a Constituição terá de ser modificada para estender a idade limite para presidentes a 75 anos. Isso vai acontecer?

Museveni: Os ugandenses vão decidir.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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