Acordo entre UE e Turquia falha, e busca de refugiados pela Grécia aumenta

Eren Caylan, Giorgos Christides e Maximilian Popp

  • Aris Messinis/AFP

    Crianças em campo de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia

    Crianças em campo de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia

Abdul Shakoor pensou que nada mais conseguiria chocá-lo. Afinal, ele sobreviveu a uma tentativa de assassinato por agentes de segurança do Paquistão, segundo afirma, além da tortura em uma prisão em Lahore. "Mas eu estava enganado."

Aos 33 anos, Shakoor está no campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos. Ele mostra as barracas de plástico superlotadas, nas quais mulheres, crianças e doentes se deitam encostados uns aos outros, o muro de cimento que cerca o campo e o arame farpado. "Eu esperaria esse tipo de condições no Paquistão ou no Afeganistão", diz. "Mas não na Grécia."

Devido ao influxo de refugiados, a infraestrutura em Lesbos e em outras ilhas gregas corre risco de um colapso. O modelo europeu não funciona mais. Apesar de o número de imigrantes ter diminuído depois que o acordo UE-Turquia entrou em vigor, em março, o número de refugiados que busca a Grécia aumentou de novo, parcialmente em reação ao golpe militar fracassado na Turquia em 15 de junho. Em agosto e setembro, 6.527 refugiados atravessaram o mar Egeu, o dobro que em maio e junho. A crise na Turquia, ao que parece, não só está assustando muitos turcos, como também expulsando refugiados do país.

Atualmente, há pelo menos 15 mil migrantes nas ilhas gregas, com acampamentos capazes de abrigar apenas a metade desse número. E novos barcos chegam todos os dias. Os atritos entre os moradores dos campos --e entre refugiados e habitantes locais-- tornaram-se frequentes.

O governo grego enfrenta um dilema, segundo o assessor político Gerald Knaus, cujo grupo de pensadores, a Iniciativa pela Estabilidade Europeia, ajudou a conceber o acordo UE-Turquia. Os gregos, segundo ele, não podem mais ignorar o caos nas ilhas.

"Morto em alguns meses"

Se o primeiro-ministro Alexis Tsipras concretizar sua recente promessa de transferir um grande número de refugiados para o continente, será um sinal para os contrabandistas na Turquia de que a rota do Egeu foi reaberta. "Se a UE não fizer alguma coisa rapidamente, o acordo para os refugiados estará morto em poucos meses", adverte Knaus.

A escuridão cai sobre Moria. Abdul Shakoor está sentado na barraca de amigos e mostra no celular uma foto de tendas queimando. No final de setembro, refugiados em Moria provocaram um incêndio devido à frustração pelas condições no acampamento. Shakoor prevê novos conflitos. "As pessoas estão desesperadas", diz.

Ele afirma que cresceu em uma família abastada no Paquistão. Seu pai era proprietário de terras, e Shakoor, que dirigia um restaurante, envolveu-se em política. Depois que ele mudou do partido no governo, a Liga Muçulmana, para a oposição, seus antigos aliados o ameaçaram de morte. Ele ficou preso durante três meses em Lahore, foi espancado, torturado com barras de ferro e recebeu choques elétricos. Seu corpo está coberto de cicatrizes e marcas de queimadura. Shakoor tem mulher e cinco filhos no Paquistão e escolheu um pseudônimo para esta reportagem para não ameaçar a segurança deles. Fugiu para o Irã e depois para Turquia e Grécia. Está empacado em Moria desde março.

Segundo o acordo, os migrantes deveriam ficar nos acampamentos nas ilhas gregas, ser registrados e depois enviados de volta à Turquia após um processo acelerado. As autoridades gregas, entretanto, não aceitaram o pedido de Bruxelas de reconhecer a Turquia como um "país de origem seguro". Pelo contrário, estão examinando cada caso individualmente para determinar se o solicitante tem direito à proteção na Europa.

No rastro do acordo UE-Turquia, a Grécia só deportou 643 migrantes, incluindo 53 sírios que retornaram voluntariamente à Turquia. Em setembro, um número maior de refugiados chegou às ilhas gregas por dia que o de migrantes que deixaram o país no mês inteiro.

Preso em Moria

As autoridades gregas estão sobrecarregadas com a situação. Em Lesbos, nove funcionários foram encarregados de tomar decisões sobre os pedidos de 6.000 refugiados. Um desses funcionários foi brevemente hospitalizado com esgotamento. Vários meses atrás, a UE anunciou que estava enviando centenas de especialistas em asilo à Grécia, mas, até agora, segundo o governo grego, só cerca de 35 oficiais chegaram às ilhas.

Em seu escritório em Lesbos, o advogado Emmanouil Chatzichalkias percorre os arquivos de refugiados que estão empacados em Moria há vários meses. Ele diz que ninguém sabe quando seus pedidos serão avaliados --em uma semana, um mês ou um ano.

Ele representa uma mulher afegã e seus cinco filhos, que chegaram a Lesbos em abril, mas só foram registrados pelas autoridades no início de outubro. Agora, a mãe precisa esperar mais seis meses para ter uma audiência. Segundo o Alto Comissariado para Refugiados da ONU (UNHCR), menos de 5% dos pedidos apresentados por afegãos e iraquianos foram processados desde abril. Durante semanas, as autoridades se recusaram a permitir a saída de um paquistanês que sofreu um infarto e não podia ser tratado em Lesbos. "Lesbos se transformou em uma prisão", diz Chatzichalkias.

Mas por que o número de refugiados aumentou de modo significativo nos últimos meses? O motivo pode estar no outro lado do Egeu, na Turquia.

Em um quarto de hotel abafado e iluminado a néon em Esmirna, cidade portuária no sudoeste da Turquia, Ziad Zamriq, 33, espera por um barco de contrabandistas que o levará, com sua mulher, à Grécia. Sentados lado a lado na cama, Zamriq segura a mão da mulher. "Se tivéssemos uma alternativa, não pegaríamos o barco", diz.

Quando Zamriq chegou a Istambul, no verão de 2014, após escapar da Síria, pensou que tivesse alcançado seu destino. Encontrou um emprego em uma loja de suvenires e alugou um apartamento na periferia da cidade. Zamriq, que tinha trabalhado como guia turístico em Damasco, queria ficar na Turquia.

Turquia pós-golpe

Mesmo antes de 15 de julho, os refugiados tinham problemas para ganhar o suficiente para pagar as contas na Turquia. Apesar de mais de 2,7 milhões de pessoas terem encontrado abrigo na Turquia desde o início da guerra civil na Síria, mais que em qualquer outro país, a maioria delas vive nas grandes cidades como Istambul ou Ancara, sem qualquer tipo de ajuda do governo.

Desde a tentativa de golpe, segundo Zamriq, tornou-se quase impossível para um migrante encontrar trabalho. O turismo despencou e a economia está estagnada --e Zamriq perdeu o emprego na loja. Inicialmente, ele se virou com bicos na construção, em fábricas ou restaurantes, mas seus salários ainda não bastavam para pagar o aluguel.

No início de julho, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, apresentou a perspectiva da cidadania turca para os sírios. Mas Zamriq diz que ele nem sequer conseguiu se registrar como refugiado.

Em sua última consulta ao departamento de estrangeiros em Istambul, em agosto, disseram-lhe que os sírios não recebem mais documentos. Dois amigos dele foram recentemente deportados para a Síria, segundo disse, juntamente com dezenas de outros refugiados.

O diretor da UNHCR na Europa, Vincent Cochetel, disse que mesmo os poucos sírios que retornaram voluntariamente da Grécia à Turquia até agora não receberam qualquer título de proteção, apesar de a Turquia ter concordado em fazê-lo como parte do acordo. Os refugiados são abrigados em campos aos quais representantes da ONU não tiveram acesso desde a tentativa de golpe.

Essa situação, por sua vez, sustenta a decisão das autoridades gregas de não considerar a Turquia um terceiro país seguro. O Centro para Beleza Política, um coletivo de artistas que queria levar refugiados da Turquia à Alemanha, moveu um processo em Berlim contra o acordo UE-Turquia.

Ziad Zamriq caminha pelo bairro ao redor da estação ferroviária de Esmirna, passando por lojas de roupas que exibem coletes salva-vidas. Ele tem hora marcada com um contrabandista, um sírio de meia idade que se apresenta como Abu Ali. Antes de abril, segundo diz, ele contrabandeava pessoas à Grécia por 700 euros cada uma. Desde o acordo UE-Turquia, menos refugiados ousaram fazer a viagem e ele reduziu o preço pela metade. Abu Ali espera que seu negócio melhore logo, porém. Desde 15 de julho, as inspeções realizadas pela guarda costeira turca se tornaram menos frequentes.

"Fim da política de asilo europeia"

A caçada a apoiadores do golpe paralisou parcialmente o aparelho do Estado turco. Erdogan suspendeu vários milhares de policiais e militares. Ao mesmo tempo, a guerra contra o grupo terrorista curdo PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e a operação militar na Síria estão mobilizando as tropas. "No momento, temos preocupações mais prementes do que policiar nossas fronteiras", diz um oficial.

Assim, uma tempestade está se formando. As inspeções menos intensas, a pressão econômica sobre os refugiados na Turquia, a impotência das autoridades gregas e os campos de refugiados lotados --tudo isso aumenta a pressão contra o acordo dos refugiados. O presidente Erdogan também ameaça abolir o acordo por causa da exigência de vistos para os turcos.

O assessor político Knaus, que muitos descrevem como o criador do acordo, adverte que se este falhar poderá haver o caos. Centenas de milhares de refugiados, diz ele, chegariam à Grécia e tentariam romper as cercas ao norte. Os Bálcãs se transformariam em um campo de batalha para migrantes, contrabandistas, guardas de fronteira e soldados, afirma Knaus. "Seria o fim da política de asilo europeia."

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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