Opinião: Trump transformaria os EUA em um país explosivo e perverso dentro de um mundo imprevisível

Georg Diez

  • Carlo Allegri/Shannon Stapleton/Reuters

Às vésperas das eleições americanas, Hillary Clinton mantém a liderança nas pesquisas, mas por pouco. O sucesso de Donald Trump é o resultado lógico de uma erosão de décadas da democracia liberal nos Estados Unidos.

Mal consigo acreditar nisso, e meus dedos tremem enquanto digito, mas temo que Donald Trump sej eleito o próximo presidente dos Estados Unidos.

Como eu cheguei a essa conclusão?

É como um acidente de trem em câmera lenta que assistimos com assombro, medo e repulsa ao longo dos últimos meses. Mas agora, pouco antes de os trens finalmente colidirem um com o outro, algo parecido com uma compreensão começou a aparecer.

Pode ter sido um erro focar demais nos trens em si. A verdade história é a deste país, que está tão profunda e traumaticamente dividido. O país está tão profundamente dividido pelo choque e pela mudança, tão tomado pelo medo, que mal dá para reconhecê-lo.

A verdadeira história é a dos últimos 35 anos. Desde a Revolução Reagan de 1980, um sindicato conservador lutou sistematicamente para destruir as fundações da democracia liberal ao elevar a economia, o egoísmo e o darwinismo social acima de tudo.

A verdadeira história é a dos últimos 25 anos. Desde a eleição de Bill Clinton em 1992, os democratas, os esquerdistas e as forças liberais (como aconteceu com o New Labour no Reino Unido e com os Social-Democratas na Alemanha) capitularam diante da globalização como se fosse uma lei da natureza. Pouco a pouco, eles foram abandonando um segmento significativo de seus eleitores, composto por trabalhadores e pela classe média baixa.

A verdadeira história é a dos últimos oito anos, durante os quais Barack Obama foi presidente. Para muitos americanos, sua presidência continua sendo uma desonra e uma desgraça porque o racismo tem raízes tão profundas na história americana e agora para muitos brancos parece ser uma questão de sobrevivência. Às vezes é como se fosse tudo que lhes restasse.

A eleição de Donald Trump pelas mãos desses americanos brancos seria uma reação direta aos oito anos de Barack Obama, um homem que personificou o futuro e as oportunidades deste país. Juntamente com reacionários que vieram antes, Trump evoca um passado idílico, ao qual é impossível retornar, nem mesmo com violência.

Uma batalha de retaguarda dos derrotados

Então seria uma tragédia se Trump vencesse a eleição, mas isso teria uma certa lógica histórica brutal, porque o pêndulo muitas vezes oscila forte, primeiro em uma direção e depois em outra. O que está acontecendo nos Estados Unidos—e isso também pode ser dito sobre a Europa—é  uma luta a respeito da "identidade branca", como o "New York Times" descreveu. É a batalha de retaguarda de uma maioria branca em processo de desaparecimento.

Mas é também a batalha de retaguarda dos derrotados—ou  pelo menos aqueles que se veem como tal— contra o processo da globalização, que tanto os republicanos quanto os democratas, desde Reagan até Obama, elevaram como a chave para uma prosperidade futura. Em vez disso, a globalização deixou grandes áreas da Virgínia Ocidental, de Ohio e da Pensilvânia e de outros lugares desoladas e vazias, do ponto de vista material, moral e político. Isso alienou permanentemente segmentos da população do consenso político ou até mesmo do senso comum.

Donald Trump lançou-se nesse vácuo com uma impiedosa brutalidade que pegou a elite republicana de surpresa e mutilou o partido de um futuro previsível, e que deixou a elite liberal do país perplexa e horrorizada. Eles simplesmente não conseguem acreditar que esse parvo vulgar, esse porco assediador, esse demagogo idiota possa ter uma chance contra sua Hillary.

Teriam os jornalistas subestimado Trump?

Porque uma coisa há muito estava clara. Ela era a pessoa ideal. Amplos segmentos da elite da mídia liberal já haviam chegado a esse consenso há muito tempo, como descreveu recentemente o consumado Thomas Frank. Primeiro Bernie Sanders bagunçou o coreto, um candidato que eles procuraram logo rejeitar, afastando assim um grande número de eleitores jovens. E então Donald Trump se tornou o convidado penetra na festa de coroação da rainha democrata.

Muitos escritores de jornais e revistas liberais tinham certeza, e assim permanecem até agora, de que Trump não tinha mais chances, após os debates e as revelações de seus privilégios tributários e de seu tangível sexismo. Todos os dias o "New York Times" apresentou um gráfico mostrando, até poucos dias atrás, que Hillary Clinton tinha 92% de chance de ser eleita. Poucas vezes o jornalismo de dados chegou tão baixo.

No entanto, o que todos deixaram passar foi que havia entusiasmo insuficiente e poucas razões convincentes para se apoiar Hillary —e que havia muitas boas razões para se estar a favor de Trump, gostassem dele ou não. E os debates mostraram ao mundo inteiro que havia muitos, muitos motivos para temer Trump: ele apresentou orgulhosa e abertamente o programa antidemocrático de um dirigente autoritário que não teria nenhuma consideração pela lei vigente ou pela dignidade humana.

Com Hillary na cadeia, dane-se o meio ambiente, muralha na fronteira com o México, bomba no Estado Islâmico, acabe com eles, Trump montou uma plataforma do horror. Seus cortes nos impostos fariam o capitalismo radical de Reagan parecer pitoresco; ele "cancelaria" o acordo climático de Paris; ele estabeleceria um clima de ódio e desconfiança contra negros, hispânicos, muçulmanos e todas as outras minorias; ele indicaria juízes de extrema-direita para o Supremo Tribunal, determinando assim o clima social a respeito de questões decisivas como o porte de arma e o aborto por um bom tempo.

A lógica arrepiante que sustenta essa plataforma é que o país ainda está sofrendo as consequências das crises econômicas e financeiras que arruinaram parte da classe média desde 2008. Aqueles que de qualquer forma votarão em Trump estão agindo mais ou menos seguindo a mesma lógica de uma pessoa que tenha tido seu carro, casa e prataria roubados, mas que convida o ladrão para jantar de qualquer jeito, para que ele possa levar a mesa e as cadeiras também.

Um beco sem saída para os partidos políticos

Mas eles estão fazendo isso de qualquer forma e levou muito tempo até que os formadores de opinião de elite percebessem o que estava acontecendo. Thomas Frank descreveu o fenômeno em seu livro "Listen, Liberal", assim como George Packer na "New Yorker": O GOP, que por muito tempo foi o partido dos ricos, com Trump se tornou o partido da classe trabalhadora e dos desprovidos de direitos, porque eles se sentiram abandonados pelos democratas.

Então essa campanha —feia, grotesca e danosa tanto à decência quanto à prática da democracia— de fato é indicativa de algo mais amplo. É indicativa de uma mudança tectônica que é muito mais significativa e que terá consequências duradouras. Através de suas manobras e maquinações, os dois maiores partidos políticos dos Estados Unidos levaram o sistema democrático para um beco sem saída—e é difícil imaginar um escape sem uma mudança radical.

Os republicanos são os principais responsáveis pela extensa destruição do cenário político que tornou possível um agitador como Trump. Desde 2009, eles passaram a travar uma batalha política tão violenta contra Barack Obama —caracterizada pela manipulação e pelo entrave a ele a cada passo dado— que o resultado foi um dano à democracia. As acusações de Trump de que o sistema estaria "armado" foram recebidas com grande aprovação pelo fato de que os próprios republicanos passaram muito tempo pervertendo cinicamente o sistema.

O fato de que o partido se tornou cada vez mais radicalizado nos últimos anos —a ponto de George W. Bush hoje fazer parte da ala da esquerda do partido— teve um papel importante. O presidente da Câmara, o republicano Paul Ryan, até se descreve como um "agitador da direita" e como um "conservador da ala conservadora do movimento conservador."

Os movimentos não estão interessados em governar; eles têm o objetivo de transformar a sociedade. É isso que conecta a revolução conservadora dos republicanos com a ascensão da consciência liberal tal como personificada por Bernie Sanders. Mas faz pouco sentido ver esses dois fenômenos através das lentes do populismo, porque um lado se baseia no medo, no ódio e na exclusão, enquanto o outro prega justiça, justiça e redistribuição.

Fica claro que a sociedade americana não pode continuar por esse caminho por muito tempo. As tensões que têm estado aparentes nos últimos anos cresceram demais, desde a classe média estagnada até o racismo estrutural que se tornou manifesto no sistema prisional do país de tal forma que agora pode ser comparado com um novo tipo de escravidão.

É desastroso que um racista com tendências fascistas tenha chegado tão perto de assumir o poder neste país, um homem que apela ao ódio, à ganância e aos instintos mais baixos, um agitador que manipula as pessoas umas contra as outras, que abomina perdedores e que segue o lema: o poder faz a razão. Um mentiroso autoritário, narcisista, maníaco, manipulador e perigoso que é capaz de qualquer coisa.

Divisão e reorganização

É por isso que, apesar de todas as críticas a Hillary Clinton —cuja política e erros ainda caem dentro do domínio da racionalidade—não  consigo entender como algumas pessoas podem ser tão fascinadas por suas fantasias destrutivas a ponto de quererem Trump como presidente. Seria transformar os Estados Unidos em um país explosivo e perverso dentro de um mundo explosivo e imprevisível.

Existem boas razões para se opor a Hillary, uma figura transicional de uma era de injustiça para uma era que será moldada por uma nova geração. O problema dela é que ela não consegue se libertar dessa imagem. Ela provavelmente não conseguirá motivar um segmento do eleitorado afroamericano, que ficou tão eletrizado por Obama, e que poderia lhe custar essa eleição. Será por pouco, por muito pouco.

Mas os Estados Unidos estão no processo de se dividir e se rearranjar: são os Estados Unidos rurais versus as cidades grandes; são os brancos contra todos os outros; é a classe média contra todos os outros; são as guerras de anos passados, que pesaram sobre essa campanha e levaram muitos veteranos desses conflitos destrutivos a votarem em Trump, ainda que os ataques contra o Iraque e o Afeganistão tenham sido conduzidos por presidentes republicanos.

Trump, o irracional, não está só se aproveitando de Putin, do WikiLeaks, do FBI e do machismo agressivo que reluta em ver uma mulher na Casa Branca. Ele também está se beneficiando das divisões que ele ajudou a criar. Ele é um moto-contínuo de ódio.

No entanto, nada aconteceu ainda. Tudo continua sendo possível.

Qual era o lema de campanha de Barack Obama, mesmo?

Esperança.

De qualquer forma, aparentemente Michelle Obama parece estar se preparando para 2020.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos