Desesperança em campo de refugiados leva crianças a se tornarem soldados

Christoph Titz

Em Mbera (Mauritânia)

  • Joe Penney - 23.mai.2012/ Reuters

    Refugiada malinesa cozinha arroz no campo de refugiados em Mbera

    Refugiada malinesa cozinha arroz no campo de refugiados em Mbera

A guerra lhe roubou seu país, mas no campo de refugiados não havia futuro. Foi por isso que Abdallah e seus amigos voltaram --para lutar como crianças-soldados contra o odiado governo do Mali.

A guerra de Abdallah está a uma pequena distância de ônibus. O Mali, seu país que sofre há tanto tempo, fica a 40 quilômetros da casa onde o menino tímido está agachado no chão.

Abdallah tinha 11 anos quando rebeldes tuaregues lançaram uma rebelião contra o governo central do Mali, em 2012. Ele fugiu para o oeste com sua família, e acabaram no campo de refugiados de Mbera, na Mauritânia, próximo à fronteira.

Hoje Abdallah é um menino de 15 anos, com cachos pretos e um olhar tímido e interrogador. Ele acaba de chegar para sua segunda temporada na cidade gigante de refugiados no deserto mauritano. Antes de voltar, ele havia retornado ao Mali --um menino magro com uma Kalashnikov pendurada do pescoço. Abdallah era um menino-soldado.

Os amigos haviam lhe contado sobre a luta dos tuaregues contra o governo e ele voltou com eles ao Mali, onde, ao alcançar sua cidade natal, uniu-se a um grupo armado. Abdallah tinha ido lutar na mesma guerra que levou sua família a fugir.

Por que um menino faz algo semelhante? Talvez porque, com sua quase total falta de instrução, ele tenha sentido que não teria um futuro em um acampamento como Mbera. Trabalhar como diarista, como seu pai? Ele não queria isso. Ficar preso no campo durante meses, ou mesmo anos, sem metas e sem nada para fazer? Não. O que um menino quer ser: um ninguém? Ou um guerreiro?

Hoje Abdallah vive em uma casa improvisada. O campo de Mbera é uma série de tendas com uma feira no meio, duas enfermarias e vários poços profundos. É o maior acampamento da área do Sahel. Abdallah, como a maioria dos moradores, é membro do povo tuaregue, nômades e pastores cujas vidas são adaptadas às duras condições do deserto. Eles odeiam o governo malinês, e muitos tuaregues dizem que são esquecidos e discriminados pelo Estado diariamente.

Cerca de 41 pessoas vivem no acampamento na borda sudoeste do deserto do Saara, onde são registrados pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e apoiados pela comunidade global. A UE e o Japão são os maiores doadores do campo. Graças a cerca de 35 organizações de ajuda, dezenas de milhares de refugiados do campo recebem quase tudo de que precisam. A polícia mauritana fornece segurança, médicos tratam pequenos ferimentos e vacinam as crianças, e os moradores do campo recebem 30 litros de água por dia, além de comida. Até o gado recebe cuidados.

Recentemente, porém, houve uma pequena mudança. Agora, em vez de só dar aos refugiados comida equivalente a 2.100 quilocalorias por pessoa/dia, o campo tornou-se parte de um novo sistema que as organizações de ajuda de todo o mundo estão experimentando: os refugiados recebem um terço de suas rações em forma de dinheiro. Em Mbera, isso representa cerca de US$ 3,35 (cerca de R$ 11) por morador/mês. O objetivo é fazê-los sentir que têm maior controle de suas vidas.

A soma é irrisória, é claro --mas dá um pequeno passo no sentido de reconhecer o fato de que há um sério problema quando as pessoas vivem em um lugar onde não têm nada para fazer e estão a uma distância segura de uma zona de guerra: elas não têm perspectiva, objetivo e algo para fazer.

Um porta-voz da UNCHR diz que a organização não incentiva os refugiados a voltar para casa. Mas os que desejam fazê-lo podem pegar seus documentos e receber um subsídio de viagem de 70 euros (cerca de R$ 900). Sua terra natal, o Mali, ainda é insegura: os extremistas islâmicos estão despejando bombas, rebeldes lutam e o governo revida --e a viagem é extremamente perigosa.

Mas mais de 1.400 pessoas optaram por deixar o acampamento este ano. "Isto aqui não é vida", disse um homem que decidiu correr o risco. Ele está fazendo isso por sua família, segundo disse, por seus filhos.

Os adolescentes são um grupo muito vulnerável em um campo de refugiados. Eles e suas famílias conseguiram segurança, mas não há um futuro real na cidade de tendas. Mbera fica no extremo leste da Mauritânia, na região de Hodh Ech Chargui, a mais pobre de um país muito pobre. Quase 4.700 crianças frequentam a escola elementar do acampamento. Mas e quando elas terminam?

Algumas centenas dos mais de 10.000 adolescentes do campo se qualificam para as vagas para continuar estudando. E nesta primavera, pela primeira vez, 99 delas concluíram a educação secundária do Mali. Elas talvez consigam um emprego com uma organização de ajuda no acampamento.

Um dos felizardos é Tinalbarka Walid Amano, de 16 anos. Sua família é formada por músicos malineses em Bamako, a capital, e um de seus irmãos vive e trabalha na Bélgica. Ela também é o rosto de um filme promocional da ONU sobre o dia mundial dos refugiados. Ela é bem consciente da oportunidade que conseguiu.

E os outros?

Abdallah, o ex-menino-soldado, está agachado no chão de uma casa de barro no campo de Mbera. Ele olha com curiosidade sobre os braços cruzados, que repousam em seus joelhos. Suas respostas monossilábicas são difíceis de escutar, porque ele as murmura na dobra do braço.

"Quinze" é sua idade. "Negócios", a profissão de seu pai. Ele foi à escola? "Madrassa" --uma escola islâmica. Quando deixou a escola regular? "Quarta." Ele quer dizer quarta série. Deixou a escola porque "amigos" iam à escola religiosa. Ele também voltou ao Mali para lutar com "amigos".

Abdallah só consegue suportar o olhar do homem que está gravando sua história para a ONU por alguns momentos. Ele não é capaz de dizer o que fez na guerra ou o que a guerra lhe fez. Carregar um rifle de assalto não lhe deu mais autoconfiança.

Sabe-se que tanto os islâmicos quanto as milícias tuaregues pró-governo treinaram e usaram crianças-soldados. As autoridades da ONG que cuida dessas crianças em Mbera sabem que pelo menos outros cinco adolescentes do campo lutaram na guerra no Mali próximo. Os funcionários de ajuda temem que o número possa chegar a algumas dezenas.

Assim como Abdallah, dois outros meninos falam sobre suas experiências lutando pelos tuaregues. Ahmed, 18, diz que esteve em patrulhas dos rebeldes do MAA e também disparou sua arma --e acha que atingiu alguém. Ele diz que "defendeu um Azawad livre", usando o nome tuaregue das províncias no norte do Mali. Em 2012, eles e bandos islâmicos proclamaram um Estado independente na região. O governo só recuperou o poder quando os militares franceses intervieram. O caso é claro para Ahmed: o Exército do Mali é obviamente o agressor. O grupo rebelde significa proteção, diz ele, e além disso não tem mais nada para fazer. "Eu voltaria e lutaria por meus irmãos", diz Ahmed.

A Unicef e a Acnur, órgãos da ONU, querem evitar isso. Os trabalhadores de ajuda deram a Ahmed uma pequena oficina, que ele dirige com outro ex-menino-soldado. Ahmed calcula que havia cerca de 50 adolescentes em sua unidade.

Uma das seis escolas elementares de Mbera fica no caminho de volta à sede da UNHCR. As crianças estão brincando no pátio, correndo e gritando. Quando veem a câmera, correm em sua direção, levantam as mãos e gritam com alegria: "Azawad! Azawad!"

O grito de batalha dos rebeldes tuaregues no Mali vizinho faz parte de sua brincadeira.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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