Opinião: Candidato desequilibrado, Trump ataca a essência dos EUA

Charles Hawley

  • Damon Winter/The New York Times

    O candidato republicano Donald Trump durante o último debate presidencial

    O candidato republicano Donald Trump durante o último debate presidencial

Ser americano significa acreditar na Constituição: essa narrativa, apesar de suas falhas óbvias, manteve o país unido ao longo dos séculos. Hoje, porém, Donald Trump apresenta uma identidade totalmente diferente para os EUA. E as consequências são potencialmente horríveis.

Todo país tem um mito de fundação, uma narrativa que serve de base para sua identidade nacional. Muitas vezes, tais histórias não se sustentam sob uma análise histórica, mas isso não vem ao caso. Essas histórias ajudam as nações a determinar quem pertence e quem não.

Para muitos países em todo o mundo, particularmente na Europa, essas narrativas se baseiam até certo ponto na raça, etnia, tribo ou algum outro atributo supostamente inerente à população em questão. Na Alemanha, por exemplo, é a batalha em 9 a.C. na floresta de Teutoberger, onde tribos germânicas lideradas por Arminius se uniram para derrotar os romanos, garantindo ao mesmo tempo sua independência e a posse do território. Na Romênia, é a noção de que eles descendem dos romanos e se estabeleceram na área antes que qualquer das outras minorias hoje presentes entrasse em cena. Os nacionalistas irlandeses do século 19 tentaram atribuir aos celtas a origem do país.

Os Estados Unidos da América sempre foram diferentes. Lá, o mito fundador não se concentra em um determinado atributo étnico; ele se foca em um único documento: a Constituição. Tudo o que é necessário para ser americano é acreditar na democracia delineada na Constituição, não importa de onde você venha. Raça, religião, etnia, nada disso tem importância, segundo a narrativa.

A história americana, é claro, mostra muito claramente que o sentido de identidade é profundo no país, sobretudo no que se refere à divisão racial. Mas o excepcionalismo americano, o hasteamento de bandeiras, o patriotismo declarado, a declamação do Juramento de Fidelidade nas escolas e a transição pacífica de poder são todas expressões muito claras da crença de que os EUA, a mais antiga democracia do mundo, descobriram algo que o resto do mundo não é suficientemente esclarecido para compreender. E tudo isso se enraíza no que os frequentemente citados Pais Fundadores escreveram na Constituição.

Um dos grandes choques de nosso atual ciclo eleitoral foi a descoberta de que o mito nacional americano --a democracia americana-- não é tão robusto quanto pensávamos. Donald Trump ameaça destruir a ambos.

Certamente, ele é apenas a manifestação extremamente grosseira do crescente desprezo pela democracia que se desenvolveu nos últimos anos na direita americana, promovido por um Partido Republicano que nunca reconheceu de fato Barack Obama como presidente dos EUA devidamente eleito. (Com efeito, em um evento de campanha no sábado, 14, Trump referiu-se a Obama como o "presidente entre aspas".) Ele é o produto de bloqueios ao governo, de âncoras de programas de entrevista no rádio que passaram anos promovendo teorias da conspiração, de republicanos do Tea Party que rejeitaram a ideia de consenso democrático e do anti-intelectualismo oportunista que se tornou tão entrincheirado no Partido Republicano que qualquer pessoa com algum tipo de perícia, especialmente os jornalistas, é automaticamente visto com suspeita e franca hostilidade.

Retórica de um ditador

Tudo o que foi necessário para revelar até onde Trump está disposto a seguir foi o recuo decepcionado de alguns importantes republicanos quando se tornou impossível ignorar que seu candidato é um predador sexual. Mas agora que foi "libertado das algemas", como ele mesmo disse, ficou aparente que o dia 8 de novembro muito provavelmente não será o fim do que ele passou a chamar de seu "Movimento Patriótico".

A retórica que Trump começou a usar com frequência cada vez maior --que ele prenderá Hillary Clinton caso ganhe, que a eleição é manipulada, que seus seguidores devem monitorar as urnas e "vigiar outras comunidades", que ele conterá a mídia "corrupta" --é a retórica da ditadura. Mas também atrai diretamente uma parcela significativa da população, que se sente abandonada pela liderança do país, deixada para trás pela globalização e ameaçada pelo crescimento demográfico.

O slogan de campanha de Trump, "Tornar a América novamente grande" poderia sugerir que ele adere à narrativa do excepcionalismo americano e, portanto, ao mito fundador dos EUA. Mas grande parte do que ele diz --proibir a entrada de muçulmanos no país, reforçar a vigilância interna, expandir o uso da tortura-- está em total oposição à Constituição. Na verdade, a "grandeza" a que Trump quer retornar, como ficou claro, é uma livre de imigrantes e de negros. Uma onde os americanos brancos não encontrem adversidade, permitindo que sua suposta superioridade natural brilhe.

Trump está sugerindo uma narrativa totalmente diferente da identidade americana, com base na raça e na religião.

Conforme sua campanha avançou, ficou claro que o público-alvo do candidato republicano recebeu a mensagem. Muitos jornalistas e intelectuais judeus notaram nos últimos meses que o grau de antissemitismo declarado nos EUA é de uma intensidade que eles nunca haviam sentido. Nas redes sociais, os nomes judeus são marcados com parênteses triplos, a versão do Twitter da estrela amarela, e o próprio Trump tuitou uma foto de Hillary contra um fundo de dinheiro, com a mensagem "a candidata mais corrupta de todos os tempos" no interior de uma Estrela de Davi.

Perturbado

Essa imagem teve origem na extrema-direita, e não foi a única vez que ele tuitou tais mensagens e memes. Por exemplo, Trump retransmitiu várias vezes missivas de apoio do ativista de direita Jason Bergkamp, que escreve para a publicação online Vanguard 14 e frequentemente aborda o "genocídio branco" e o nacionalismo.

Do mesmo modo, Trump retuitou uma montagem dele mesmo como Pepe o Sapo, um personagem de quadrinhos que foi adotado pela "direita alternativa" #[conjunto de grupos e indivíduos de extrema-direita cuja ideologia básica é a superioridade da "identidade branca"] e aparece cada vez mais nos comícios de Trump em camisetas e bonés. Seu filho, Donald Trump Jr., também tuitou várias vezes imagens de Pepe o Sapo.

Por mais revelador que isso seja, entretanto, decodificar esses símbolos quase não é mais necessário, pois a campanha já chega à sua triste conclusão. Em 13 de outubro, Trump fez um dos discursos mais desequilibrados de toda a sua campanha. Em um evento em West Palm Beach, na Flórida, ele disse que existe uma "estrutura de poder global" que roubou a classe trabalhadora americana. Ele também disse que Hillary Clinton "se reúne em segredo com bancos internacionais para tramar a destruição da soberania dos EUA" e que a eleição poderá na verdade "ser controlada por um pequeno grupo de interesses especiais globais que domina o sistema".

Tais afirmações de tom antissemita são comuns na direita alternativa, e não é por acaso que elas aparecem no teleprompter de Trump. O site Buzzfeed relatou que o discurso foi coescrito por Stephen Bannon, o executivo-chefe da campanha de Trump. Para entrar na campanha, Bannon pediu licença de seu cargo de presidente do site Breitbart News, que, como disse o próprio Bannon, é uma "plataforma da direita alternativa".

Outro membro influente dessa cabala da supremacia branca é Alex Jones, o apresentador de rádio/teórico da conspiração de direita amplamente seguido que recentemente ganhou uma certa notoriedade na corrente dominante ao afirmar que Hillary Clinton e Barack Obama são demônios e cheiram a enxofre. Em dezembro de 2015, Trump apareceu no programa de Jones e disse que seu anfitrião tem uma "reputação incrível".

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Visão distorcida da América

Essa visita foi arranjada por Roger Stone, um estrategista republicano que foi assessor da campanha de Trump até agosto passado e continua afiliado à campanha. Stone ajudou a organizar a "Marcha Contra o Roubo" na convenção republicana, para evitar o suposto esforço do establishment republicano para roubar a nomeação de Trump. Stone ganhou manchetes em fevereiro deste ano ao se referir a uma personalidade hispânica da CNN como uma "Cadela Intitulada de Diva" em um tuíte e chamando outro de "negro idiota".

Depois há a mais recente afirmação de Trump de que Hillary Clinton foi "bombeada" com drogas durante o segundo debate. Mais uma vez, é uma ideia que teve origem na direita alternativa, aparecendo muito antes da absurda afirmação de Trump no site de direita Mad World News, o mesmo que recentemente reviu a teoria favorita da direita racista de que Michelle Obama é na verdade um homem.

A lista certamente poderia continuar. Mas a evidência é clara: a visão da América de Donald Trump não tem raízes na Constituição, mas na ideia de que a América Branca está sendo atacada por todos os lados e deve ser salva do establishment. Seu Movimento Patriótico é uma cruzada pró-identidade, aberta aos que sonham com uma América que não é para os democratas que amam a liberdade, e sim para os que desejam uma revolução branca machista para retomar o poder.

E ele armou retoricamente o movimento para continuar além da eleição de 8 de novembro. Sua total rejeição a Hillary Clinton como candidata legítima escolhida democraticamente por um partido que representa a metade ou mais do eleitorado americano, combinada com suas constantes advertências de que a eleição é manipulada, fornecem toda a desculpa necessária para que a direita branca continue a luta depois da eleição. É difícil ver a trama, recém-denunciada, de um grupo que se chama de Os Cruzados para explodir um complexo habitacional de somalis no Kansas um dia depois da eleição como outra coisa que não uma resposta ao mal disfarçado chamado às armas feito por Trump.

Ele irá admitir?

Em 2000, depois que a dura campanha que opôs Al Gore a George W. Bush terminou em recontagem na Flórida e uma decisão da Suprema Corte que essencialmente concedeu a Presidência a Bush, Gore fez um discurso. Ele disse: "Agora a Suprema Corte dos EUA falou. Que não haja dúvida: embora discorde fortemente da decisão do tribunal, eu a aceito. Aceito a finalidade desse resultado... E nesta noite, em nome da união como povo e da força de nossa democracia, ofereço minha aceitação".

Pesquisas indicam que o resultado desta eleição não será tão apertado. Mas para Trump e seus seguidores sua derrota será mais uma prova de que os verdadeiros americanos --os brancos-- estão mais uma vez sendo roubados. Sua mudança da narrativa americana de um país baseado na Constituição para uma nova pátria imaginária de brancos oprimidos não permitirá que ele faça esse discurso.

Tendo lançado a promessa de uma América sob o poder branco, parece duvidoso que seus seguidores recuem silenciosamente para o fundo após a eleição. Mesmo que Trump abandone o papel de homem-forte que criou para si mesmo, o movimento, a definição alternativa da América, continuará.

A história nos ensina que mudar definições, modificar mitos nacionais, é uma proposta extremamente difícil e muitas vezes sangrenta. Esse pensamento --e as consequências que tal mudança necessariamente provoca-- serão o verdadeiro legado de Trump. E é algo horrível de se contemplar.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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