Opinião: De onde vem o ódio aos refugiados na Alemanha

Stefan Berg

  • Robert Michael/ AFP

    Integrante do grupo "Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente" segura placa contra mulheres com véu em protesto em Dresden, Alemanha

    Integrante do grupo "Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente" segura placa contra mulheres com véu em protesto em Dresden, Alemanha

O ódio aos refugiados é generalizado na Alemanha, mas parece especialmente proeminente na parte oriental do país. Há vários motivos para tanto, e muitos deles derivam da antiga vida sob o comunismo --e das expectativas não realizadas depois dele.

Há pouco tempo encontrei um homem em Brandemburgo que, por razões nada óbvias, começou a criticar o presidente alemão, Joachim Gauck, antes de cuspir no chão e se afastar depressa. Em outra ocasião, ouvi uma conversa sobre refugiados em um ônibus, a qual escalou para uma troca de ideias sobre a melhor forma de desprezar os imigrantes, ou mesmo abusar deles: dar-lhes só pão e água, por exemplo, ou mantê-los em jaulas. No açougue do bairro, você pode encontrar pessoas que não se importam muito com a liberdade --pessoas que exigem uma "posição clara", "um pouco mais Putin" e menos "papo furado na oficina de conversa", como elas chamam o Parlamento alemão em Berlim. Fora do açougue, há um carro estacionado com o adesivo: "Pena de morte para violadores de crianças".

Em seu relato sobre o Estado da unidade alemã, que foi comemorada na segunda-feira (3), o governo advertiu que a xenofobia na parte oriental da Alemanha representa um perigo para a harmonia social. Não importa onde ocorra, a xenofobia pode ser perigosa para suas vítimas, seja no leste ou no oeste. Mas o governo de Berlim identificou um risco maior no leste da Alemanha, e que ameaça a sociedade como um todo.

Toda vez que uma horda enraivecida marcha contra um lar de refugiados na Saxônia, toda vez que a chanceler é confrontada com frases de ódio durante uma aparição em público, pergunto-me se esse comportamento é típico da região oriental da Alemanha. À primeira vista, minha resposta é não. A maioria dos alemães-orientais claramente respeita as regras da decência e da democracia. Entretanto, algo "tipicamente alemão-oriental" ainda pode ser identificado nos excessos.

Vimos uma incivilidade semelhante na frente das hospedarias onde ficavam os solicitantes de asilo em 1991 e durante os protestos contra a reforma do Estado assistencialista em 2005, quando membros da Social Democracia, de centro-esquerda, foram insultados como "traidores dos trabalhadores". O perigo dessas combustões é especialmente significativo no leste do país.

Segundo meu diagnóstico pessoal, esses tipos de comportamento não podem ser atribuídos à atual situação material em que se encontram essas pessoas. São mais um indício de um excesso de tensão emocional.

No leste, há uma síndrome de exaustão; muitos foram obrigados a mudar de vida drasticamente depois de 1989. Eles vivenciaram rapidamente a reunificação como libertação, e hoje muitos se comportam menos como cidadãos livres e mais como prisioneiros libertos, cujas atitudes aprendidas não correspondem às exigências dos tempos atuais. Certamente é uma minoria, mas é ruidosa e muito visível.

Necessidade de atenção

De seu tempo atrás da Cortina de Ferro, eles ainda carregam a bagagem das expectativas políticas que não podem ser satisfeitas hoje. Estas incluem a exigência de ser notados e reconhecidos pelos que estão no poder, como eram antes. Embora os funcionários públicos comunistas fossem frequentemente odiados, havia um grande número deles e eram onipresentes: ao mesmo tempo acessíveis como um defensor e disponíveis como alvo de desprezo e zombaria. Essa proximidade entre Estado e sociedade não era uma mera invenção da propaganda socialista. A Alemanha Oriental conferia inúmeras condecorações, desde a "medalha de melhor estudante" até a "ordem do mérito". Quase todo mundo tinha a oportunidade de ser honrado por algo pelo menos uma vez por ano.

Em comparação, a política hoje parece distante e não satisfaz a necessidade de reconhecimento que se desenvolveu antes da queda do Muro. Em vez do jornal diário "Bauernecho", com suas matérias de capa sobre o agricultor mais bem-sucedido do mês, as bancas hoje estão cheias de tabloides que apresentam famosos heróis cujo estilo de vida não tem nada a ver com o nosso. Isto reforça a sensação de ser deixado para trás, amplia a distância percebida dos que estão "no topo". A raiva se acumula até que é ventilada quando "um deles" aparece, seja Angela Merkel, Joachim Gauck ou o próximo melhor parlamentar estadual.

O ódio provavelmente também é uma consequência do ciúme da dedicação pessoal da chanceler aos refugiados. "Helmut, segure nossa mão, mostre-nos o caminho para o país das maravilhas econômicas" era a mensagem nas faixas em 1991. E o ex-chanceler Helmut Kohl cumpriu esse desejo para muitos. Mas Merkel? Ela é considerada fria e calculista, mas demonstrou emoção ao abraçar os refugiados. Algum dia fez o mesmo para uma pessoa do leste alemão?

Um dos legados da Alemanha Oriental é o modelo de uma sociedade fechada, em que a uniformidade é mais importante que a diversidade. As pessoas aprenderam pouco a interagir com outras de religiões e origens diferentes. Na Alemanha Oriental, a tradição religiosa de uma pessoa é geralmente irrelevante. Os comunistas sistematicamente deram tratamento preferencial aos ateus, em relação aos cristãos, e as novas cidades foram obrigadas a passar sem torres de igrejas. Assim, dificilmente causa surpresa que as pessoas hoje se sintam ameaçadas pela chegada dos que se definem exteriormente por sua religião. Quando ouço frases de ódio sobre fé e religião na Alemanha Oriental, lembro-me do que meu professor de educação cívica costumava dizer sobre os "pregadores". O que se aprende está aprendido.

Uma afronta

O regime comunista pode ter terminado em 1989, mas o desejo desesperado por homogeneidade não mudou muito no leste. Havia diversos partidos a escolher na cédula eleitoral, mas essa diversidade nem sempre era vivida no solo. De fato, surgiram novos proselitistas da conformidade política, como os Democratas-Cristãos de centro-direita (CDU). Sua campanha das "meias vermelhas" contra o Partido do Socialismo Democrático (PDS) --que surgiu do Partido Comunista da Alemanha Oriental e se tornou o atual Partido da Esquerda-- causou danos duradouros. Ela tornou ainda mais difícil para o único partido político significativo da Alemanha Oriental integrar-se à paisagem política da nova Alemanha reunificada. Foi uma campanha que difamou os que pensavam de modo diferente, com o único objetivo de conservar o poder.

Para muitos ex-alemães-orientais, a campanha foi uma afronta --eles se sentiram desprezados e ridicularizados. De fato, a discussão sobre as "meias vermelhas" foi essencialmente xenófoba, mas em vez de se dirigir contra estrangeiros visava os que pensavam diferentemente. E nessas campanhas de intolerância o capítulo da CDU na Saxônia com frequência assumia a liderança. É quase gratificante hoje que a própria CDU esteja sendo atacada --mas pelo fato de que o alvo desses ataques não se limita à CDU. Ele inclui todos os que apoiam a democracia, o esclarecimento e a razão.

Diante da disposição cada vez menor a defender o sistema democrático que temos hoje, ficou claro que foi um erro ter recusado por tanto tempo o reconhecimento ao Partido da Esquerda --reconhecimento por seu papel indiscutível no estabelecimento da ordem democrática na antiga Alemanha Oriental. Imagine, por um segundo, se o Partido da Esquerda retirasse todos os seus eleitos dos cargos públicos: as estruturas democráticas quase certamente desmoronariam em alguns lugares. Ainda hoje, alguns continuam esperando uma palavra de reconhecimento pela reeducação política que ocorreu no partido e na Alemanha Oriental. Em vez disso, o presidente Joachim Gauck --ele mesmo um produto da Alemanha Oriental-- ficou indignado quando um membro do Partido da Esquerda se tornou o governador da Turíngia.

A aptidão para resistir aos processos políticos e econômicos foi algo que os alemães-ocidentais aprenderam, mas os orientais não. Manifestações, protestos e greves fazem parte da caixa de ferramentas da democracia há gerações no oeste. No leste houve a mudança radical em 1989, e é por isso que apelos por levante revolucionário surgem rapidamente. Os que não têm acesso aos instrumentos de protesto, gritam sua ira. E às vezes essa ira é aproveitada: quando se trata de impotência, raiva (e estupidez), o partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD na sigla em alemão) mostrou-se mais que disposto a atuar como veículo.

Elogio disfarçado

Muitos dos atuais líderes da AfD foram socializados no leste, e o elogio mais ou menos disfarçado à Alemanha Oriental se tornou parte do repertório da AfD. Quem teria pensado, 25 anos atrás, que o uso de armas de fogo contra quem transgredisse as fronteiras da Alemanha seria discutido seriamente, como propôs a líder da AfD, Frauke Petry? Quem teria acreditado que uma chanceler seria criticada por abrir as fronteiras por motivos humanitários --os mesmos motivos que levaram ao rompimento da cerca na fronteira húngara em 1989?

É extraordinário quão rapidamente o novo-velho modo de pensar se espalhou, e quem hoje concorda com ele: não passaram nem dois anos desde os primeiros protestos do grupo anti-imigração Pegida em Dresden --partindo dos pedidos de uma sociedade exclusivista que se define como anti-islâmica-- para que o partido de centro-direita da Baviera União Social Cristã (CSU na sigla em alemão), partido irmão da CDU de Merkel, adotasse essa ideia básica. O apelo dos bávaros a tornar a situação de uma pessoa na sociedade alemã dependente de sua religião não difere das políticas que eram seguidas pelo Partido Comunista da Alemanha Oriental, apenas tem um enfoque diferente. E tais ideias parecem ser contagiosas: mais de 800 mil eleitores no próspero Estado de Baden-Württemberg votaram na AfD. Apesar das preocupações generalizadas sobre o leste, outras partes da Alemanha também correm riscos.

O avanço do desejo de homogeneidade alemão-oriental foi acompanhado de uma extraordinária transformação do partido. A AfD foi fundada por Bernd Lucke como um protesto contra a moeda comum europeia. Mas esse enfoque foi posto de lado, juntamente com muitos alemães-ocidentais que se uniram a Lucke no início, pela nativa da Saxônia Frauke Petry e outros que surfam na onda da islamofobia. Ela e seus aliados, sobretudo alemães-orientais, conseguiram combinar o que inicialmente parecia incompatível: o termo "alternativa", que foi moldado pela esquerda e a Alemanha Ocidental, com o desejo de homogeneidade que domina no leste. Seus pedidos por democracia direta tornaram-se mais um instrumento para difamar os estrangeiros.

A AfD adotou o slogan de 1989 "Nós somos o povo" e o redirecionou contra um governo eleito democraticamente (que é liderado por uma chanceler da Alemanha Oriental). O slogan "Nós somos o povo" é usado como arma contra as pessoas que são de outros lugares. Os seguidores da AfD ficaram em êxtase quando Merkel, frustrada pela crescente xenofobia, disse: "Este não é mais o meu país". Isso deu combustível para os que queriam uma Alemanha diferente, uma Alemanha alemã.

É claro que é uma espécie de curiosidade que um movimento político da Alemanha Oriental tenha se tornado uma ameaça séria a uma chanceler da Alemanha Oriental. E também não seria especialmente preocupante, se não houvesse muito mais que isso em jogo.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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