À procura do verdadeiro Reino Unido: os britânicos perderam a cabeça?

Christoph Scheuermann

  • Niklas Halle'n/AFP Photo

    2.jul.2016 - Milhares de pessoas foram às ruas do centro de Londres neste sábado (2) para protestar contra a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, o chamado Brexit. Os manifestantes carregavam cartazes dizendo: "o que vocês fizeram?", "nós amamos a União Europeia", "não ao Brexit" e outros

    2.jul.2016 - Milhares de pessoas foram às ruas do centro de Londres neste sábado (2) para protestar contra a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, o chamado Brexit. Os manifestantes carregavam cartazes dizendo: "o que vocês fizeram?", "nós amamos a União Europeia", "não ao Brexit" e outros

O que aconteceu com o Reino Unido? É uma pergunta que muitos europeus atualmente fazem. Eu viajei pelo país à procura de respostas e encontrei uma terra profundamente dividida


A Europa parece ter chegado a uma narrativa a respeito do Reino Unido: os britânicos perderam a cabeça. Um povo fora isso extremamente racional, segundo essa história repetida com frequência, sucumbiu a um espasmo de irracionalidade ao dar ouvidos a palhaços populistas e então dar às costas à União Europeia. Tudo o que nos resta é impedir que o vírus atravesse o canal e infecte o continente.

Há muito visto pela Europa como um tanto excêntrico, o Reino Unido ainda assim era um vizinho pragmático e aberto, um menos interessado em ideologia política e mais no livre mercado. Uma nação de comércio cuja história colonial a deixou familiarizada com o mundo em geral, uma nação que moldou a cultura pop com exportações que vão dos Beatles até Adele. A "Britannia Cool". Mas nos últimos anos, entretanto, os europeus passaram a ver o país de forma mais desconfiada, mais cética.

Primeiro veio a crise financeira de 2008, após a qual o Reino Unido mergulhou na pior crise econômica em décadas. Depois veio o referendo da Escócia há dois anos, que chegou perto de se separar do Reino Unido. O Parlamento também se recusou a aprovar uma ação militar na Síria, e mesmo durante o conflito na Ucrânia, os britânicos permaneceram calados. Apesar do governo britânico enviar dinheiro para os refugiados sírios, ele simultaneamente fortificou suas fronteiras. A ex-potência mundial aparentemente se retirou do mundo e se tornou ainda mais excêntrica. E então veio a Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia).

Antes do referendo, eu dei início a uma viagem pela ilha para melhor entender o país e escrever um livro. A jornada levaria meio ano. Os britânicos se tornaram estrangeiros para nós, o que torna ainda mais importante descobrir o que os motiva e, agora, descobrir como a catástrofe da Brexit aconteceu e o que acontecerá a seguir.

A resposta simples, após falar com penhoristas em Blackpool, mineiros desempregados em Wakefield e muitos outros, é esta: muitos no Reino Unido estão preocupados com as mesmas coisas que muitos europeus. Eles estão decepcionados com a Europa, furiosos com as elites, enojados dos políticos que prometem riqueza e depois cortam as pensões e serviços sociais. Populistas não são exclusividade do Reino Unido, é claro, mas infelizmente eles são mais bem organizados aqui.

Nação dividida

A resposta mais complicada é esta: rachaduras apareceram na sociedade britânica e elas são maiores e mais extremas do que em outros lugares. A desigualdade entre pobres e ricos é maior aqui do que em quase qualquer outro país na UE, e em nenhum outro lugar os bilionários e os carentes vivem tão próximos. O produto interno bruto per capita de Londres é de 186% da média da UE, porém vários dos bairros da cidade estão entre os mais pobres do país. Em partes do País de Gales, algumas pessoas ganham menos do que as pessoas na Sicília. Muitas sociedades apresentam divisões e a do Reino Unido nunca foi exceção, mas essas desigualdades agora se tornaram virtualmente intransponíveis. As coisas pioraram com o golpe desferido pela crise econômica na autoconfiança de um país que se define pelo seu próspero comércio, força econômica, diversidade e influência global.

Muitos britânicos não mais se sentem representados pelo Parlamento em Westminster e se tornaram cínicos a respeito das elites política, bancária e da mídia de Londres. No ano passado, 4 milhões de pessoas votaram no Ukip (Partido da Independência do Reino Unido), um partido populista de extrema-direita. Mas como o Reino Unido conta com um sistema com cláusula de barreira, que se transforma em uma desvantagem para os partidos pequenos, o Ukip conta com apenas um representante no Parlamento. Isso pode ter uma vantagem prática, mas não é um bom argumento de venda para a democracia e os partidos grandes estão sentindo as repercussões.

Os partidos Trabalhista e Conservador sempre se posicionaram de acordo com as divisões sociais do país: os trabalhistas a favor dos trabalhadores, os conservadores a favor dos empresários. O referendo sobre a UE confirmou que essa lógica não mais se aplica. Os trabalhistas em grande parte se dividiram em dois: uma classe média liberal urbana de inclinação de esquerda que votou contra a Brexit de um lado, de outro uma classe trabalhadora independente que foi a favor da saída da UE. Enquanto isso, o Partido Conservador é composto de nacionalistas contrários à UE e globalistas pró-negócios.

A sociedade britânica se tornou mais complexa, mas seu sistema político não reflete isso. A classe operária dos romances de Charles Dickens e dos ensaios de George Orwell desapareceu. Os sociólogos agora a dividem em "trabalhadores prósperos", "classe média tecnológica" e "trabalhadores emergentes do setor de serviços". As siderúrgicas, minas e estaleiros que forneciam a milhões de famílias sua identidade e o pão de cada dia estão mortos. As forças que unem a "classe trabalhadora" enfraqueceram.

Há não muito tempo a Inglaterra era a oficina da Europa. O carvão exerceu um papel importante na ascensão do império e na industrialização. Durante os anos 80, o carvão alimentou o conflito entre os mineiros do país e o governo da primeira-ministra Margaret Thatcher. As greves, os protestos prolongados, o choque entre os trabalhadores e o Estado, tudo isso está profundamente marcado na consciência coletiva.

O carvão uniu o país e o dividiu em dois. Quando a indústria do carvão morreu lentamente, ela provocou uma dor fantasma que é sentida até hoje. A última mina de carvão do país fechou pouco antes do Natal do ano passado em Knottingley, perto de Leeds. Um ex-mineiro, que trabalhou nas minas por 47 anos, me disse que ficou triste por muitos de seus amigos terem perdido seus empregos. Ainda mais triste, ele disse, era o fato de ter sido impedido de concluir o trabalho de extrair todo o carvão da região.

Economia fala mais alto que a política

A classe operária branca se sente abandonada: seus membros mais velhos, por carecerem de senso de direção no Reino Unido globalizado e multicultural, e seus mais jovens, por sentirem que lhes está sendo negado um futuro. Novas formas de exploração surgiram: contratos temporários, posições precárias como motoristas ou mensageiros no extremo mais sombrio da "economia de compartilhamento". Muitos desses empregos são ocos e insatisfatórios. "Esse novo trabalho não faz o que o velho trabalho fazia: ele não oferece um senso de identidade, comunidade e de autoestima", escreveu recentemente o escritor londrino John Lanchester no "London Review of Books".

Desde a crise financeira, o sentimento mais comum é de perplexidade, incompreensão, desorientação. A frase que costuma ser mais ouvida é: "Algo aqui está errado". Neste sentido, a promessa da campanha pelo Brexit de "retomar o controle" foi tão estrategicamente astuta quanto desonesta.

A nação que encontrei durante minhas viagens estava ávida por liberdade, mas incerta sobre onde encontrá-la. Por décadas, o Reino Unido media a si mesmo com base em seu passado, e o que disse o ex-secretário de Estado americano, Dean Acheson, em 1962, ainda se aplica: "O Reino Unido perdeu um império e ainda não encontrou um novo papel".

Durante a campanha pelo Brexit, tragédia e farsa se sobrepuseram de uma forma que só é possível na terra de Shakespeare. A parte mais estranha, entretanto, foi quão óbvio tudo se tornou: raramente tantas pessoas mentiram tanto, raramente tantas inverdades foram desmascaradas. Era como se tudo fosse uma vasta ironia, uma piscadela, um jogo sem consequências jogado pelos ex-alunos de Eton.

Os garotos de Eton

Metade do Reino Unido é dirigida por pessoas que cursaram Eton, incluindo os escritórios de advocacia, bancos e ministérios do governo. A busca para o motivo de o establishment estar se comportando de modo tão egocêntrico e temerário leva necessariamente à escola para meninos em regime de internato às sombras do Castelo de Windsor. A primeira-ministra Theresa May, filha de um vigário do interior do sul da Inglaterra, pode se distanciar da classe privilegiada, mas isso não significa que sua influência está desaparecendo. Outro ex-aluno de Eton, Boris Johnson, é o ministro das Relações Exteriores do governo.

A elite britânica é diferente das classes de liderança em outros países, no sentido de que foi em grande parte deixada em paz. Por séculos, não ocorreu nenhum levante violento contra a elite como visto na França e Alemanha. E no Reino Unido, a elite continua recrutando membros de apenas algumas poucas instituições, incluindo Eton e as universidades de Oxford e Cambridge.

Apesar de apenas 7% da população ter frequentado uma escola particular, quase um terço dos parlamentares e mais da metade dos principais jornalistas do país são provenientes de instituições educacionais particulares. Entre os líderes militares e no Judiciário, são três quartos.

Aqueles que não são membros desse clube enfrentam dificuldades, e para muitos, é uma dificuldade que confirma sua sensação de que vivem em um sistema econômico, não em um sistema político. Para aqueles que cresceram em South Wales, ou no noroeste da Inglaterra, o Reino Unido é uma oligarquia hipercapitalista cinzenta, na qual qualquer um com muito dinheiro ou sobrenome famoso pode subir a escada. A "Britannia" fria

A democracia funciona melhor quando a economia está crescendo, o motivo para os conservadores estarem tentando oferecer aos eleitores excluídos um novo lar, se transformando no novo partido dos trabalhadores. Theresa May reconheceu essa oportunidade. Sob o socialista à moda antiga Jeremy Corbyn, o Partido Trabalhista está em ruínas. May não ameaçará o status dos conservadores como único partido capaz de governar ao voltar os ideólogos da Brexit dentro de seu próprio partido contra ela.

Ela é a segunda mulher a se tornar primeira-ministra depois de Margaret Thatcher. Ambas compartilham um relacionamento disciplinado, quase autoexplorador, com o trabalho, mas é aí onde as semelhanças terminam. Na Conferência do Partido Conservador, May exaltou o Estado e de que deve estar preparado para fazer o que os indivíduos e mercados não podem. Ela falou sobre os direitos dos trabalhadores e disse que seria firme com as empresas e conglomerados que evitam pagar impostos.

Para muitos dentro do partido dela, aqueles que gostariam que o Estado limitasse suas atividades às Forças Armadas e coleta de lixo, essa retórica intervencionista é uma afronta. May, entretanto, conseguiu para si mesma um certo espaço de manobra político para adotar essa posição, ao assumir uma linha dura contra a UE e os imigrantes. Ela deseja ser a mulher que negociará o acordo de livre comércio britânico-europeu. Isso levará anos, talvez uma década. E depois, este país será diferente.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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