Não vamos censurar nossas publicações por causa das eleições nos EUA, diz Assange

Michael Sontheimer

  • Dominic Lipinski/PA Wire/ Xinhua

    Julian Assange fala com a imprensa do balcão do prédio da Embaixada do Equador em Londres

    Julian Assange fala com a imprensa do balcão do prédio da Embaixada do Equador em Londres

O WikiLeaks faz 10 anos. A revista alemã "Der Spiegel" se encontrou com o fundador da organização, Julian Assange, 45, para conversar sobre as conquistas da plataforma de denúncias políticas e saber se as recentes críticas feitas ao site se justificam.

Spiegel: Senhor Assange, dez anos após a fundação do WikiLeaks, a plataforma de denúncia é mais uma vez criticada. O WikiLeaks teria colocado milhões de eleitores turcos em perigo. O que o senhor diz sobre isso?

Julian Assange: Alguns dias depois da publicação dos e-mails internos do Comitê Nacional Democrata (CND) dos EUA, foi divulgada uma história totalmente falsa de que havíamos publicado os nomes, endereços e números de telefone de todas as eleitoras mulheres da Turquia. É completamente falso. Foi e é simples de verificar. As facções no poder revidam com mentiras. Isso não causa surpresa.

Spiegel: Diversos jornalistas alemães simpatizam há muito com o WikiLeaks e também com Edward Snowden. Mas não estão impressionados com a publicação dos e-mails do CND. O senhor está fazendo campanha para Donald Trump?

Assange: Nossa publicação dos vazamentos do CND mostrou que o comitê efetivamente manipulou as primárias nos EUA em benefício de Hillary Clinton, contra Bernie Sanders. Isso levou à renúncia de importantes membros do comitê, inclusive sua presidente, Debbie Wasserman Schultz.

Spiegel: Membros da campanha de Hillary sugeriram que os e-mails do CND foram dados ao senhor pelo serviço secreto russo.

Assange: Houve muitas tentativas de diminuir a força de nossas publicações. Hillary Clinton é a favorita para ganhar. Como sempre, a maior parte da mídia se alinha com o suposto vencedor, mesmo que sua suposta virtude social seja investigar os que estão no poder.

Spiegel: O fato é que o WikiLeaks está prejudicando Hillary e reforçando Trump.

Assange: Não vamos começar a censurar nossas publicações porque há uma eleição nos EUA. Nosso papel é publicar. Hillary já esteve no governo, por isso temos muito mais material a publicar sobre ela. Existe muita ingenuidade. A Presidência dos EUA continuará representando os grandes grupos de poder nos EUA --as grandes empresas e os militares--, independentemente de quem seja a "cabeça falante".

Spiegel: Se alguém apresentasse documentos internos da campanha de Trump ou do Partido Republicano, o senhor também os publicaria?

Assange: Sim, é claro. É o que nós fazemos.

Spiegel: A revista alemã "Focus" chegou a acusar o WikiLeaks de publicar documentos da Agência Nacional de Segurança [dos EUA] e outros documentos que foram forjados pelo serviço secreto da Rússia. O que o senhor diz a respeito?

Assange: As afirmações não são verossímeis. Até o governo americano teve de declarar que não tem evidências de uma ligação com o WikiLeaks. Eu denunciei essa revista em 2008 como tendo sido extensamente penetrada pela agência de inteligência estrangeira alemã, a Bundesnachrichtendienst (BND). Nós listamos as datas e horas de 58 contatos que um jornalista da "Focus" teve com a BND.

Spiegel: O WikiLeaks não é vulnerável pelo fato de ser impossível vocês verificarem cada documento apresentado e descobrir documentos possivelmente forjados?

Assange: Temos um histórico perfeito de detectar fraudes e, ao contrário da imprensa tradicional, publicamos todos os documentos para que todos também possam verificar. O WikiLeaks é literalmente o pior lugar no mundo para se tentar plantar uma reportagem falsa.

Spiegel: O WikiLeaks publicaria material sobre a corrupção na liderança russa?

Assange: Sim. Na verdade, já publicamos mais de 650 mil documentos sobre a Rússia e o presidente Vladimir Putin, na maior parte crítica. Vários livros altamente críticos foram escritos usando esse material, como "The Mafia State", do jornalista Luke Harding, de "The Guardian". Os documentos também foram usados em diversos litígios importantes, incluindo o caso Yukos.

Spiegel: Como o senhor pode impedir que o WikiLeaks seja usado para se obter vantagem na guerra global da informação?

Assange: Nossos critérios editoriais são públicos e são os mesmos há cerca de oito anos. Se uma fonte nos dá material que tem importância política, diplomática, ética ou histórica que ainda não foi publicado e compreende documentos ou gravações oficiais, nós o publicamos. A maioria do nosso material é em inglês? Sim. Mas essa é uma restrição do conteúdo. A maior parte de nossas publicações é em inglês porque a maioria de nossos leitores fala inglês.

Spiegel: Em 4 de outubro de 2006 o senhor registrou o domínio www.wikileaks.org. O que o senhor realizou desde então?

Assange: O WikiLeaks publicou mais de 10 milhões de documentos em dez anos. A maior parte deles foi publicada nos últimos seis anos, tempo em que estive detido ilegalmente, sem acusação, no Reino Unido.

Spiegel: O senhor recebeu asilo político do governo do Equador, mas ficou na embaixada desse país em Londres nos últimos quatro anos. As autoridades britânicas gostariam de prendê-lo e extraditá-lo para interrogatório na Suécia. Essa situação não prejudicou o WikiLeaks?

Assange: Enquanto muitas mídias estabelecidas têm prejuízo ou vão à falência, o WikiLeaks sobreviveu a um grande conflito com uma superpotência, incluindo um bloqueio econômico ilegal por seus bancos e empresas de cartão de crédito, e a detenção de seu editor. Não temos dívidas. Não precisamos demitir pessoal. Nunca perdemos um processo em tribunal relacionado a nossas publicações. Nunca fomos obrigados a praticar censura. A adversidade nos endureceu. Temos 10 anos hoje. Espere até sermos adolescentes.

Spiegel: Qual foi a publicação mais importante do WikiLeaks?

Assange: A mais importante foi que ele publicou mais de 10 milhões de documentos. A principal coleção isolada de material que publicamos é a série de telegramas diplomáticos dos EUA. Começamos com 251 mil em 2011, mas hoje são mais de 3 milhões e outros estão chegando.

Spiegel: Quais foram os fracassos do WikiLeaks? O que o senhor gostaria de melhorar?

Assange: Recursos. O WikiLeaks foi obrigado a fazer uma coisa e não outra em reação a restrições financeiras? Sim. Constantemente.

Spiegel: Por exemplo?

Assange: Por exemplo, restrições financeiras nos obrigaram a lidar com publicações politicamente comprometidas como "The New York Times" para utilizar suas redes de distribuição.

Spiegel: O senhor lamenta o fato de não ter mais uma cooperação com jornais estabelecidos como "The New York Times" ou "The Guardian" --e que o WikiLeaks seja até criticado por jornais liberais?

Assange: Nós posteriormente trabalhamos com jornalistas dos dois jornais. Os jornais liberais não são necessariamente liberais. Temos excelentes relações e contratos com mais de 110 organizações de mídia do mundo todo. Nós aplicamos agressivamente nossos acordos.

Spiegel: Uma fonte sua, Chelsea Manning, uma soldado americana, foi condenada a 35 anos de prisão. Edward Snowden está empacado em Moscou. E o senhor está isolado aqui na embaixada equatoriana em Londres. Como os denunciantes podem aceitar esses reveses?

Assange: Não vamos comparar a situação de Edward Snowden com a de Chelsea Manning ou Jeremy Hammond, que também está preso nos EUA. Em consequência do trabalho duro do WikiLeaks, Edward Snowden tem asilo político, documentos de viagem, vive com sua namorada, vai ao balé e ganha honorários substanciais em palestras. Edward Snowden está essencialmente livre e feliz. Isso não é por acaso. Foi minha estratégia para desfazer o efeito congelante da sentença de 35 anos de Manning, e funcionou.

Spiegel: Diante de toda a pressão que o senhor e seus colaboradores enfrentam, como seguem em frente?

Assange: Nós acreditamos no que fazemos. É muito satisfatório. É extremamente interessante do ponto de vista intelectual. Às vezes grandes momentos de justiça surgem disso. Em um caso, um homem falsamente acusado saiu da prisão graças a uma publicação nossa. Muita gente que trabalha para o WikiLeaks tem o mesmo instinto que eu: se você for empurrado, empurre de volta.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos